Caso Leandro Bossi: 30 anos após o desaparecimento, governo do Paraná diz ter identificado ossada

SÃO PAULO - Trinta anos depois do desaparecimento de Leandro Bossi, 7 anos, em Guaratuba, no litoral do Paraná, a Secretaria de Segurança do Paraná anunciou nesta sexta-feira que conseguiu identificar fragmentos de ossos da criança por meio de exame de DNA. O exame foi feito no Laboratório da Polícia Federal, em Brasília, com base em uma tecnologia conhecida como DNA mitocondrial, que permite o estudo de tecidos antigos e até mesmo arqueológicos, como ossos, dentes e cabelos.

O secretário estadual da Segurança Pública, Wagner Mesquita, afirmou que não sabe dizer onde a ossada foi encontrada, informação que terá de ser buscada no inquérito arquivado pelo Ministério Público de Guaratuba, três décadas atrás.

— Temos que saber de que forma a perícia de hoje impacta nas investigações. Faremos uso de qualquer ferramenta nova que possa levar ao esclarecimento dos fatos — afirmou Mesquita.

A delegada Patrícia Nobre afirmou que a mãe de Leandro ficou emocionada com a identificação.

Leandro desapareceu em 15 de fevereiro de 1992. Ele morava com os pais e um irmão de 15 anos em Guaratuba e teria sido visto pela última vez num show do cantor Morais Moreira. A mãe dele, Paulina Bossi, trabalhava num hotel da cidade, junto com o filho adolescente. O pai, João Bossi, era pescador e estava no mar quando o garoto sumiu. Ele morreu no ano passado sem ter qualquer informação sobre o filho.

O fragmento de ossos de Leandro foi identificado com a comparação com material genético colhido da mãe. Na Polícia Científica do Paraná, a técnica usada anteriormente foi de DNA nuclear, que não chegou a resultado. O exame durou cerca de 45 dias.

Segundo Mesquita, oito amostras de ossadas de crianças desaparecidas no Paraná foram encaminhadas ao laboratório da PF pelo Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas (Sicride), único serviço deste tipo no país.

O Paraná tinha 27 crianças desaparecidas. Com a identificação de Leandro, o número baixou para 26.

Na época do desaparecimento, ossadas foram analisadas, mas não houve identificação positiva. Uma das amostras foi colhida ao lado do corpo do garoto Evandro Ramois Caetano, mas foi identificada como sendo de uma criança do sexo feminino. Mesquita não confirmou se os fragmentos que permitiram a identificação foram colhidos nesta situação ou se são outros.

Mesquita explicou que conseguiu elucidar o desaparecimento de Leandro, mas não o crime. Qualquer reabertura de investigação dependerá de informações do inquérito do Ministério Público de Guarapuava.

No ano passado, o Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas (Sicride), da Polícia Civil, fez coletas de materiais genéticos dos familiares de Leandro. Através de um teste de DNA Mitocondrial, com recursos diferentes dos tradicionais, foi constatada a identidade da amostra da mãe do menino, na comparação com os fragmentos encaminhados pela Polícia Científica.

Com a identificação de Leandro, restam 26 crianças desaparecidas no Estado. Nos últimos quatro anos, aproximadamente 900 casos de crianças desaparecidas foram registrados no Paraná, sendo que todos foram solucionados. Em 2022, a PCPR elucidou 100% dos casos – foram registrados 89 boletins de ocorrência e, em todos eles, as crianças foram localizadas.

A identificação foi feita dentro da Campanha Nacional de Coleta de DNA de Familiares de Pessoas Desaparecidas, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, lançada em junho de 2021. O Banco Nacional de Perfis Genéticos tem cerca de 5.400 restos mortais não identificados e material genético de 6.027 parentes de pessoas desaparecidas. O programa foi ampliado para localizar também parentes de pessoas vivas, não identificadas, que estejam internadas em hospitais ou vivendo em abrigos.

O CASO EVANDRO

O garoto Evandro Caetano tinha as mesmas características físicas de Leandro - loiro e de olhos azuis - e desapareceu em abril de 1992, dois meses depois de Leandro, na mesma cidade, no trajeto entre a escola e a casa dele.

Quatro meses depois, sete pessoas foram presas e teriam confessado que o menino foi morto num ritual macabro. O Caso Evandro teve repercussão nacional e ficou conhecido também como o caso das “Bruxas de Guaratuba”

O caso teve cinco julgamentos. Celina e Beatriz Abagge, esposa e filha do então prefeito da cidade, Aldo Abagge, foram as principais acusadas pela morte da criança. A casa do prefeito chegou a ser apedrejada.

Em 2011, Beatriz Abagge foi condenada a 21 anos de prisão. A mãe dela, Celina, não foi julgada por ter mais de 70 anos, o que levou à prescrição do crime. Os pais de santo Osvaldo Marcineiro e Davi dos Santos Soares foram condenados a 20 anos e 18 anos de prisão.

No ano passado, os três condenados entraram com pedido de revisão criminal e pedido de indenização pelo estado. Argumentaram que sofreram torturas para confessar o crime. Celina e Beatriz dizem que foram obrigadas a falar o que os policiais queriam, pois eram ameaçadas, violentadas e torturadas.

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