Caso Ruff: Justiça absolve ex-policial que teria assassinado delator de corrupção em 1998

A 4ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro absolveu, por decisão do tribunal do júri, o ex-policial Vitor Alexandre Albano, acusado pelo homicídio triplamente qualificado do marítimo Carlos Antônio Ruff, em agosto de 1998. Ruff denunciou, duas semanas antes de ser morto, um esquema de tráfico de drogas envolvendo policiais civis e federais. Além de Vitor, dois homens identificados como Luiz Antonio Bollis Pinto e Carlos Alberto Figueira Borges, réus pelo crime de associação para o tráfico no mesmo caso, também foram considerados inocentes na última quinta-feira.

O ex-policial chegou a ser condenado a 27 anos de prisão em 2006. O júri, no entanto, foi anulado por um habeas corpus expedido aproximadamente um ano depois. De acordo com a defesa de Vitor, havia falhas processuais que teriam ocasionado a anulação da condenação. Anos depois, com a decisão judicial que anulou o julgamento, deu-se início a preparação do novo júri, que aconteceu na última semana.

Segundo o advogado Zoser Hardman, responsável pela defesa de Vitor Alexandre Albano junto com o advogado Saulo Salles, a inocência do ex-policial conseguiu, no último júri, ser demonstrada com clareza a partir da fragilidade das provas imputadas a ele.

— Foi determinante a própria inocência do Vitor, que não participou de nenhum ato dessa natureza. Conseguimos demonstrar para os jurados a fragilidade das provas. Havia contradição em provas e depoimentos, pontos sem resposta e nenhum elemento que comprovasse a participação de Vitor nesse homicídio — afirma Zoser.

No mês em que foi morto, Carlos Ruff procurou O GLOBO para denunciar dois esquemas associados: um de tráfico, do qual fazia parte e atuava na facilitação do embarque de drogas em navios para o exterior; e outro relacionado à ação de 13 policiais — três federais, entre eles um delegado, dois civis de São Paulo e oito civis do Rio — especializados na extorsão de traficantes. Ruff foi levado pelos próprios repórteres ao Ministério Público, onde decidiu fazer a denúncia em troca de proteção das autoridades e prestou depoimentos.

Na época, Ruff chegou a revelar que os policiais denunciados apreendiam cocaína nos portos e repassavam para o traficante Fernandinho Beira-Mar. As denúncias do marinheiro resultaram, naquele período, no pedido de prisão de sete policiais e um comerciante, que chegaram a ser presos, mas foram soltos posteriormente. Carlos Ruff também tornou possível uma operação intitulada “Cavalo de Tróia”, dez dias antes do assassinato, com a montagem de uma armadilha para prender os policiais corruptos. A ação, no entanto, não teve sucesso.

No dia 31 de agosto de 1998, o delator usava um telefone público na esquina da Rua João Torquato com a Avenida Teixeira de Castro, em Bonsucesso, quando um homem desembarcou de um carro do modelo Monza e efetuou os quatro disparos à queima-roupa que o mataram. O autor do crime também levou uma pasta com documentos e dinheiro, além de uma agenda com telefones e dados referentes ao esquema de tráfico de drogas.

Apesar de ter sido morto em uma via pública, Ruff foi considerado desaparecido pelas autoridades, que somente duas semanas depois tomaram conhecimento do assassinato. O crime foi registrado pela 21ª DP (Bonsucesso) como um caso de roubo qualificado seguido de morte.

Após o assassinato, a Procuradoria da República reconheceu falha na proteção a Ruff e alegou que a postura do Ministério Público Federal deveria ser outra em casos como o do marinheiro. A repercussão do caso fez com que os órgãos da Justiça refletissem, à época, sobre a efetividade de um programa de proteção a testemunhas.