Caso USP: mãe chama de 'horror' acusação contra filha suspeita de desvio de dinheiro de formatura e diz que jovem quer concluir o curso de medicina

Cristina Muller, mãe de Alícia, de 25 anos, a aluna que alega ter sofrido um golpe e perdido R$ 927 mil arrecadados pelos colegas do curso de medicina da Universidade de São Paulo (USP) diz que a filha prestará, em breve, seus esclarecimentos à polícia. A jovem, que está reclusa, já foi convocada a prestar esclarecimentos. Cristina diz que ela não foi aos Estados Unidos nem colocou silicone, como está circulando nas redes.

— Que horror, não — surpreendeu-se com o tema da cirurgia e da viagem.

Cristina não quis dar muitos esclarecimentos sobre o caso e disse que está triste e abalada com a situação. Também afirmou que a filha contou o mesmo relato de fraude para ela e que quer concluir o curso de medicina.

O golpe sofrido por alunos da turma 106A repercutiu após um estudante realizar um boletim de ocorrência na última terça-feira (10). De acordo com as vítimas, a Comissão responsável pela coordenação da formatura tomou conhecimento da fraude no dia 6, por meio de uma mensagem de WhatsApp em que a suspeita confessava as transferências para uma conta pessoal sua.

Ela alegava ter perdido cerca de R$ 800 mil investindo em um esquema supostamente fraudulento da empresa “Sentinel Bank”. O restante, confessa ter utilizado para, em cunho pessoal, contratar advogados para tentar reaver o dinheiro perdido. O montante de cerca de R$ 927 mil foi arrecadado durante 4 anos pela empresa ÁS Formaturas.

"Escrevo para dizer que não temos dinheiro. Com toda dor, culpa e arrependimento que vocês podem imaginar. (...) Nosso dinheiro foi todo repassado para a Sentinel Bank, uma investidora que, no fim das contas, não se passava de um grande golpe e nunca mais retornou nem com o dinheiro investido, nem com os rendimentos", escreveu Alicia.

Na mensagem, a estudante diz ainda que em setembro de 2021 alertou a Comissão sobre uma suposta falha no pagamento da ÁS Formaturas, empresa que estava responsável por gerir a verba que seria usada para realizar a festa. Procurada, a ÁS Formaturas negou a acusação e afirmou que “não se comprometeu com a realização ou produção de qualquer evento”.

“A responsabilidade da ÁS no contrato limitava-se a arrecadar os valores dos formandos e transferir para a turma, além da realização da cobertura fotográfica”, esclareceu a empresa. A instituição ressaltou ainda que “todas as transferências foram realizadas rigorosamente conforme estabelecido nas cláusulas contratuais” e que está à disposição da Justiça para “fornecimento de contratos, documentos, e-mails e demais informações".

O GLOBO também procurou a Sentinel Bank, que não se pronunciou até o fechamento desta reportagem.

Investigada por apropriação indébita e lavagem de dinheiro

Após a denúncia, Alícia está sendo investigada por apropriação indébita. O caso também segue sendo acompanhado pela Faculdade de Medicina da USP, que informou que a jovem não foi expulsa e que a reitoria avalia as medidas que serão tomadas.

De acordo com a polícia, a estudante é investigada ainda por aplicar um golpe em uma casa lotérica na Vila Mariana, na Zona Oeste paulistana. Na ocasião, a jovem realizava apostas de altos valores por meio de transferência via Pix.

Um inquérito foi aberto em julho do ano passado, a fim de investigar a suspeita, que "teria deixado um prejuízo de R$192.908,47, após ter feito o agendamento do valor via Pix, sem pagar efetivamente pelas apostas que realizou", diz a nota da SSP.

Na ocasião, a estudante teria solicitado R$ 891,5 mil em apostas. No entanto, a gerente da lotérica questionou sobre o pagamento, e a suspeita disse que foi realizado um agendamento. Para tentar enganar, Alícia, então, teria realizado uma transferência muito inferior de R$ 891,53, na tentativa de fazer com que os funcionários da lotérica pensassem que seria o valor total de R$ 891,5 mil.

Após breve discussão, a suspeita saiu da lotérica com cinco apostas de R$ 38,7 mil cada, totalizando R$ 193,8 mil.

Segundo um depoimento presente no documento, de autoria de um representante da lotérica, todas as apostas superam o valor de R$ 461 mil. O caso é investigado como estelionato e lavagem de dinheiro.