Caso Isa Penna: Assédio é a ferramenta do machismo para tirar mulheres de posições de poder

Anita Efraim
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Women perform at Avenida Paulista, downtown São Paulo, this Sunday, March 8, International Women's Day. Thousands of women from all over the world take to the streets to protest for equal rights, for the end of gender violence and feminicides, against rape, for labor guarantees and reproductive rights, among other feminist agendas. March 8, 2020.  (Photo by Fabio Vieira/FotoRua/NurPhoto via Getty Images)
Manifestação no Dia Internacional da Mulher na Avenida Paulista, São Paulo, em 8 de março de 2020 (Foto: Fabio Vieira/FotoRua/NurPhoto via Getty Images)

É difícil assistir a cena de assédio sofrido pela deputada Isa Penna (PSOL-SP) e não sentir raiva e indignação.

O assédio tem diferentes nuances. Pode ser uma frase desagradável, pode ser a tentativa constante de diminuir a competência da mulher, pode ser, como foi no caso de Isa Penna, físico. Em nenhum dos casos é aceitável. Não é “só um elogio”, não é “só um abraço”. É uma violência.

A violência e o assédio, são formas de tirar as mulheres de lugares de poder e posições de visibilidade. As eleições municipais de 2020 foram marcadas pelo crescimento da diversidade nas câmaras municipais. Em São Paulo, por exemplo, 13 mulheres foram eleitas para serem vereadoras, entre os 55 postos.

O número, além de pequeno, não garante em nada que elas se sentirão à vontade no espaço que ocupam, como vimos na última quarta-feira, 16, na Assembleia Legislativa de São Paulo. Aos risos, o deputado Fernando Cury (Cidadania) conversa com colegas tranquilamente antes de violar uma mulher, encostar no corpo dela sem permissão. É uma tentativa de intimidar uma mulher trabalhando.

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Mesmo se fosse “só um abraço”, o que você sentiria se uma pessoa sem intimidade te abraçasse por trás no seu ambiente de trabalho? Isso não existe. Sobre a declaração do deputado de que não houve “tentativa de assédio”, ele está certo: não foi uma tentativa, foi a consumação do assédio.

Ainda que sem perceber, é evidente que muitos homens se sentem incomodados com a maior presença de mulheres nos mais variados espaços e, por isso, usam a violência e o assédio para tentar intimidar aquelas vistas como concorrentes. Isso vale para a política, e temos um exemplo claro filmado, mas também vale para outros espaços.

No esporte é ainda mais fácil identificar esses exemplos. A mediocridade de um homem branco falando sobre futebol é amplamente aceita (e até incentivada), enquanto o posicionamento de mulheres é atacado de formas violentas e misóginas.

O motivo é o mesmo: a tentativa de fazer com que elas se intimidem e se retirem de um espaço visto como tão masculino. É fácil reparar o comportamento nas redes sociais, onde as pessoas têm a possibilidade de se esconderem atrás de fotos e nomes falsos. Se uma mulher, ao falar de futebol, faz um comentário do qual o usuário discorda, o xingamento é quase sempre de cunho misógino. A repercussão negativa de algo dito por uma mulher é sempre maior do que um homem, mesmo que eles tenham dito a mesma coisa.

Uso um exemplo pessoal para que a situação fique mais palpável. O Santos, time para qual eu torço, contratou Robinho, jogador condenado em segunda instância na justiça da Itália por estupro. Mesmo antes de o contrato ser efetivado, já me posicionava contra e era atacada por santistas nas redes sociais. Na ocasião, ele já era condenado em primeira instância, cabendo recurso em duas mais.

O comentário mais frequente era que eu não conhecia a história do Santos e, por isso, não compreendia a história de Robinho. O jogador foi o grande protagonista da mais importante conquista da história moderna do clube, o Campeonato Brasileiro de 2002. E eu conheço essa história.

O que alguns santistas, e homens, não compreendem é que, para mim e tantas outras mulheres, a vida de uma mulher vale mais que um título do Campeonato Brasileiro, mesmo que isso tenha mudado a história do clube. O direito de uma mulher viver sem ser violada é infinitamente mais importante que isso.

A estratégia de torcedores do Santos foi tentar me intimidar. Me sugeriram uma passagem diretamente para a Faixa de Gaza. Disseram que eu não amava o clube como eles e que era “lacradora”. Disseminaram informações falsas sobre mim alegando que eu estava fazendo um abaixo-assinado para pedir aos patrocinadores que se retirassem do clube. Pediram para que a advogada do jogador me processasse.

Muitos deles acompanhavam meus comentários sobre o Santos até esse momento, mas não aguentaram que a integridade de uma mulher fosse mais importante que os possíveis gols que ele faria pelo clube do coração. Para muitos homens, a opinião da mulher só vale quando é a mesma deles. Se não, vale qualquer tipo de ataque e violência para deslegitima-la. A intimidação é a arma.

Não fui a única mulher a passar por isso. Não fui a primeira e, infelizmente, não serei a última. O caso Robinho gerou ataques terríveis a várias mulheres que tiveram a coragem e a força de se posicionarem. Recentemente, a repórter do Globo Esporte, Amanda Kestelman, expos nas redes sociais que a comentarista Ana Thais Matos teve o celular invadido por santistas após se posicionar. Ana teve de ficar sem telefone até resolver o assunto e, por isso, foi impedida de saber que o pai, internado, teve uma piora no quadro de saúde. Dias depois, Ana Thais perdeu o pai.

Marília Ruiz, comentarista da Bandeirantes, registrou dezenas de boletins de ocorrência e foi ameaçada ao comentar sobre o caso.

O machismo tira muito de nós. Combater e enfrentar o preconceito exige abrir mão de muita coisa. Para efeito de comparação, amigos homens se posicionaram contra a contratação de Robinho e foram criticados, mas quase nenhum passou por nada parecido. Os elogios a eles foram muito mais expressivos do que aqueles feitos a nós, mulheres.

Muitas mulheres sabem exatamente o que é passar por esse tipo de violência, mas nem sempre há espaço ou força para reagir a esse tipo de assédio. Se retrair, se retirar do espaço ocupado é, claro, uma forma de se proteger, de evitar que isso possa acontecer novamente. O preço de tentar não ser assediada, violada e violentada é algo demais: é abrir mão de espaços que mulheres demoraram tanto para ocupar.

Entendo que muitos homens vejam as mulheres como alvos fáceis, porque aprenderam assim e cresceram dentro do contexto que nos coloca como “sexo frágil” e “feitas para servir”. Lamento (ou não) informar que não somos e não seremos alvos fáceis de ninguém. Nossos corpos, nossa presença em espaços vistos como “masculinos”, como o poder, a política, o futebol ou onde for, será cada vez maior e a violência não será tolerada.