Caso Marielle: família e autoridades demonstram preocupação após saída de promotoras de força-tarefa

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Diversas autoridades demonstraram preocupação com a saída das promotoras Simone Sibílio e Leticia Emile da Força-Tarefa do Caso Marielle. O afastamento da dupla, revelado pelo GLOBO no último sábado, teria sido motivado por "interferência externa" no trabalho do grupo. Parentes da vereadora Marielle Franco, assassinada com o motorista Anderson Gomes em março de 2018, também cobraram explicações do Ministério Público do Rio por conta do episódio.

"Governador Claudio Castro e Luciano Mendonça, Procurador-Geral de Justiça do RJ, quero saber do que se trata: s senhores não tem competência para impedir a interferência ou estão interferindo. Podem explicar?", questionou a viúva de Marielle, Monica Benicio, ela própria também eleita vereadora no Rio pelo PSOL no ano passado.

Anielle Franco, irmã de Marielle, também usou as redes sociais para externar dúvidas a respeito do ocorrido: "Acho que nem dormi direito tentando imaginar as tais 'interferências externas'", escreveu ela.

O deputado federal Marcelo Freixo (PSOL) foi mais um a se manifestar sobre a saída das promotoras. Em um longo texto postado no Twitter, Freixo afirmou que a decisão de Simone e Leticia é "gravíssima" e frisou que "o pedido de demissão de ambas ocorre na mesma semana em que o delegado do caso, Moisés Santana, foi substituído".

Em outro trecho, Freixo cobrou diretamente o governador em virtude do ocorrido: "O governador @claudiocastroRJ e os chefes do Ministério Público e da Polícia Civil do RJ precisam vir a público explicar a substituição do delegado e se posicionar sobre a saída das promotoras. É preciso que haja transparência e responsabilidade", cobrou o parlamentar.

Colega de Freixo no PSOL, o vereador Tarcísio Motta classificou como "gravíssima a notícia de que as promotoras encarregadas do caso do assassinato de Marielle pediram afastamento devido a influências externas". Ele prosseguiu: "Desde o início existe enorme preocupação com as interferências políticas que pudessem obstar as investigações. O MP deve explicações!"

Já a Anistia Internacional divulgou uma nota pública em que diz acompanhar "com preocupação a notícia acerca do afastamento das promotoras Simone Sibílio e Leticia Emile da Força Tarefa".

"Os acusados de serem os responsáveis pela execução de Marielle e Anderson, Ronnie Lessa e Élcio Queiroz, ainda não foram jugados pelo Tribunal do Juri. Toda e qualquer suspeita de que a investigação possa sofrer interferências indevidas deve ser investigada", afirma um trecho do comunicado.

Nesta segunda-feira, o MP-RJ informou que os substitutos ainda não foram definidos, mas que "a escolha dos nomes para atuar na força-tarefa que investiga o caso Marielle Franco e Anderson Gomes terá todo o cuidado necessário para que essa mudança não programada não prejudique a investigação destinada à apuração de eventuais mandantes do crime e tenha o êxito esperado pela sociedade". O órgão acrescentou ainda que "tão logo sejam escolhidos os substitutos, eles serão anunciados publicamente e apresentados aos familiares de Marielle e de Anderson".

Divergências sobre delação

Há cerca de um mês, a Polícia Civil do Rio apresentou ao procurador-geral de Justiça, Luciano Mattos, a viúva do ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, Júlia Lotufo, para fazer uma delação premiada em troca de benefícios como a revogação da prisão — atualmente ela se encontra presa em casa e fazendo uso de tornozeleira eletrônica. Ao assinar o termo de colaboração, que ainda não foi homologado, Júlia estaria disposta a denunciar o submundo do crime organizado, principalmente envolvendo a contravenção, a qual Adriano pertencia. O ex-PM foi morto na Bahia, em fevereiro do ano passado, de acordo com a polícia daquele estado, num confronto.

A viúva de Adriano também teria pistas sobre os mandantes do Caso Marielle, razão pela qual teria sido apresentada às promotoras da força-tarefa pela delegada da Coordenadoria de Investigação de Agentes com Foro (Ciaf) da Polícia Civil, Ana Paula Costa Marques. No meio do processo, porém, houve um desacerto. De acordo com as fontes do MPRJ, as promotoras da Força-Tarefa do Caso Marielle e o titular da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), Moysés Santana, foram alijados da negociação sobre a colaboração de Júlia. O processo foi redirecionado ao promotor que atua na 1ª Vara Especializada Criminal, onde a viúva do ex-capitão responde por associação criminosa e lavagem de dinheiro, com a coordenação da delegada Ana Paula.

Sem conhecer detalhes do processo do Caso Marielle, que já possui mais de 40 volumes, o promotor da 1ª Vara Especializada teria dificuldade de confrontar as informações trazidas por Júlia Lotufo com as peças da investigação, para verificar a veracidade do depoimento da viúva de Adriano. Também pesou para a crise o não envolvimento da DH, que conduz a investigação sobre as mortes de Marielle e Anderson desde o primeiro momento, enquanto a Ciaf é especializada em crimes de atribuição originária do procurador-geral de Justiça — geralmente, casos chamados de crime do colarinho branco, com conotação política.

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