Caso Henry: Em live com Crivella, Dr. Jairinho pregou “exemplo” para crianças

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Dr. Jairinho, vereador pelo Rio de Janeiro, foi preso na manhã desta quinta-feira (Foto: Reprodução/TV Globo)
Dr. Jairinho, vereador pelo Rio de Janeiro, foi preso na manhã desta quinta-feira (Foto: Reprodução/TV Globo)

Durante a campanha eleitoral de 2018, quando Dr. Jairinho era candidato à reeleição, o vereador participou de uma live com o então prefeito Marcelo Crivella. Jairinho era líder do governo na Câmara dos Vereadores.

Na conversa entre os dois, o vereador elogiou a atuação de Crivella durante a pandemia de covid-19. O político também pregou a necessidade de ser “exemplo para nossos filhos”.

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“Sou médico de formação, prefeito, e tive a oportunidade de ver o senhor à frente desse processo. No final de tudo, o pessoal me perguntava até se o senhor tinha diploma de Medicina. Estava dando é aula, ensinando como que as coisas aconteciam. Então passamos por momentos difíceis juntos (...). E os momentos difíceis fazem com que nos unamos. O exemplo dá o costume, né prefeito? Então a gente tem que dar o exemplo e aí isso daí vai levando para nossas gerações, para nossos filhos”, disse na ocasião.

Dr. Jairinho foi preso por atrapalhar as investigações sobre o assassinato de Henry Borel, de 4 anos. O vereador é companheiro da mãe da criança, Monique Medeiros, que também foi presa.

Segundo o delegado responsável pelo caso, Henrique Damasceno, a principal suspeita é que Jairinho tenha assassinado a criança. Provas indicam que o vereador já havia submetido Henry a sessões de tortura previamente. E a mãe da criança sabia da situação.

Jairinho foi expulso do Solidariedade na tarde da última quinta-feira (8), após ser preso. Esse é o quinto mandato dele como vereador.

Na live com Crivella, ele disse que Deus era o responsável pelas sucessivas eleições. “Eu estou indo pro meu quinto mandato. Vou de novo usar a frase: Teu tesouro é onde está o seu coração. Se você não coloca a semente boa, você não frutifica. Deus me abençoou me dando esses mandatos porque por onde eu passei a gente conseguiu dar a nossa palavra e fazer com que a nossa palavra valesse, né? E é por isso que Deus nos abençoou dando esses mandatos. E eu acredito que faremos o que poder para consertar aquilo que ficou pra trás, né?”

Jairinho e Monique cumprem isolamento de 14 dias, separadamente, antes de serem transferidos para as respectivas prisões.

Mãe “concordou com o resultado”, diz delegado

Mãe sabia que filho tinha sido agredido por Dr. Jairinho (Foto: Reprodução)
Mãe sabia que filho tinha sido agredido por Dr. Jairinho (Foto: Reprodução)

Em 12 de fevereiro, a babá que trabalhava com Monique Medeiros e cuidava de Henry Borel, alertou a mãe que o menino havia sido agredido pelo padrasto, o vereador Dr. Jairinho. A polícia apreendeu o celular da funcionária e encontrou conversas entre as duas.

Dr. Jairinho e Monique foram presos na manhã desta quinta-feira (8) por atrapalharem as investigações sobre o caso.

O relato teria sido feito pelo próprio Henry para a babá: Jairinho pegou o menino pelo braço, deu uma rasteira no menino e o chutou. As informações foram reveladas pelo delegado Henrique Damasceno, titular da 16ª DP, da Barra da Tijuca, onde o caso foi registrado.

Para Henrique Damasceno, "não tem a menor dúvida que ela (Monique Medeiros) não só se omitiu quando a lei a obrigada a fazer, como ela concordou com o resultado. Ela aceitou o resultado. Ela se manteve firme ao lado dele."

"A própria babá fala que o Henry estava mancado, que quando ela foi dar banho no Henry ele não deixou lavar a cabeça, porque ele estava com dores. Se trata de uma prova extremamente relevante. Fica muito claro que toda aquela versão que nos foi apresentada de uma família harmoniosa era uma farsa", disse o delegado durante entrevista coletiva.

Henry era "doce" e "tranquilo"

Henry Borel tinha 4 anos. Ele foi deixado pelo pai na casa de Monique e Jairinho às 19h30 e, horas depois, estava morto (Foto: Reprodução)
Henry Borel tinha 4 anos. Ele foi deixado pelo pai na casa de Monique e Jairinho às 19h30 e, horas depois, estava morto (Foto: Reprodução)

Na madrugada do dia 18 de março, o médico e vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho (Solidariedade), definiu seu enteado, Henry Borel Medeiros, filho da professora Monique Medeiros da Costa e Silva, como “doce” e “tranquilo”.

Ao prestar depoimento sobre a morte do menino, na 16a DP (Barra da Tijuca), o parlamentar negou ter sido processado criminalmente em seus relacionamentos anteriores e afirmou acreditar que sua ex-mulher, a dentista Ana Carolina Ferreira Netto, o tenha acusado de lesão corporal em “decorrência de ciúmes”.

Horas antes de chegar a 16ª DP (Barra da Tijuca), no último dia 17, Monique Medeiros da Costa e Silva trocou ao menos duas vezes de roupa até definir a combinação que usaria para prestar depoimento no inquérito que apura a morte do filho, Henry Borel Medeiros, de 4 anos. Fotos resgatadas em seu aparelho celular, apreendido há duas semanas, mostram que a professora experimentou um macacão preto, posou em frente ao espelho, e depois, depois de consultar um advogado, decidiu ir com um conjunto social branco.

Na delegacia, Jairinho confirmou as informações prestadas por Monique, que dão conta que eles acordaram, por volta de 3h30 do dia 8 de março e encontraram Henry caído no chão, com mãos e pés gelados e olhos revirados. O menino foi levado ao Hospital Barra D’Or, mas as médicas garantiram que ele já chegou morto a unidade de saúde e com as lesões descritas no laudo de necropsia.

A versão do casal

Ao ser questionada durante seu depoimento, Monique afirmou acreditar que ele possa ter acordado, ficado em pé sobre a cama, se desequilibrado ou até tropeçado no encosto da poltrona e caído no chão. Também na delegacia, Jairinho contou que, após ouvir os gritos da moça, caminhou até o quarto, colocou a mão no braço de Henry e notou que o menino estava com temperatura bem abaixo do normal e com a boca aberta, parecendo respirar mal.

O vereador disse que acreditou que Henry havia bronco-aspirado, mas seu quadro evoluía mal, já que no caminho para o hospital não respondeu à respiração boca a boca nem aos estímulos feitos por Monique. Jairinho contou que, apesar de ter formação em Medicina, nunca exerceu a profissão e a última massagem cardíaca que realizou foi em um boneco, durante a graduação.

Ao longo desse mês, o delegado Henrique Damasceno, titular da 16ª DP, ouviu 17 testemunhas no inquérito que apura o caso, entre familiares, vizinhos e funcionários do casal. Uma ex-namorada de Jairinho relatou que ela e a filha sofreram agressões por parte do parlamentar. Os celulares e laptops dos dois e de Leniel foram apreendidos e passam por perícias e uma reprodução simulada foi realizada.