Caso Henry: psiquiatra forense fala sobre elementos de crimes que provocam comoção

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RIO — Uma das maiores autoridades em psiquiatria forense do Brasil, Guido Palomba acumula mais de 15 mil laudos analisados em mais de quatro décadas na função. Neste período, atuou em casos que ganharam notoriedade e até hoje são lembrados, como o de Francisco de Assis Pereira, conhecido como o Maníaco do Parque. Muitos deles causaram grande comoção social, a exemplo do que aconteceu com a morte do menino Henry Borel, de quatro anos, e a prisão do seu padastro, o vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, e de sua mulher e mãe da criança, Monique Medeiros. Nesta semana acontece a fase preliminar do julgamento do homicídio. Em eventos dessa proporção, Palomba observa três pontos em comum, capazes de mobilizar a atenção e a emoção das pessoas, fazendo com que muitas vezes os nomes das vítimas ou de seus algozes se mantenham na memória por muitos anos.

— Primeiro a bizarria do crime, os elementos que vão alimentar a cobertura midiática e a curiosidade alheia. Depois, o nível social dos implicados, geralmente a atenção aumenta de acordo com a posição dos envolvidos. E, por fim, o nível de incompreensibilidade psicológica. É o que nos leva a perguntar por que alguém cometeria um crime assim, ou de determinada forma — comenta Palomba.

Médico-chefe do antigo Manicômio Judiciário de São Paulo entre 1975 e 1985, Palomba diz ser possível identificar o perfil psicológico dos suspeitos de determinados delitos mesmo sem o exame ou o acesso aos autos:

— Todos os crimes, sem exceção, são uma fotografia exata do comportamento dos indivíduos que os praticam. Um dos elementos a ser observado é o que chamamos de "garra dos inocentes". Quando se é acusado injustamente, o maior interessado em elucidar o crime é o próprio suspeito, que não vai medir esforços para isso. Um possível culpado, ao contrário, vai tentar impedir a investigação.

Com sete livros escritos, sem contar os de coautoria e colaborações, o perito diz que, mesmo após tantos anos de profissão, ainda se surpreende com a violência ou com o inusual de alguns crimes:

— Quando se analisa os casos a partir de uma abordagem técnica, é mais difícil de surgir um envolvimento emocional com os fatos. Me lembro de uma perícia que tive de fazer com um paciente do Hospital do Câncer. Fiquei muito impressionado com aquela realidade, com os casos mais graves, de pessoas que perderam membros ou estavam desfiguradas. Vi uma jovem médica que lidava com aquela situação como muita calma, e depois perguntei a ela como conseguia manter aquela rotina. Ela disse que já havia se acostumado, mas que jamais conseguiria conviver com os casos que vejo diariamente.

O destaque em sua área de atuação levou Palomba a dar consultoria para projetos audiovisuais que envolvam investigação criminal ou comportamentos patológicos. O mais recente deles é a série "Mal secreto", com autoria de Bráulio Mantovani e direção de Mauro Mendonça Filho. Na trama, Sérgio Guizé será um psiquiatra forense, personagem inspirado em Palomba.

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