Caso Gleycy Correia: mortes por cirurgia nas amígdalas são 'extremamente raras'; entenda

Após dois meses em coma por complicações de uma cirurgia nas amígdalas, a morte da modelo de 27 anos Gleycy Correia, ex-Miss Brasil Continentes Unidos 2018, impressionou não apenas pessoas próximas a ela, como também internautas de forma geral. Segundo o relato de uma amiga da família postado em rede social, Gleycy sofreu parada cardíaca e hemorragia. Cristã, a jovem tinha muitos conhecidos na igreja que frequentava que se reuniram em correntes de oração para que se recuperasse. Gleyce estava internada num hospital particular em Macaé, que registrou sua morte nesta segunda-feira.

Gleycy Correia: Saiba quem foi a ex-miss morta após ficar dois meses em coma

Tida como um procedimento comum e de baixo risco, a amigdalectomia é indicada em alguns casos de amigdalite, quando há inflamação nas tonsilas palatinas. Segundo dados apresentados num seminário da Fundação Otorrinolaringologia, da USP, a taxa de mortalidade dessa cirurgia varia entre um a cada 16 mil e um a cada 35 mil casos. O médico Renato Roithmann, presidente da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF), descreveu a mortalidade por sangramento no período do pós-operatório como algo "extremamente raro".

— O sangramento pós-operatório é a complicação mais frequente de amigdalectomia. Ele pode acontecer em cerca de 2% a 7% dos casos em média, mas são totalmente contornados com o paciente comunicando isso a seu médico — afirmou o otorrinolaringologista, acrescentando que a resposta às complicações varia de caso a caso.

Segundo Roithmann, o acompanhamento médico depois da cirurgia é comumente feito no decorrer da primeira semana, indo até cerca de dez dias. A observação é importante para aliviar as dores do paciente, que podem ocorrer de forma moderada. Para isso, são prescritos medicamentos próprios e são recomendados alimentos numa temperatura mais fria, de consistência líquida ou pastosa, pois "o calor faz os vasos dilatarem e aumenta o risco de sangramento".

— Por isso há o famoso sorvete no pós-operatório das amígdalas — completou.

Quando é indicado operar as amígdalas?

De acordo com Roithmann, a cirurgia das amígdalas, e também das adenoides, são as mais realizadas pelos otorrinolaringologistas em todo o mundo e são bastantes seguras.

— É muito importante fazer uma boa avaliação com seu médico otorrino, pré-operatória. Vão ser vistos os fatores de risco, vai ser estudado o exame de sangue com os fatores da coagulação. Enfim, tem toda uma avaliação pré-operatória em todos os casos que deve ser sempre seguida — afirmou.

O procedimento cirúrgico deve ser feito em hospital, normalmente sob anestesia geral, com recursos de ressecção e todos os cuidados para se fazer uma boa hemostasia, conforme ele destacou.

— No final da cirurgia, dá pontos nos lugares que estão sangrando, pontos que não precisam ser tirados ou cauterização. Tem que limpar, secar todo o campo operatório depois que se tirou as amígdalas e o paciente vai ser então acordado, ele fica no hospital, internado ou não, de acordo com cada caso, de acordo com a sistemática local e vai fazer um acompanhamento pós-operatório.

As diferenças entre indicações absolutas e relativas para amigdalectomia

Os critérios que ditam a necessidade de uma intervenção cirúrgica são especificados por determinados sintomas e distinguem-se em dois grupos: as indicações absolutas, "ou seja, inquestionáveis", conforme descreveu Roithmann, e as indicações relativas, que variam de caso a caso, dependendo do benefício de remover as amígdalas. Ele explicou que a necessidade por realizar a amigdalectomia, com ou sem a remoção das adenoides, que é mais comum em crianças, depende de vários fatores. Apesar disso, casos de amigdalite podem atingir pessoas de qualquer idade e gênero.

Quanto às indicações absolutas, Roithmann mencionou as situações em que a amígdala fica grande demais, independentemente da idade do paciente, a ponto de causar obstrução na passagem do ar, dificuldade de passar alimentos ou dificuldade de deglutição. Outra indicação absoluta, segundo o médico, é quando se suspeita que exista uma doença mais séria na amígdala. Nesses casos, se remove a amígdala para que ela passe por exame de patologia, ressaltando que não há como fazer essa análise por biópsia.

Sobre as indicações relativas mais frequentes, o otorrinolaringologista citou as infecções de repetição de amígdala por bactéria.

— Quer dizer, não é tirar as amígdalas ao ter dor de garganta a cada vez que muda de temperatura — afirmou. — Quando se tem infecções bacterianas de repetição, o médico vai ter que avaliar caso a caso a necessidade de indicação [cirúrgica].

Os critérios para indicar amigdalectomia da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia são:

Quando o paciente, independente da idade, apresenta três infecções bacterianas por ano em três anos consecutivos

Quando tem cinco infecções bacterianas por ano em dois anos consecutivos.

Quando tem sete infecções bacterianas em apenas um ano.

Quando apresenta formação de caseum (resíduos mal cheirosos dentro das criptas amigdalianas)

Diagnóstico da amigdalite

A amigdalite pode ser viral ou bacteriana. O diagnóstico é feito através da história clínica do paciente, bem como pelo exame físico. O primeiro passo ao identificar a doença é diferenciar se é causada por vírus ou bactéria.

Segundo Roithmann, os principais sinais de infecção bacteriana são:

Dor de garganta de início súbito, febre alta (acima de 38,5 graus) com dificuldade de ceder mediante antitérmicos comuns, e ausência de sintomas gripais.

Presença de um exsudato (placa esbranquiçada nas amígdalas), um gânglio junto a mandibular, embaixo da mandíbula, que causa dor.

Já os principais sintomas de infecção viral são:

Dor de garganta associada com perda da voz.

Nariz entupido e sintomas gripais gerais.

Febre baixa e que cede com antitérmico.

Ausência de placa na garganta.

Tratamento

O tratamento para a amigdalite depende justamente se o quadro é viral ou bacteriano. Por isso, a precisão do diagnóstico é tão importante. Apesar disso, para todos os pacientes é recomendável usar analgésico e antitérmico.

— Eventualmente se usa anti-inflamatório e, mais raramente, nos casos bacterianos, e isso é definido pelo médico assistente, vai ser utilizada então antibioticoterapia — acrescentou Roithmann.

Segundo o médico, geralmente as amigdalites evoluem sem complicações, mas se não tratadas, podem ter complicações locais, como formação de um abscesso periamigdaliano que vai exigir uma drenagem.

— Existem complicações à distância de amigdalites bacterianas não tratadas, como febre reumática ou glomerulonefrite difusa aguda — disse.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos