Pelé estava sob cuidados paliativos antes de morrer; entenda tratamento

Diretor científico da ANCP e coordenador do núcleo de Cuidados Paliativos do HCFMUSP explicam que o foco desta área médica é o paciente e sua família, e não apenas a doença

Por Celina Cardoso

Brazilian soccer legend Pele tosses a ball with physical therapist Kamila in Sao Paulo, Brazil in this still image obtained via undated social media video released on Pele's Instagram page September 28, 2021. INSTAGRAM @PELE /via REUTERS THIS IMAGE HAS BEEN SUPPLIED BY A THIRD PARTY. MANDATORY CREDIT. MUST COURTESY INSTAGRAM @PELE
Imagem de setembro de 2021 mostra Pelé durante sessão de fisioterapia em um hospital de São Paulo (Foto: Instagram @pele /via Reuters) COURTESY INSTAGRAM @PELE

Alvo de uma visão equivocada da sociedade, os cuidados paliativos entraram no foco da atenção dos brasileiros quando se divulgou que o maior jogador de futebol do mundo, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, estava recebendo esse tipo de atenção. O atleta, que faleceu nesta quinta-feira (29), sofria com um câncer de cólon e uma infecção pulmonar e passou a receber tais cuidados porque o tratamento para conter a doença já não apresentava evolução.

Pelé esteve internado desde o final de novembro no Hospital Albert Einstein e, diante do seu estado de saúde delicado, recebeu diversas homenagens durante a Copa do Mundo. No último fim de semana, seus familiares se reuniram na unidade de saúde para passar o que seria o último natal deles ao lado do Rei.

Mas ao contrário do que se pensa, cuidado paliativo não é apenas oferecer conforto e controle da dor para quem está em processo avançado de fim de vida. Rodrigo Kappel Castilho, médico intensivista e diretor científico da ANCP (Academia Nacional de Cuidados Paliativos), explica o tratamento ao Yahoo.

 

Cuidado paliativo é uma abordagem cujo objetivo é melhorar a qualidade de vida do paciente e da família diante de quaisquer situações ameaçadoras à vida, seja uma doença ou um acidente. A meta é prevenir e controlar sintomas físicos, emocionais e espirituais de quem sofre de uma doença ou foi vítima de uma fatalidade, além de manter uma comunicação clara e empática com o paciente e seus familiares, oferecendo apoio psicológico e social”.Rodrigo Kappel Castilho, médico intensivista

Segundo Castilho, o foco da medicina paliativa é tratar a pessoa em toda a sua complexidade e não apenas a saúde física, respeitando os desejos do paciente, seus familiares e suas crenças. O médico conta que o termo paliativo vem de pallium, manto utilizado por guerreiros antigos para se protegerem de intempéries.

Para Ricardo Tavares de Carvalho, cardiologista e coordenador do Núcleo de Cuidados Paliativos do HCFMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), a confusão em torno do conceito de cuidado paliativo se deve à origem deste tratamento, que nasceu na década de 60 para oferecer mais conforto a pacientes de câncer nos quais tratamentos medicamentosos para controle da enfermidade não funcionavam mais. Ele conta que, desde então, a concepção desta área da medicina se ampliou e o debate hoje deve ser em qual momento da evolução da doença o cuidado paliativo deve ser introduzido no tratamento médico e quais cuidados cada paciente precisa.

Afirmar a vida e entender a morte como um processo natural é uma das diretrizes do cuidado paliativo. Cuidado paliativo não é um empurrão para a morte. Falaram que o Pelé estava em cuidado paliativo, a família negou no Fantástico. Por que negou? Isso é tudo de bom. O pior é que as pessoas têm muito pouco acesso a esse tipo de cuidado no Brasil e no mundo. Apenas 12% da população que precisa de cuidado paliativo o recebe. Isso contando gente de país rico. Imagina aqui".Ricardo Tavares de Carvalho, cardiologista e coordenador do Núcleo de Cuidados Paliativos do HCFMUSP

Os dois médicos explicam que o foco do tratamento paliativo é proporcionar conforto, dignidade e qualidade de vida aos pacientes, de maneira que eles possam viver da melhor forma possível até o fim da vida chegar. Para Castilho, a principal questão no tratamento de uma doença é o desejo do paciente.

“O que tem acontecido no Brasil é o tratamento voltado para a doença e para órgão doente. E a pessoa que vivencia isso fica de lado. Existe muita tecnologia que é maravilhosa, que pode evitar mortes, mas se criou uma cultura de que a morte é uma derrota da medicina. E nisso as pessoas muitas vezes são submetidas a medidas invasivas desproporcionais, tratamentos desumanos e degradantes, que trazem sofrimento e não são capazes de atingir o melhor interesse do paciente. A questão é: qual o principal interesse da pessoa que experiencia a doença?”, diz o médico.

Mas atenção, cuidado paliativo e respeito ao desejo do paciente não tem nada a ver com eutanásia, mas sim com testamento vital e solicitações de vontade, no qual o paciente, bem-informado sobre sua condição e com capacidade de decisão, manifesta antecipadamente por quais tratamentos e procedimentos deseja passar.

“Imagine quantos suicídios e desejo de eutanásia o cuidado paliativo pode evitar, se o paciente for respeitado em seus desejos e cuidado nas suas necessidades, proporcionando a qualidade de vida que ele deseja”, comenta Castilho.

Equipe multidisciplinar

Para cuidar de um paciente em toda sua complexidade e amparar a família, a equipe de medicina paliativa é composta por diferentes profissionais entre eles, médico, enfermeiro, psicólogo, assistente social, capelão, assistente espiritual, fisioterapeuta, nutricionista e demais especialidades que possa se fazer necessária para um melhor tratamento. Ao contrário do que acontece na medicina tradicional, onde o médico é o protagonista, na área de atuação do cuidado paliativo, as decisões são tomadas em conjunto não apenas com a equipe, mas com o próprio paciente – quando ele está em condição de participar - e sua família.

“Uma das principais expertises dessa equipe é a comunicação verdadeira, empática, compassiva, que abre espaço para o outro e que não mente. A equipe é uma organização assistencial, com planejamento de cuidado, que vai acontecer ao longo da evolução de uma doença e não só para quem está morrendo, como habitualmente as pessoas acham”, esclarece Carvalho.

“Não parece óbvio que o médico tem de falar de um jeito que a família entenda? Não parece lógico que é preciso incluir a família no plano de cuidado e que alguém tem que se preocupar com o fato do indivíduo não ter emprego? Só que ninguém se preocupa”, completa o médico.

Ao contrário do Reino Unido e dos Estados Unidos, o cuidado paliativo é considerado uma área de atuação e não uma especialidade médica. Segundo Rodrigo Kappel Castilho, diretor científico da ANCP, a disciplina de cuidados paliativos será incluída na grade dos cursos de medicina em 2023.

De acordo com Ricardo Tavares de Carvalho, a FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) já tem programa de residência médica, programa de residência multiprofissional e programa de pós-graduação lato-sensu em Cuidados Paliativos.