Casos de COVID-19 disparam no Chile e militares vão a bairros pobres após protestos

Por Pablo COZZAGLIO, Paula BUSTAMANTE
1 / 3
Confrontos entre manifestantes e tropa de choque da polícia em Santiago do Chile, em 18 de maio de 2020

Uma forte presença militar se impôs em zonas vulneráveis de Santiago do Chile, onde na segunda-feira houve protestos por comida e trabalho, em meio a uma quarentena total, enquanto no país os novos contágios diários de coronavírus dispararam 55% com relação ao dia anterior, beirando os 50.000 casos.

Com mais de 90% dos leitos de terapia intensiva ocupados em Santiago, as autoridades optaram por transferir pacientes para outras cidades do país. Pelo menos seis doentes graves foram enviados para Concepción, 500 km ao sul, em um avião-ambulância e outros quatro em um avião Hércules da Força Aérea do Chile.

Dezenas de militares e caminhões do Exército na região da comuna El Bosque contiveram os ânimos nas ruas, onde na segunda uma centena de moradores enfrentaram com paus e pedras a tropa de choque da polícia, após o primeiro dia útil da quarentena, em vigor desde a sexta-feira na capital, epicentro da pandemia no país.

"Estamos em um momento muito complexo, muito difícil, com muita preocupação cívica", disse o ministro da Saúde, Jaime Mañalich, em mensagem para divulgar o último balanço, em um tom que transmitiu angústia.

O número de contágios subiu nesta terça-feira para 49.579, após registrar o maior aumento diário de novos infectados desde o começo da epidemia: 3.520.

Nas últimas 24 horas também se alcançou um recorde de falecidos, 31 pessoas, elevando a 509 o número de mortos desde 3 de março.

"Temos fome", "precisamos trabalhar, precisamos que a ajuda chegue", ouvia-se dos moradores dos bairros mais vulneráveis de Santiago, parte dos 11,7% de pobres no país de quase 18 milhões de habitantes.

"O povo não tem trabalho, não tem dinheiro e não tem alimento", lamentou Mónica Sepúlveda, de 46 anos, guarda de segurança desempregada, em declarações à AFP em Em Bosque nesta terça-feira.

Sepúlveda criticou que o governo prometa uma ajuda que não chega. Há anos "riem de gente humilde como nós", disse a manifestante. O governo "ajuda a gente rica, os empresários", acrescentou.

Mañalich referiu-se às reivindicações dos setores populares: "Estamos vendo o que denominamos de uma pandemia social. Produz perda de empregos, falta de recursos e o pior, produz fome. Por isso, o presidente está tomando uma série de medidas para que a fome não atinja os mais destituídos".

O titular da Saúde declarou: "a crise sanitária e social que vivemos não tem precedentes no Chile, é por isso que é preciso dimensionar adequadamente qual é o desafio que enfrentamos e enfrentá-lo todos unidos".

- Noite de raiva pela fome -

Durante a noite, também em El Bosque, cem pessoas saquearam uma distribuidora de gás. No centro da cidade, manifestantes queimaram um ônibus e em outros setores de classe média e trabalhadora, que no último mês perderam empregos, ouviram-se panelaços.

"Estamos há muitas semanas em quarentena, desde antes de decretada pelo presidente porque sabemos que não temos leitos em nossos hospitais no sul de Santiago", explicou nesta terça-feira à rádio Cooperativa Claudia Pizarro, prefeita de La Pintana, setor popular da Grande Santiago.

"Vê-se a fome há várias semanas. A cada dia, as pessoas estão organizando mais panelões de comida (...) E as pessoas vêm, não como antes, que era um refeitório, agora vêm buscar comida para levar para casa", detalhou Pizarro.

A prefeita criticou o governo do presidente conservador, Sebastián Piñera, por ter feito "anúncios espetaculares", mas "todas as coisas estão chegando fora do tempo", disse.

Na noite de domingo, Piñera anunciou, em mensagem ao país, a distribuição de cestas de alimentos para os mais pobres, embora não tenha dado prazos, nem informado onde. Os prefeitos dos locais mais afetados não tinham conhecimento do plano.

Em abril, o presidente anunciou a entrega de um bônus familiar com valor equivalente a 317 dólares para 4,5 milhões de chilenos mais vulneráveis, que ainda não foi entregue. Desde o mês passado distribui-se outro bônus de 60 dólares para 60% das famílias mais pobres.