Caso Henry: Dr. Jairinho praticava abusos físicos contra menino e o trancava sozinho no quarto

Vera Araújo
·3 minuto de leitura

RIO — As investigações da morte do menino Henry Borel Medeiros, de 4 anos, apontam que a criança era alvo de abusos físicos. De acordo com a decisão do 2º Tibunal do Júri, que determinou a prisão do padrasto, o vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho (Solidariedade), e a professora Monique Medeiros da Costa e Silva, na manhã desta quinta-feira, dia 8, o político se trancava no quarto sozinho com a criança no apartamento onde vivia o casal, na Barra da Tijuca. A decisão, obtida com exclusividade pelo GLOBO, detalha as contradições encontradas nos depoimentos dos investigados, bem como nos das testemunhas a eles ligadas.

Em trecho da decisão da titular do 2º Tribunal do Júri, a juíza Elizabeth Louro, ela relata que há conversas, por um aplicativo de mensagens, entre Monique e a babá de Henry que comprovam os abusos. No entanto, a babá negou os maus tratos na 16ª DP (Barra da Tijuca), onde o caso está sendo investigado.

"Iniciada a tomada de depoimentos, em investigação que vem crescendo em complexidade, e vindo aos autos o laudo pericial em um dos objetos apreendidos em poder da investigada (Monique), em cumprimento a mandado deste juízo, qual seja, material de natureza computacional, evidenciaram-se várias contradições entre o teor dos extratos de diálogo pelo WhatsApp entre a investigada Monique a a babá da vítima, Thainá, e o conteúdo de seus depoimentos já então prestados. E não só". Os referidos prints de diálogos demonstram que a criança vinha sendo alvo de abusos físicos, que deixaram vestígios, inclusive praticados enquanto o menino, estranhamente, encontrava-se trancado no quarto com o investigado Jairo".

Em sua decisão, a juíza prossegue apontando as contradições: "No entanto, ambos os investigados, ouvidos ainda como testemunhas, negaram terem jamais notado qualquer anormalidade na vítima; assim também se comportaram outras testemunhas, todas ligadas aos dois investigados, inclusive a avó materna da vítima, e prestando depoimentos em franco descompasso com os extratos de conversa já mencionados, bem como com outros elementos indiciários colhidos no inquérito".

A juíza Elizabeth Louro determinou, além da prisão de Jarinho e Monique, a apreensão do celular da babá Thayna de Oliveira Ferreira, assim como a quebra de sigilo e a extração de dados do aparelho.

A magistrada entendeu que há sérios riscos para a coleta de indícios e provas, uma vez que os investigados têm influência sobre testemunhas relevantes para o esclarecimento do caso. Foi constatado nas investigações, segundo a decisão judicial, que as testemunhas, antes de prestarem depoimentos, passavam no escritório do advogado de defesa do casal. A situação é descrita em outro trecho da decisão:

"Releva notar, por oportuno, que as mesmas testemunhas, ligadas aos investigados, que prestaram depoimentos contraditórios, antes de se dirigirem a unidade policial atendendo à convocação da autoridade para deporem, foram levadas ao escritório do patrono de ambos — em procedimento tão inusitado quanto antiético - previamente orientadas a assim agirem pelos investigados, segundo seus próprios depoimentos".

Chama a atenção ainda da juíza, de acordo com sua decisão, a frieza de Monique durante o caso: Elizabeth Louro afirma que Monique, passado mais de um mês do crime, "segue tomando atitudes atípicas de quem omite ou falta com a verdade, colaborando de aderindo à conduta de seu parceiro de influenciar testemunhas, inobstante devesse ser a principal interessada em chegar à verdade dos fatos".