Caso Gerson, do Flamengo, expõe despreparo de entidades para lidar com racismo

Bruno Marinho
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Alexandre Brum / Agência O Globo

Flávio Rodrigues de Souza parecia perdido diante da confusão instaurada no gramado do Maracanã. Deu meio de ombros quando Gerson acusou Ramírez, do Bahia, de racismo, viu o jogador do Flamengo bater boca com o técnico Mano Menezes e, depois de tudo, a única coisa que fez foi recomeçar a partida como se nada tivesse acontecido.

Não foi apenas impressão. A arbitragem não soube como agir porque não há nada nos regulamentos e circulares da CBF que indique claramente ao árbitro brasileiro o passo seguinte após uma acusação de racismo entre jogadores.

A repercussão do caso ligou um alerta na entidade sobre a necessidade de criar regras mais duras para episódios como o de domingo. Internamente, ela reconhece que o Regulamento Geral de Competições é brando e cita o racismo de forma superficial: “As competições nacionais oficiais do futebol brasileiro exigem de todos os intervenientes colaborar de forma a prevenir comportamentos antidesportivos, bem como violência, dopagem, corrupção, manifestações político-religiosas, racismo, xenofobia ou qualquer outra forma de discriminação”.

Entretanto, apenas criar punições não é o suficiente para resolver o problema do racismo no futebol brasileiro, afirmam Laura Astrolabio, advogada, co-criadora da Tenda das Candidatas, e Vitor Del Rey, sociólogo, presidente do Instituto Guetto. Ambos são interlocutores da Frente Nacional Antirracista junto à CBF. Eles se reuniram com o presidente Rogério Caboclo no último dia 15 e levaram ao dirigente uma proposta com medidas a serem tomadas pela entidade.

— É importante dizer que as leis, as regras, não são um instrumento de transformação social. Elas servem para regular as relações sociais. As pessoas não deixarão de ser racistas por causa das punições ao racismo. É preciso adotar medidas antirracismo — frisou Laura.

Entre elas, o grupo sugeriu que a CBF crie cotas para negros em seus cursos de formação de técnicos, abra espaço para negros ocuparem posição de comando dentro da CBF e que discuta racismo com os árbitros. Foi sugerido também que se crie um canal para que jogadores possam denunciar casos de racismo no futebol em um ambiente seguro, sem medo de sofrerem represálias ou serem colocados sob suspeita .

— Fomos bem recebidos. O presidente disse que só ficaria conosco três minutos e acabou sendo mais de uma hora — afirmou Vitor del Rey. — Mas é importante que o combate ao racismo não fique apenas nas ações de marketing. Se a autoridade não entende o que é o racismo, como vai agir corretamente quando acontecer?

Fifa sem orientação clara

Para além das campanhas publicitárias e das mensagens nos uniformes de jogo, a Fifa também não possui orientações claras sobre como se deve proceder em casos de racismo entre jogadores ou árbitros. Em seu Código Disciplinar, instrui os árbitros a tomar três passos diante de atitudes discriminatórias: parar o jogo diante das manifestações, suspendê-lo caso elas continuem e, em última instância, encerrar a partida. Entretanto, o procedimento é aplicado quando o racismo parte da torcida. Quando ele veio de um membro da arbitragem, como no caso do jogo entre Paris Saint-Germain e Istambul Basaksehir, pela Champions, foram os jogadores que tomaram a decisão de abandonar o campo.

— É importante que a orientação seja institucional — afirmou Vitor del Rey. — Ainda que o árbitro saiba que o certo a se fazer num caso como o do Gerson é encerrar o jogo, ele precisa ter o respaldo de que não será punido por causa disso.

Ex-árbitros pedem mudanças

Sandro Meira Ricci, ex-árbitro Fifa, acredita que a arbitragem deveria ser liberada para utilizar as câmeras do VAR para tentar identificar ainda em campo possíveis ofensas raciais. De acordo com Meira Ricci, a única coisa que Flávio Rodrigues de Souza poderia fazer diante da acusação de Gerson foi o que ele fez: consultou os árbitros em campo e, na ausência de alguém que tenha ouvido a ofensa, relatou a acusação na súmula do jogo.

— Minha opinião é que a atitude de encerrar a partida tem que partir dos jogadores, igual fizeram na França, quando o quarto árbitro chamou de negro um integrante da comissão técnica. Tem que acontecer a mesma coisa aqui. Simples. O árbitro não consegue ver tudo, muito menos ouvir. Lembrando que o VAR não pode ser usado para leitura labial, o que pra mim é um desserviço para combater o racismo, quando é possível perceber sem sombra de dúvidas que houve uma ofensa racista não percebida pelo árbitro em campo, mas captada pelas imagens — afirmou.

Para Sálvio Spínola, Fifa e CBF precisam fazer mais para preparar os árbitros para lidar com situações como a de domingo.

— O Flávio foi pego de surpresa. Não é culpa dele. A CBF tem circular para gândula, explicando como ele deve se comportar durante a partida. Mas não nada que explique ao árbitro como lidar com um jogador que afirma ter sido vítima de racismo. O que eles dizem é para seguir o protocolo da Fifa. É pouco.