Caso Henry: Governador Claudio Castro não envia à Câmara explicação sobre ligação de Jairinho

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RIO - O vereador Luiz Ramos Filho informou que não recebeu a explicação do governador Claudio Castro sobre a ligação recebida por ele do médico e vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho (sem partido), dias após a morte do menino Henry Borel Medeiros, de 4 anos, na madrugada de 8 de março. A resposta, cujo prazo se encerrava nessa quarta-feira, dia 9, foi solicitada ao governador pelo relator do processo de cassação do parlamentar por quebra de decoro, que tramita no Conselho de Ética da Câmara Municipal.

De acordo com Ramos, Castro foi notificado no mês passado sobre o documento que precisava enviar, contendo a explicação detalhada, por escrito, sobre o que Jairinho havia lhe pedido, após a morte de seu enteado. Na ocasião, a assessoria do governador informou que no telefonema, ao saber do fato, Castro limitou-se a dizer ao vereador que “o assunto seria tratado pela delegacia responsável pelo inquérito e encerrou a ligação”. “O governador em exercício reitera que sempre garantiu total autonomia à Polícia Civil e que não interfere em investigações”, disse em nota.

“Fiquei surpreso porque o Cláudio Castro foi nosso colega aqui na Câmara e esperava que ele fosse colaborar com este processo deste caso tão complicado. A sociedade cobra uma resposta e todas as informações são importantes para chegarmos a uma conclusão bem elaborada”, disse Luiz Ramos Filho.

O relator espera finalizar o parecer final sobre o processo de cassação de Jairinho nos próximo dia 16.

“Justamente por ser um caso tão sensível, é necessário dar máxima celeridade. Vamos fazer o possível para concluir o processo o quanto antes”, afirmou.

Procurada por O GLOBO, a assessoria de imprensa de Cláudio Castro não respondeu sobre o assunto.

Anteontem, prestou depoimento no processo de cassação o executivo Pablo Menezes. Ele contou detalhes sobre os telefonemas e as mensagens de Jairinho, na madrugada da morte de Henry. Os contatos do parlamentar, segundo o vice-presidente de operações e relacionamento da Qualicorp e conselheiro da Rede D’Or, foram para tentar impedir que o corpo do menino fosse encaminhado ao Instituto Médico-Legal (IML), onde o laudo de exame de necropsia apontou hemorragia interna e laceração hepática, provocada por ação contundente, além de equimoses, hematomas, edemas e contusões incompatíveis com um acidente doméstico.

De acordo com o depoimento, o executivo relatou ter sido contactado pelo parlamentar à partir de 4h57. “Amigo, me dá uma ligada”, "Coisa rápida” e “Preciso de um favor aqui no Barra D’Or” foram as mensagens que ele recebeu do vereador. Cerca de duas horas depois, às 6h56, outro recado: “Amigo, assim que puder me liga”. Pablo afirmou ter conhecido Jairinho, com quem trocou telefone, em um evento na Câmara dos Vereadores, em 2019. Disse ainda que passou a ser procurado por ele com pedidos de atendimento para pacientes com Covid-19. Por isso, chegou a responder: “A coisa tá pegando lá”.

Às 7h17, Jairinho então ligou mais duas vezes para Pablo. Em tom calmo e sem demonstrar nenhuma emoção, o vereador contou haver acontecido “uma tragédia”, que o enteado havia morrido e “pediu que agilizasse o óbito”. Ele havia chegado ao Hospital Barra D’Or com a namorada, a professora Monique Medeiros da Costa e Silva, e o filho dela às 3h50. O óbito do menino só foi atestado às 5h42 pela equipe médica. O executivo ligou para o hospital e foi informado de que seria necessário o envio do corpo ao IML já que a criança chegara a unidade em “PCR” - parada cardiorrespiratória e que a morte não tinha causa definida.

“Agiliza ou eu agilizo o óbito. E a gente vira essa página” e “Vê se alguém dá o atestado para a gente levar o corpinho e virar a página”, disse, logo depois, Jairinho em outras mensagens. Pablo Menezes então disse que não atenderia o pedido do parlamentar. “Eu não atenderia nenhum pedido ilegal e tinha a certeza de que os profissionais do hospital também não atenderiam. Porém, ressalto que, neste caso, não cabia a mim atender ou não o pedido de Jairinho: é uma questão de autonomia médica, que considera todos os mandos legais. O motivo de os médicos não terem atendido se liga as circunstâncias de que a criança chegou ao Barra D’Or em parada cardiorrespiratória, com equimoses pelo corpo, e o óbito não tinha causa definida, sendo mandatário o envio do corpo ao IML”, disse o executivo.

No depoimento, Pablo afirmou ainda ter sido novamente procurado por Jairinho em 11 de março, por ligações e mensagens. “Podendo chama”, escreveu o vereador. O executivo diz não ter respondido e contou ter ficado “muito desconfortável” diante do pedido feito pelo parlamentar e ainda acreditar que ele tenha ficado “desapontado” com a sua recusa em atendê-lo.