Caso Henry: confira a linha do tempo das investigações sobre a morte do menino

Paolla Serra
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Por volta de 3h30m do dia 8 de março, a professora Monique Medeiros da Costa e Silva e o namorado, o médico e vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho (Solidariedade), saíram do condomínio Majestic, no Cidade Jardim, para levar o filho dela, Henry Borel Medeiros, de 4 anos, à emergência do Hospital Barra D’Or. O casal disse ter encontrado o menino caído no chão do quarto, com mãos e pés gelados e olhos revirados. As pediatras garantem que ele já chegou morto à unidade de saúde.

No mesmo dia, foi aberto um inquérito na 16ª DP (Barra da Tijuca) para apurar o caso. Desde então, 17 testemunhas foram ouvidas, entre familiares, funcionários e vizinhos da família. Além disso, os aparelhos celulares e laptops de Monique, Jairinho e do engenheiro Leniel Borel de Almeida, pai de Henry, foram apreendidos e passam por perícia. Uma reprodução simulada que encenou a narrativa contada nos depoimentos também foi feita no imóvel.

A professora Monique Medeiros da Costa e Silva e o namorado, o médico e vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho (Solidariedade), levam o filho dela, Henry Borel Medeiros, de 4 anos, para a emergência do Hospital Barra D’Or. Eles disseram que encontraram o menino caído no chão do quarto, com mãos e pés gelados e olhos revirados.

As pediatras da unidade de saúde atestam a morte do menino. Em depoimento, elas garantiram que ele já chegou morto ao hospital, mas foi submetido a tentativas de manobras de reanimação.

Um registro de ocorrência de remoção para verificação de óbito é feito na 16ª DP (Barra da Tijuca). O delegado Henrique Damasceno determina ainda que uma perícia no apartamento 201 do bloco I do bloco I do condomínio Majestic seja feita pelo Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE).

O engenheiro Leniel Borel de Almeida, pai de Henry, presta depoimento na delegacia. Ele contou ter recebido uma ligação de sua ex-companheira, Monique, por volta de 4h30. Ela teria dito que o filho deles estava “sem respirar” e foi levado ao hospital. Ao chegar ao local e encontrá-la, na companhia de Dr. Jairinho, foi informado de que a criança havia feito um “barulho estranho” enquanto dormia. Os dois contaram que, , no quarto do menino, encontraram-no com os “olhos virados” e com dificuldade respiratória.

O corpo de Henry é levado para o Instituto Médico-Legal (IML), no Centro do Rio.

No IML, o perito legista Leonardo Huber concluiu o exame de necropsia e aponta que o menino sofreu hemorragia interna e laceração hepática, provocada por ação contundente, e que seu corpo apresentava equimoses, hematomas, edemas e contusões.

O corpo de Henry é enterrado no cemitério do Murundu, em Realengo.

Monique presta depoimento na delegacia. Ela conta que estava assistindo a uma série na televisão com Jairinho quando, às 3h30, teria levantado e encontrado Henry caído no chão, com mãos e pés gelados, olhos revirados e sem responder ao seu chamado. A professora disse ter gritado pelo namorado, que foi imediatamente ao cômodo. Eles teriam se arrumado rapidamente e se dirigido para o Barra D’Or. No caminho, a professora diz ter feito uma respiração boca a boca na criança, depois de orientação do parlamentar. Ao chegar à unidade, ela contou ter gritado pedindo ajuda, tendo recebido atendimento de várias pessoas imediatamente. Questionada se havia lido o laudo com a causa da morte de Henry, Monique afirmou acreditar que ele possa ter acordado, ficado em pé sobre a cama, se desequilibrado ou até tropeçado no encosto da poltrona e caído no chão.

Horas depois, Jairinho também concluiu seu termo de declaração realizado na 16ª DP. O vereador confirmou todas as informações dadas pela namorada. Ele contou ter dormido após tomar três medicações que faz uso há cerca de 10 anos e, ao ser acordado por ela, foi urinar. Com os gritos dela, disse ter caminhado até o quarto. No local, o vereador diz ter colocado a mão no braço de Henry e notado que o menino estava com temperatura bem abaixo do normal e com a boca aberta, parecendo respirar mal. Ele contou que acreditou que Henry havia bronco-aspirado, mas seu quadro evoluía mal, já que no caminho para o hospital não respondeu à respiração boca a boca nem aos estímulos feitos por Monique. Jairinho contou que, apesar de ter formação em Medicina, nunca exerceu a profissão e a última massagem cardíaca que realizou foi em um boneco, durante a graduação.

Uma amante de Jairinho contou em depoimento que, às 11h46 do dia 8 de março - seis horas e quatro minutos após atestada a morte de Henry, eles conversaram "como se nada tivesse acontecido". A estudante afirmou que o parlamentar a enviou mensagens para saber sobre o resultado de seu antibiograma, um exame laboratorial que a moça realizaria depois de se queixar de ardência ao urinar. A estudante disse ainda ter ligado para a irmã de Jairinho, tendo o próprio posteriormente retornado o telefonema. Ela disse que o vereador a orientou a “ficar tranquila” após ter sido chamada a depor, pois apenas teria que relatar como fora o relacionamento dos dois e se ele era agressivo. Ela reiterou que ele continuou sem falar sobre o falecimento do enteado tampouco sobre como “se sentia”.

Uma ex-namorada de Jairinho compareceu à delegacia relatando ter sido agredida pelo vereador e disse que a filha, de 3 anos à época, ficava nervosa, chorava e até vomitava ao vê-lo. A menina chegou a contar para a avó materna que também apanhava do parlamentar e que teve a cabeça afundada por ele embaixo da água de uma piscina. O caso está sendo investigado em um inquérito aberto na Delegacia da Criança e Adolescente Vítima (Dcav).

As três médicas pediatras que atenderam Henry Borel Medeiros na emergência do Hospital Barra D’Or foram ouvidas pelo delegado Henrique Damasceno. As profissionais garantiram que ele chegou morto à unidade de saúde e com as lesões externas no corpo descritas nos dois laudos do exame de necropsia.

Três vizinhos de apartamentos próximos à unidade 203 do bloco I do condomínio Majestic, no Cidade Jardim, onde Henry morava com Monique e Jairinho também prestaram depoimento. Eles garantiram não terem ouvido nenhum barulho ou visto nenhuma anormalidade durante a madrugada do dia 8.

Na noite seguinte, a babá de Henry, que começou a prestar serviço para a família, também foi ouvida. Ela definiu a criança como “boa” e “perfeita” e negou qualquer ter presenciado qualquer anormalidade na família, a quem disse ter visto reunida no máximo quatro vezes. A funcionária contou também que Henry lhe fazia algumas perguntas, como "Tia, por que existe a separação?". Para essa questão, ela diz ter respondido: “Para as pessoa não ficarem brigando, é melhor que se separem". A babá relatou ainda que, por volta de 9h30 do dia 8 de março, recebeu uma ligação de Monique, que dizia: “Você não precisa ir trabalhar hoje. Henry caiu da cama. Perdi meu bem mais precioso”.

A empregada doméstica que trabalhava para Monique e Jairinho durante os dias de semana, desde 8 de janeiro, contou em depoimento só ter visto a família junta três vezes. Ela relatou ter presenciado Henry, no carnaval, correndo em direção ao vereador gritando: “Tio Jairinho, tio Jairinho!” e o abraçando. Ela negou ter presenciado qualquer discussão entre eles. No dia 8, a mulher relatou ter chegado por volta de 7h30, como de costume, e organizado a casa. Ela disse ter estranhado apenas o fato de a luz da cozinha estar acesa. Ela contou que, às 9h46, Monique lhe telefonou e disse que ela poderia tirar o dia de folga. Minutos depois, quando esperava o elevador, a empregada encontrou a professora retornando do hospital e foi informada sobre a morte de Henry.

Ao delegado Henrique Damasceno, a avó materna de Henry, a professora Rosângela Medeiros da Costa e Silva definiu o neto como um menino doce, tímido, introvertido, educado e excelente aluno, disse ter recebido uma ligação de Monique dizendo: “Mãe, o Henry não está respirando!” e imediatamente se dirigiu ao Hospital Barra D’Or com o outro filho. Durante o trajeto, ela ligou novamente insistindo: “Mãe, vem pra cá”. Minutos depois, disse ter recebido o terceiro telefonema, quando soube que o menino havia falecido. Chegando a unidade de saúde, Rosângela contou que encontrou a filha “desolada”. Questionada sobre a causa da morte de Henry, Rosângela informou que "pelo que soube" ele “teve um problema no fígado, uma hemorragia causada por uma queda”.

Policiais da 16ª DP (Barra da Tijuca) cumpriram 11 mandados de busca e apreensão de celulares e laptops em quatro endereços ligados a Leniel, Monique e Jairinho, no Recreio dos Bandeirantes e em Bangu. A medida foi solicitada pelo delegado Henrique Damasceno e deferida pelo juízo da II Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio.

Peritos do Instituto Médico-Legal (IML) e do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE), além de policiais da 16ª DP (Barra da Tijuca), iniciaram as perícias complementares no inquérito que apura a morte de Henry. Eles passaram a tarde no imóvel, que foi interditado judicialmente por um mês para o trabalho dos investigadores. Foram feitas medições, análises de manchas encontradas além de fotografias do apartamento.

Na delegacia, a psicóloga que realizava o acompanhamento terapêutico de Henry, desde o início de fevereiro, disse ter sido procurada por Monique, que relatava que ele "não queria ficar" em sua casa. A profissional contou ter realizado cinco consultas com a criança, que demonstrava afeto pelos avós maternos e que pronunciou o nome de Jairinho somente no último encontro. Ela disse que a professora reclamava que Henry não queria ir ao Colégio Marista São José, onde estava matriculado na pré-escola e frequentou 20 dias de aula. A mulher disse ainda que Henry contou morar "um tio" em sua casa. Perguntado quem era, o menino respondeu: "Tio Jairinho", sem deixar transparecer medo do padrasto. Logo em seguida, ele disse estar com saudades do pai.

Em depoimento, a professo do Colégio Marista São José, onde Henry estudou por 20 dias, disse não ter tido muito contato com ele, por ser aluno novo e pelo fato de estarem atuando em sistema híbrido - com aulas alternadas entre presenciais e on-line. Ela disse a criança apresentava comportamento alegre, falante, participativo e muito interessado. A professora negou ter percebido alguma lesão ou qualquer sinal de maus-tratos. Ela negou também que Henry tenha reclamado de algum tipo de abuso ou problema no ambiente familiar.

Monique e Jairinho são intimados a participar de uma reprodução simulada no apartamento onde moravam com Henry, às 14h do dia 1o de abril. O casal foi chamado para encenar a narrativa que apresentou em depoimento na delegacia sobre o que ocorreu no imóvel durante a madrugada de 8 de março.

Um cirurgião plástico responsável pelo implante de silicone em uma das ex-namoradas de Jairinho prestou depoimento. Ele foi intimado a fim de que confirmasse as informações dadas por ela na delegacia de que os pontos da cirurgia teriam rompido depois de uma agressão do vereador.

O advogado André França Barreto, que representa Monique e Jairinho, solicita ao delegado do caso o adiamento da reprodução simulada, alegando que não houve tempo hábil para a preparação de um assistente de acusação e que a professora ainda se encontra "demasiadamente abalada pela perda do filho" e apresenta um "grave quadro depressivo". A defesa então solicitou que a reconstituição fosse agendada a partir de 12 de abril, o que foi indeferido por Henrique Damasceno, que justificou a medida é custosa ao Estado e essencial para dar continuidade às investigações que apuram a morte de Henry.

O juiz Paulo Roberto Sampaio Jangutta negou um habeas corpus com três pedidos feitos por André França Barreto, que pleiteava a remessa do inquérito que apura para a Divisão de Homicídios; a suspensão das investigações; e o adiamento da reprodução simulada. O magistrado explicou que a medida tem previsão legal e, como o inquérito envolve a morte de uma criança em tenra idade e com ampla repercussão na mídia, é razoável a urgência para a sua realização.

Mesmo com a ausência de Monique e Jairinho, peritos do IML e do ICCE e de policiais da 16ª DP realizaram a reprodução simulada por cerca de quatro horas no apartamento. Uma investigadora representou a professora e um agente representou o parlamentar nas encenações. Um boneco, com as características de peso e altura de Henry também foi usado.

Dr. Jairinho e Monique são presos, no início da manhã, acusados de envolvimento na morte de Henry. Após um mês de investigação, a polícia concluiu que o vereador agredia o enteado, e que a mãe da criança sabia disso.