Caso João Pedro: cresce mobilização nas redes sociais com morte de jovem operação policial no Rio

Marcelo Antonio Ferreira
O pai de João, Neilton, debruçado sobre o caixão do filho

RIO — A repercussão da morte do jovem João Pedro Mattos Pinto, de 14 anos, continua a movimentar as redes sociais. Após os pais do garoto darem uma entrevista ao programa “Encontro com Fátima Bernardes”, da Rede Globo, diversos perfis do Twitter, anônimos e famosos, publicaram homenagens ao adolescente, mas, principalmente, críticas à conduta violenta da polícia do Rio com cidadãos negros e da periferia e cobraram uma resposta do governo estadual.

João Pedro foi morto durante uma operação policial no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, que buscava prender o traficante Falcão, na segunda-feira. De acordo com a família, ele estava em casa, jogando sinuca com os primos, quando agentes invadiram o local atirando. Após 17 horas de buscas após ele ser levado do local num helicóptero da polícia, os pais encontraram o corpo no IML da cidade.

Nascida e criada na comunidade carioca do Vidigal, a atriz e cantora Roberta Rodrigues também foi entrevistada pelo programa e comentou o tratamento agressivo que as comunidades recebem das autoridades.

— A gente não pode mais aceitar essa polícia, esse regime. Não adianta ter só operações, a gente precisa resgatar a comunidade. (...) Eu quero que um policial suba na comunidade para dar aula de violino, e que a criança que esteja olhando veja uma esperança, um herói, porque é triste a gente ter medo da polícia — declarou Roberta, muito emocionada.

Imediatamente, o assunto voltou a repercutir no Twitter: “Já acordei ouvindo o relato dos pais do João Pedro no Encontro e gente, não tem como não chorar, não tem como não se sentir impotente de tirarem a vida dos nossos de maneira tão brutal. Que sentimento horrível!”, escreveu uma internauta.

Felipe Neto, um dos principais influenciadores digitais, se manifestou e reivindicou o termo utilizado pela imprensa para abordar o caso.

 “O caso João Pedro não é "menino morre". João Pedro foi ASSASSINADO pelo Estado, executado dentro de casa e em seguida teve… Na terça-feira, o rapper Emicida publicou na rede social uma mensagem na qual comparou a realidade do adolescente com a própria, quando mais novo.

“Estava olhando fotos num HD antigo para compartilhar coisas com vocês e não tem uma imagem na qual eu não veja em nós, jovens correndo atrás de sonhos, o menino João Pedro. Para dividir esperança é preciso ter alguma e o dia de hoje roubou a minha. De novo. Cuidem-se. Estamos em solo inimigo”, escreveu o músico.

Além dele, o humorista Marcelo Adnet postou sobre o ocorrido.

“Triste demais atestar que a vida de quem é pobre e preto vale quase nada em nossa sociedade. O assassinato do menino dentro de sua casa é uma cena inimaginável em áreas nobres. A escravidão contemporânea se dá, entre outras agressões, pelo extermínio da juventude negra.

A atriz Taís Araújo prestou uma homenagem ao jovem ao publicar dois tuítes sobre o ocorrido. Em um deles, a atriz chamou a atenção para a violência contra cidadãos.

“O Estado Brasileiro mata. Diariamente. Aos montes. Até tudo virar “apenas” número. Gente não é número. Gente tem nome, tem vida, tem história. Hoje foi o João Pedro. João Pedro não é um número”.

Quarto colocado na última edição do reality show Big Brother Brasil, o ator Babu Santa publicou uma série de tuítes para expressar a inconformação com o caso.

“Eu acabei de ver o depoimento do pai do João Pedro, e é revoltante! Quantas pessoas vão ter que morrer para nosso Estado entender que essa conta não fecha? Quando eu estava no BBB, alguns dos meus vídeos viralizaram. Em um deles eu falava sobre estar há quarenta anos contrariando estatísticas. Infelizmente, a vida de um homem preto favelado é essa. João Pedro tinha só 14 anos. Foi assassinado. Se tornou estatística, mas não da forma que nós gostaríamos. No Brasil, um jovem preto tem quase 3 vezes mais chance de ser assassinado do que um jovem branco. No Brasil, mais de 75% dos assassinatos cometidos por policiais é de pessoas pretas. No Brasil SOBREVIVER é uma luta diária para o povo preto. Presto aqui, minha solidariedade à família do João Pedro e deixo meu apelo para que não deixemos de pedir justiça. Cobrem, falem, não deixem que se esqueçam de João Pedro e de tantos outros jovens negros assassinados no Brasil”, disse o artista.

Também na terça-feira, o apresentador Luciano Huck expressou indignação diante do desfecho e criticou a constância que casos como este ocorrem no Brasil.

“Como se não bastasse toda tristeza devido à pandemia, acontece agora essa tragédia com João Pedro no Complexo do Salgueiro. O vírus da violência continua, no presente, a massacrar o futuro do Brasil. Banalizar o assassinato de um menino de 14 anos é inaceitável” publicou o apresentador, que ainda acrescentou “Causa indignação esse extermínio de jovens pobres e negros nas comunidades país afora. Não é só no Rio. Isso é uma doença nacional que exige responsabilidade social de todos nós em busca da cura. Uma tristeza. Causa revolta”.

Por meio do Instagram, a socióloga e ativista Djamila Ribeiro optou por não expor a foto do jovem, mas escreveu um texto em que criticou a política e a cultura da polícia com a população negra e relembrou casos semelhantes.

“Fiquem em casa, dizem. Pois João Pedro estava em casa, brincando com seus primos, quando seu corpo foi mutilado pelas balas perdidas que só encontraram corpos negros. (...) Historicamente ninguém dessas comunidades é ouvido em matérias como essa e, dessa vez, o formato se repetiu. Mais um discurso de supremacia branca produzido com sucesso na televisão, um discurso que produz mortes. João Pedro Mattos foi uma delas, juntando-se a Amarildo, Claudia, Ágatha e outras milhões de pessoas. (...) Vale dizer, o governador do Rio de Janeiro foi eleito sob a promessa de uma política genocida, mais ainda da que já era praticada. Disse que sob seu comando a polícia ia mirar e ‘atirar na cabecinha’. Enojante, tudo muito revoltante. Existe uma guerra contra a população negra desse país”, escreveu Djamila.

O texto viralizou na rede e foi compartilhado por personalidades como a apresentadora Angélica, as atrizes Marina Ruy Barbosa, Alice Wegmann, Bruna Marquezine e a cantora Karol Conka. Ainda no Instagram, Ivete Sangalo também publicou uma foto do menino e lamentou o ocorrido classificando o caso como “desesperador”.

“Não ver nunca mais um filho. Quantas perguntas sem respostas. Para essa criança (...). Ainda que estivesse dentro de casa, nada poderia salvá-lo dessa perseguição histórica desgraçada que permeia a vida de tantos nesse país”, disse a cantora.