Caso radical como o de Roberto Jefferson não será o único, diz pesquisadora

***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 03.01.2018 - O ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 03.01.2018 - O ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O ataque do ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB) a policiais federais, com granada e tiros de fuzil, não foi um episódio isolado e deve se repetir mais vezes no Brasil, alerta a pesquisadora Michele Prado.

Nesta sexta-feira (28), o Mackenzie suspendeu as aulas após alunos prometerem reagir com violência a protesto de colegas a favor do ex-presidente Lula (PT). Um deles falou que agiria em nome de Jefferson.

Autora de livros sobre a extrema direita, Michele observa uma série de semelhanças entre a atitude do ex-deputado e a postura de extremistas no exterior.

A diferença, porém, é que o Brasil não tem nenhuma iniciativa de peso para prevenir e evitar a radicalização.

Michele começou a estudar a extrema direita no final de 2018, após participar de grupos no WhatsApp com influenciadores de direita apoiadores de Jair Bolsonaro na eleição daquele ano.

Ela conta que, impressionada com as conversas sobre golpe de Estado e apoio a assédios online, rompeu com os integrantes e passou a se dedicar ao tema, mergulhando em pesquisas e monitoramento de perfis.

Do trabalho, saíram os livros Tempestade Ideológica (ed. Lux, 2021) e Red Pill - Radicalização e Extremismo, que deve ser publicado em breve. Ela também integra grupo de pesquisa do IBI (Instituto Brasil-Israel).

O primeiro passo para entender o extremismo de direita, segundo Michele, é deixar claro que atos como o de Jefferson não são frutos de surtos ou desequilíbrios psicológicos.

"Roberto Jefferson foi levado ao extremismo violento e vem passando por um processo de radicalização perceptível há alguns anos", diz.

Ela cita alguns marcadores dessa radicalização, que podem ser úteis para qualquer um que queira identificar alguém no mesmo processo.

O primeiro, diz, é o antissemitismo, manifestado com discurso semelhante ao da extrema direita em outros países.

Ela cita como exemplo a publicação em que Jefferson, no início do ano passado, reproduziu a teoria falsa do "libelo de sangue", segundo a qual judeus sacrificavam crianças.

À época, a Conib (Confederação Israelita do Brasil) anunciou que faria queixa-crime contra ele sob acusação de racismo.

Segundo Michele, outros dois sinais de radicalização de Jefferson, alinhados ao que acontece com extremistas do resto do mundo, são o culto às armas e a misoginia.

As duas características, comuns a extremistas de outros países do mundo, são visíveis tanto no arsenal bélico doméstico como nas ofensas à ministra do STF (Supremo Tribunal Federal) Cármen Lúcia.

Na visão da pesquisadora, eventual vitória de Bolsonaro pode agravar o quadro, pelo discurso armamentista e que divide a sociedade. Ainda assim, em sua visão, o problema não se resolve com uma eventual derrota do presidente nas urnas.

Isso porque a radicalização se alimenta das chamadas câmaras de eco da internet, expressão que ilustra as pessoas que consomem apenas conteúdos alinhados às suas convicções prévias.

"Às vezes, um evento traumático na vida leva a determinados grupos e crenças, às vezes são momentos de conflitos e crises e, em outras, o gatilho é ficar muito tempo consumindo conteúdos de teorias conspiratórias", afirma. "Atualmente, vemos outro vetor, que é a ampliação dos limites de aceitação do absurdo no discurso público."

Programas bem-sucedidos contra a radicalização, afirma ela, são vistos em países como Alemanha, Noruega e Nova Zelândia. Eles incluem ações que envolvem as escolas e comunidades.

Segundo a pesquisadora, a curto prazo, a saída é não dar palanque a extremistas, nem repassando mensagens em tom crítico.

A longo prazo, o contra-extremismo requer ações preventivas. "Não adianta só a aplicação da lei, porque ela acontece depois que o incidente já ocorreu."