Caso Lázaro Barbosa: a vida após os 20 dias de caçada ao 'serial killer do DF'

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O fim da caçada a Lázaro Barbosa de Sousa, morto com ao menos 38 tiros pela polícia na segunda-feira (28), trouxe uma sensação de segurança e alívio aos moradores das cidades da região onde o criminoso se escondeu nos últimos 20 dias.

O "serial killer do DF", como Lázaro ficou popularmente conhecido, usou as matas do Cerrado do interior de Goiás como abrigo para fugir dos cerca de 300 agentes das forças de segurança que o perseguiam.

Durante o período em que ficou foragido, Lázaro se movimentava por dentro da mata. O rastro de crimes do assassino e suas rotas de fuga circundam os municípios goianos de Girasol, Cocalzinho de Goiás, Edilândia e Águas Lindas de Goiás, todas no entorno do Distrito Federal.

Marcello Dantas/Yahoo Notícias
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Na operação, foram usados helicópteros, viaturas, cachorros, drones com visão térmica, rádios especiais e antes amplificadores de sinal.

As buscas por Lázaro começaram no dia 9 de junho. após ele invadir uma chácara em Ceilândia (DF) e matar quatro pessoas de uma mesma família. Lázaro já havia sido condenado três vezes, por homicídio, estupro e outros crimes. Ele fugiu da cadeia em 2018 e até então seguia foragido.

Durante esse período, a rotina das pequenas cidades foi modificada, na qual a tranquilidade deu lugar ao medo e insegurança.

Mecânico e comerciante de uma loja de materiais agrícolas, Anderson Santos de Souza viu o movimento despencar nas últimas semanas pela paralisação do dia-a-dia e dos afazeres rurais.

"Aqui mudou aqui pra nós, que quase não aparece serviço mais. Os fazendeiro aqui, amigos nossos demais, o povo aqui né…Eles estavam a mercê e não podiam sair de casa. Os caseiro não vivem mais dentro das fazendas. Os fazendeiro estão na cidade. Não tem nada pra mexer aqui…nós estamos a mercê do homem (Lazaro)", contou.

Marcello Dantas/Yahoo Notícias
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Com medo do fugitivo, famílias que viviam em chácaras ou que lá trabalhavam se abrigaram em casas de parentes ou vizinhos na região urbana dos municípios. Vazios, os imóveis rurais eram saqueados ou invadidos por Lázaro em busca de roupas, comida ou materiais que o ajudassem na fuga.

"Era um lugar bem tranquilo. Depois disso tudo que aconteceu, tava todo mundo com medo. Ninguém mais dormia à noite, ficava todo mundo preocupado. Agora, tem paz. (...) A gente fica mais tranquila né, porque estava todo mundo preocupado, ninguém tinha paz. Agora volta tudo ao normal", relata a comerciante Tainan Alves, de 28 anos, moradora de Girasol.

Volta à rotina na região onde Lázaro era procurado

Em Águas Lindas, onde Lázaro foi preso após buscar contato com sua ex-sogra e ex-mulher, uma multidão se aglomerou em frente ao hospital municipal para tentar tirar foto do carro que levava o corpo do procurado. Houve aplausos quando o veículo deixou o local.

Cenário parecido ocorreu em frente à base montada pela polícia em uma escola municipal em Cocalzinho. Moradores levavam cartazes de agradecimento aos policiais envolvidos na ação e até mesmo um carro de som foi usado para homenagea-los.

"Representando a toda população do nosso Girasol, e agradecendo com todo carinho a toda nossa polícia do estado de Goiás e do Distrito Federal. Enfim, felicidades a todos e um grande abraço no coração de vocês", agradecia Denílson Almeida, em um FordKa vermelho, estacionado em frente à Escola Municipal Alto da Boa Vista, improvisada como base militar.

Foi de lá que partiram as viaturas da força-tarefa em uma ‘carreata’ para comemorar morte de Lázaro. Cerca de 35 veículos desfilaram juntas, com sirenes ligadas, acenando para a população, que aplaudia os policiais.

No vídeo do momento em que Lázaro é colocado na ambulância, é possível também ver policiais militares de diferentes forças de segurança celebrando o desfecho.

O comboio seguiu pela BR-070, onde algumas pessoas já esperaram ao lado da pista para cumprimentar os policiais, passaram pela cidade de Águas Lindas e voltaram para Cocalzinho, onde também percorreram algumas ruas e depois retornaram à base.

A maior recepção ocorreu em Águas Lindas, onde dezenas de pessoas estavam nas ruas aplaudindo e gritando palavras de apoio. Também participaram da “carreata” carros do Corpo de Bombeiros e da Polícia Penal, ambos de Goiás. Um helicóptero acompanhou o grupo.

Corpo de Lázaro Barbosa no IML

Os parentes de Lázaro Barbosa ainda não retiraram seu corpo do Instituto Médico Legal (IML) de Goiânia. Mais de 24 horas após o criminoso ser morto em confronto com a polícia, seu cadáver seguia no local até a manhã desta terça-feira.

Os trâmites burocráticos para identificação do corpo do rapaz, por impressão digital, já foram realizados. Ele está disponível para ser resgatado pela família, o que ainda não aconteceu. Não se sabe os motivos que levaram os parentes a este atraso.

“Corpo do Lázaro está liberado desde ontem, no fim da tarde. Só falta a família buscar”, explicou o perito criminal e superintendente de Comunicação da Polícia Técnico-Científica de Goiás, Ricardo Matos, ao site Metrópoles.

Policiais dispararam 125 tiros e ao menos 38 atingiram Lázaro

Os policiais responsáveis pela execução de Lázaro Barbosa na manhã desta segunda-feira disseram ter disparado 125 tiros contra o fugitivo.

Lázaro foi atingido por pelo menos 38 tiros, segundo informação foi dada secretário de Saúde de Águas Lindas, Rui Borges, após uma primeira avaliação do corpo no IML.

Na avaliação do perito Nelson Massini, professor titular de Medicina Legal da UERJ, que analisou as fotos do corpo do criminoso, Lázaro foi morto com tiros de pistola e fuzil.

"Na cabeça, foi um tiro de fuzil. Acho que tem as duas armas. No peito, dá impressão de pistola. Mas, na cabeça, pelo estrago, foi o que chamamos de projétil de alta energia", disse Massini, ao jornal Extra.

O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), garantiu que os agentes agiram "dentro do limite da lei" na captura. “Certamente as polícias fizeram o seu trabalho dentro dos limites da lei. Se o resultado foi a morte desse perigoso assassino, certamente foi pela situação de confronto criada pelo próprio”, afirmou ao portal.

O que ainda falta saber sobre o caso Lázaro Barbosa

Rede de proteção ao assassino é investigada

Segundo o secretário de Segurança Pública, Rodney Miranda, a polícia investiga uma possível rede de proteção a Lázaro, que contava com dinheiro para fuga e podia até sair do país com apoio dessas pessoas.

"Ele foi encontrado com cerca de R$ 4.400, o que seria mais um prova de que estariam acobertando ele e dificultando o trabalho das forças policiais", afirmou o secretário. "O dinheiro era indicativo de que ele estava querendo sair do estado ou até do país", acrescentou.

Na mochila que Lázaro carregava, os policiais encontraram:

  • 1 pistola;

  • 1 revólver calibre 38;

  • Carregador de pistola;

  • Isqueiro;

  • R$ 4,4 mil em espécie

  • Gandola Camuflada;

  • Balaclava;

  • Luva de pano;

  • Frasco branco com óleo;

  • Vidro branco com antibiótico Amoxicilina;

  • Macarrão instantâneo;

  • Tempero pronto;

  • Cebola;

  • Biscoito

"Ele estava também trocando de roupas, mais uma prova de que ele tinha uma rede que lhe acobertava", disse.

O empresário Elmi Caetano Evangelista foi apontado pelo secretário de Segurança Pública como "líder da organização criminosa". A polícia investiga se o objetivo do fazendeiro era "especulação imobiliária", com a desvalorização de fazendas vizinhas para a posterior compra.

Secretário de Segurança Pública de Goiás, Rodney Miranda, concedeu uma coletiva com detalhes sobre a fuga e a operação para captura de Lázaro. (Foto: Marcello Dantas/Yahoo Notícias)
Secretário de Segurança Pública de Goiás, Rodney Miranda, concedeu uma coletiva com detalhes sobre a fuga e a operação para captura de Lázaro. (Foto: Marcello Dantas/Yahoo Notícias)

Há a hipótese ainda de que o assassino trabalhava como "jagunço" ou "segurança" de fazendeiros da região. “Ainda temos algumas pessoas para investigar e prender. Agora, sai a força intensiva e fica o trabalho investigativo até a gente ir até o último envolvido”, confirmou.

Apesar da sensação de alívio pelo fim das buscas, moradores da região também cobraram a resolução dessa suposta rede de apoio a Lázaro.

"No momento em que falou que ele foi preso foi muito satisfatório, mas quando falou que ele tinha morrido foi uma tristeza, porque a gente queria que ele tivesse vivo para pagar pelos crimes que ele tinha cometido né. E pra poder desvendar tudo isso que tá acontecendo né. Às vezes tem pessoas por trás, então assim…", questionou a cozinheira Angela Maria, moradora de Edilândia.

Como o fazendeiro teria ajudado Lázaro?

Até agora, além do fim da caçada por Lázaro que culminou em sua morte, a operação já prendeu duas pessoas suspeitas de o ajudarem na fuga, um caseiro e um fazendeiro. A polícia ainda apura a relação deles com o assassino.

O caseiro, que está em liberdade provisória, contou às autoridades que o fazendeiro é amigo da família do suspeito. A defesa do patrão nega que ele tenha ajudado Lázaro.

O fugitivo fazia três refeições na fazendo, de acordo com o depoimento do caseiro na última quinta-feira (24) à investigação. Ele relatou que percebeu que faltava leite, havia copos sujos na pia e pão na mesa, sendo que ninguém dormia no local. Ele relatou também que ouviu o patrão chamar por Lázaro na hora do almoço e reparou que mais comida estava sendo preparada.

"Vem almoçar Lázaro", gritava o fazendeiro em direção à mata, conforme relatou o caseiro. O mesmo acontecia no período da noite e seu patrão gritava para a mata: “a porta vai ficar aberta”.

Lázaro dormiu no imóvel por pelo menos cinco dias, entre 18 e 23 de junho. O caseiro conta que percebeu que um colchão estava fora do lugar todos os dias. Ele ressalta que ninguém dormia na chácara normalmente.

Na tarde do dia 23 de junho, o fazendeiro foi além para proteger o fugitivo e impediu que uma equipe do Comando de Operação de Divisas da Polícia Militar (COD) entrasse na propriedade. De acordo com os agentes, eles foram tratados com hostilidade pelo dono do local. O advogado disse que ele teria feito isso para evitar fuga de animais.

O caseiro, no entanto, afirma que tinha ordens de não deixar a polícia entrar desde o dia 18.

Quando a polícia se aproximava do local, Lázaro se escondia em um depósito, onde ficavam equipamentos e uma máquina de cortar grama.

No dia em que fazendeiro e caseiro foram presos, o funcionário da fazenda conta que viu Lázaro correr para dentro do depósito. O fugitivo fez um sinal para que ele saísse da residência. Lá fora, o caseiro viu os agentes de polícia. De acordo com ele, não denunciou o esconderijo de Lázaro por ter sido ameaçado de morte.

O major do COD afirma que o caseiro revelou que havia uma relação de proximidade entre o fazendeiro e a família de Lázaro. Ele teria dado auxílio à família quando o irmão de Lázaro morreu, além de já haver empregado a mãe e o tio do suspeito. Quando a polícia conseguiu entrar na chácara, viu o nome do tio de Lázaro escrito com tinta em uma parede.

Relembre a trajetória e os 'rastros' de Lázaro Barbosa

O caso da família de Ceilândia

Lázaro é suspeito de assassinar um casal e dois filhos em uma chácara no Incra 9, em Ceilândia (DF), no dia 9 de junho. Ele atacou a família com tiros e facadas e roubou coisas da casa. Após o crime, ele conseguiu fugir pela mata da região e rodovias. Para isso, furtou carros, que dirigiu pela rodovia BR-070, que depois incendiou e abandonou.

Após o assassinato em Incra 9, Lázaro teria invadido outra chácara na mesma região, onde ficou por quatro horas, fez reféns e roubou um veículo par fugir para Goiás. Essa invasão deu indícios para a polícia que ele seria o autor da chacina da família em Ceilândia.

Marcello Dantas/Yahoo Notícias
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O início da fuga e a caçada ao 'serial killer do DF'

No dia 11 de junho, ele chegou em Cocalzinho de Goiás. No dia seguinte, ele atirou em quatro pessoas, invadiu fazendas e colocou fogo em uma casa para fugir. As vítimas foram encaminhadas a hospitais da região. No dia 14, um caseiro afirmou à polícia que atirou contra o fugitivo, que queria entrar na casa. Ele foi avistado em uma fazenda entre os distritos de Edilândia e Girasol.

No dia 15 de junho, Lázaro fez um casal e um adolescente refém em Edilândia. Familiares contaram sobre o ocorrido. "Ele falou que ia matar os três. Quando viu o helicóptero deitou eles no chão e os tapou com folhas. Quando a polícia chegou por terra, ele atirou contra a polícia", contou a familiar dos reféns. No mesmo dia, ele baleou dois policiais da PM de Goiás.

No dia 17, houve trocas de tiros entre policiais e o fugitivo, e se supõe que Lázaro se encontre ferido.

Lázaro foi avistado algumas vezes por pessoas da região até o dia de sua captura. Um moradora de Cocalzinho contou que atendeu o fugitivo na padaria que trabalha no dia 26 de junho. "Foi muito rápido e ele estava nervoso. Ele está bem diferente, está mais magro, está mais moreno, o cabelo está um pouco grande e 'lambido' para trás", relatou.

Prisão de Lázaro foi em área próximo a córrego, relata governador Ronaldo Caiado

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, deu detalhes sobre o local onde Lázaro foi pego. O criminoso estaria em uma área rural, margando um córrego em Águas Lindas.

"Foi área rural, se não me engano, margeando um córrego, mas dentro da mata mesmo. Foi na área rural. Quando o major Edson falou comigo, que estava comandando a operação, as informações que me chegaram foi que realmente foi junto à área rural, dentro da mata", afirmou.

"A informação que tive é que, realmente, já estava sendo um trabalho de toda uma equipe da casa militar do governo, já com intensidade ímpar, e conseguiram fazer um cerco nele e ele realmente recebeu todos os nossos policiais atirando", relatou Caiado.

"Ali houve uma troca de tiros. No momento em que recebi a informação, ele estava sendo deslocado e, depois, chegou até mim que teve o diagnóstico de morte de Lázaro."

Por quais crimes Lázaro Barbosa é investigado?

No total, são ao menos nove crimes cometidos por Lázaro: roubo, estupro, sequestro, tentativa de homicídio, homicídio, furto, porte ilegal de arma de fogo, tentativa de latrocínio e invasão.

Além da chacina da família Vidal, ele é acusado de quatro roubos a chácaras, sendo o primeiro e 17 de maio, e um roubo seguido de estupro, em 26 de abril. Ao todo, seus crimes podem levar a uma pena de até 320 anos de prisão.

Policiais retornando para casa após a mega-operação de buscas ao criminoso, que durou 20 dias. (Foto: Marcello Dantas/Yahoo Notícias)
Policiais retornando para casa após a mega-operação de buscas ao criminoso, que durou 20 dias. (Foto: Marcello Dantas/Yahoo Notícias)
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