Caso Sergio Reis prova que Brasil virou a terra do realismo fantástico

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Cantor e ex-deputado será investigado por ataques ao STF. Foto: Reprodução
Cantor e ex-deputado será investigado por ataques ao STF. Foto: Reprodução

1º de janeiro de 2011.

Na frente do edifício em São Bernardo do Campo (SP), um sujeito bate no meu ombro e provoca. Pergunta se eu sei quem é o senhor alto, de chapéu, com um time de violeiros em cima de um palco improvisado a poucos metros de nós.

Claro que conheço. É o Sérgio Reis, o cara do Menino da Porteira, da Panela Velha, do Boiadeiro Errante, do Couro de Boi, do Coração de Papel.

Quem mais poderia ser?

Com um sorriso irônico, o sujeito mandou (agora eu sei) um extemporâneo “ah tá”. Daqui a pouco mais de dez anos, disse ele, aquele artista que em minutos faria uma homenagem ao morador de um daqueles apartamentos, o agora ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, vai acordar com uma visita da Polícia Federal em sua casa.

A suspeita? “Eventual cometimento do crime de incitar a população, através das redes sociais, a praticar atos violentos e ameaçadores contra a Democracia, o Estado de Direito e suas instituições, bem como os membros dos Poderes”.

Redes sociais?, pergunto.

Na época só tinha uma conta no Orkut, e parecia inverossímil conseguir organizar uma revolução ou golpe de Estado através de comunidades como “Lênin de três”, “Niilismo miguxo", “Cabras não têm pretensões” e “Odeio pisar no chão com a meia molhada”.

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Pois aquele tiozão simpático que tanto toca no seu churrasco, avisou o brincalhão, vai usar o celular para gravar vídeos e áudios dizendo coisas do tipo “enquanto o Senado não tomar essa posição que nós mandamos fazer, vamos ficar em Brasília e não saímos de lá até isso acontecer. E, se em 30 dias não tirarem aqueles caras, nós vamos invadir, quebrar tudo e tirar os caras na marra”.

Os caras eram os ministros do Supremo Tribunal Federal que não deixavam o futuro presidente fazer do país o seu quintal da coleção Comandos em Ação.

O Sérgio Reis? Para.

Olhei para o celular, não tinha nenhum SMS novo. Na época, fazer foto ou vídeo naquela câmera era sair de uma realidade de alta-definição para uma versão mal desenhada em pixeis de Minecraft —que ainda levaria nove meses para ser inventado.

Entrei na brincadeira e disse então que aquilo mais parecia papo de Taleban. Mais fácil um grupo extremista voltar a Cabul pela porta da frente exibindo sorridentes suas armas para o mundo do que imaginar uma cena do tipo, com o Sérgio Reis (o Sérgio Reis, pai!) à frente.

Juro que não entendi a gargalhada.

Perguntei então por que diabos um cantor e compositor consagrado se meteria nisso.

A explicação era uma viagem lisérgica.

A Dilma Rousseff, que acabava de receber a faixa do anfitrião daquela festa em São Bernardo, iria ser reeleita e cair dali uns anos. O brasileiro entraria num módulo de autodestruição desde o trauma na Copa do Mundo. (Ele falou alguma coisa sobre sete gols em uma só partida, mas não guardei direito). Michel Temer assumiria a Presidência e, antes de ser gravado pelo dono de um frigorífico dizendo que era bom manter com dinheiro o silêncio de um gângster preso depois de ser alçado presidente da Câmara, botou no Supremo Tribunal Federal um cover do Michel Foucault que gostava de cortar plantações de maconha com facão e que após assumir a cadeira começou a podar também todo mundo que ia para as redes ou para as ruas ameaçar tacar fogo em tudo para que Jair Bolsonaro se tornasse imperador.

Bolsonaro? Aquele maluco da Luciana Gimenez?

Ele mesmo.

E por que diabos alguém ia mover uma palha pra que ele virasse imperador? Porque, explicou o lunático, ele virou presidente copiando cada passo do apresentador de reality show eleito presidente nos EUA, esbarrou nos limites da Constituição e, sem planos de governo, passou a se dedicar a uma improvável reeleição armando suas milícias reais e digitais forçando uma crise com membros do Judiciário que o investigavam por atentar contra a democracia, o sistema de voto no país e espalhar notícias fake sobre kit gay e mamadeira de piroca.

Quê?

Antes de mostrar meu espanto, o sujeito já havia se embrenhado na multidão. Desde então não consegui ouvir quase nada da homenagem do Sérgio Reis ao ex-presidente Lula em sua volta para casa depois de oito anos em Brasília.

Hoje sei quem é o autor daquele conto de literatura fantástica. O fanfarrão era o futuro ou o futuro era um fanfarrão?

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