Caso Lorena: Clínica responsável pela morte da cabeleireira ignora notificações

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Mulher, trans, Lorena morreu em São Paulo há três meses.
Mulher trans, a pernambucana Lorena Muniz morreu em São Paulo há três meses. (Foto: Acervo Pessoal)
  • A cabeleireira morreu em fevereiro após ser abandonada em uma clínica durante um incêndio. Familiares relatam dificuldades no acesso às informações sobre o caso

  • A Prefeitura de São Paulo diz em nota que representantes da clinica, que foi interditada, foram convocados para prestar esclarecimentos, mas não compareceram

Texto: Victor Lacerda Edição: Lenne Ferreira

O último domingo (23), data em que Washington Barbosa comemoraria um ano de relacionamento com Lorena Muniz, marcou três meses de tristeza pela morte da cabeleireira. Vítima de negligência médica ao ser deixada em meio a um incêndio na clínica onde realizava cirurgia para inserção de prótese nos seios, Lorena não resistiu às toxinas e veio à óbito no dia 22 de fevereiro. O caso é acompanhado pelo Núcleo Especializado de Defesa da Diversidade e da Igualdade Racial da Defensoria Pública e pela Secretaria Municipal da Saúde, mas representantes legais da clínica seguem impunes.

A ausência de Lorena no dia a dia ainda não foi superada pelo companheiro, que foi responsável pela publicização do caso. Ele afirma que o sentimento é somado à falta de informações sobre o andamento do processo. Washington, em conversa com a Alma Preta Jornalismo, afirma estar a par do caso via portais de notícias que encontra na internet e denuncia a falta de retornos da Defensoria Pública de São Paulo.

“O que mais tira a minha paz é a falta de informações sobre o andar do processo. Para se ter uma noção, nem o número para acompanhar no site da justiça eu tive acesso, tendo que acompanhar os passos pela internet. Sinto raiva, uma sensação de vazio por diversos fatores hoje: a negligência, a burocracia e a lentidão dos trâmites. Tudo me deixa bem desesperançoso”, confessa.

Para a mãe da jovem, Elisângela Muniz, a falta de notícias também gera angustia na família. "Espero justiça e que os responsáveis paguem pelo que fizeram com a minha filha. Isso que aconteceu não se faz com ninguém. A demora tem a ver com a situação em nós estamos, enquanto pretos, pobres e moradores de favela. Infelizmente, não contamos com grandes recursos, o que facilitaria o processo ser resolvido. Tenho certeza”, desabafa.

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A Prefeitura de São Paulo, por meio de nota encaminhada pela Secretaria Municipal da Saúde (SMS) à Alma Preta Jornalismo, informa que equipes de inspeção sanitária vêm acompanhando o estabelecimento, identificado como Clínica Saúde Aqui’ desde 23 de fevereiro, data que marca o óbito de Lorena.

Segundo o órgão, após tentativas de contato com os responsáveis pela empresa, sem sucesso, inclusive para acesso ao prontuário da paciente, a secretaria teve que publicar um chamamento via Diário Oficial do Município, solicitando o comparecimento, o que também não foi atendido pelos responsáveis.

Em nova visita ao local, a equipe da Vigilância Sanitária constatou que outra empresa de serviços de saúde está em funcionamento, com razão social e CNPJ distintos, passando de Clínica Saúde Aqui para Flex Laboratório Médico Eireli. Na tentativa de obter retorno sobre a alteração junto aos representantes legais da empresa, como o advogado que acompanha a defesa da clínica, a Alma Preta Jornalismo não teve retornos.

Ainda de acordo com a prefeitura, os representantes foram Informados da necessidade de fornecer esclarecimentos, inclusive sobre o prontuário da paciente e documentação referente à atual situação da empresa. Como reposta, os responsáveis da unidade de atendimento se comprometeram a comparecer à Unidade de Vigilância em Saúde (UVIS) no centro da capital paulista, na última segunda-feira (17), mas não compareceram. 

Mais uma tentativa de conversa foi reagendada para terça-feira (18), data em que uma representante da empresa e seu advogado compareceram à sede para reunião com as autoridades sanitárias e apresentação das documentações solicitadas, o que não ocorreu. A defesa solicitou a prorrogação de prazo para a entrega desses documentos, o que não foi atendido pelas autoridades.

Enquanto os documentos exigidos não foram expedidos e entregues à secretaria, um termo de interdição total de estabelecimento foi emitido e a empresa está proibida de exercer as atividades para qual se encontra licenciada, por continuar com o CNPJ ativo. Para o advogado e a responsável, ainda foram pedidos o plano de regularização ou cancelamento da empresa.

Como forma de reconhecimento do trabalho que a filha exercia, a mãe conta que, enquanto espera a resolução do caso, está reformando um espaço para dar continuidade ao sonho de Lorena. “Mesmo que aos poucos, por não contarmos com a ajuda de ninguém, nós estamos levantando material para o Estúdio Mademoiselle Lorena Muniz. Assim como o processo de retificação que demos entrada. A minha filha vai ter o espaço com o nome dela. O falecimento dela e essa espera não podem dar fim à isso”, finaliza Elisângela.

Por enquanto, de acordo com a Unidade de Vigilância em Saúde, a empresa permanece interditada para exercer quaisquer atividades. A Defensoria Pública de São Paulo, procurada até o fechamento da publicação, não apresentou atualizações sobre o acompanhamento do caso.