Coronavírus avança rápido em Paraisópolis, com 70 casos entre suspeitos e confirmados

Por Yan Boechat

O novo coronavírus está se espalhando com rapidez pela Favela de Paraisópolis, o bairro com a maior densidade demográfica do país — onde se espremem 45 mil pessoas por quilômetro quadrado, de acordo com dados do IBGE. Nesse momento mais de 60 ja pessoas já apresentaram quadro clínico com sintomas típicos da Covid-19 e foram encaminhadas para hospitais da região. Todas ainda aguardam o resultado dos testes. Na favela, ao menos oito pessoas foram confirmadas com o novo vírus e quatro mortes estão sendo consideradas suspeitas de terem sido causadas pelo novo coronavírus, de acordo com a associação de moradores da favela. 

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 min e receba todos os seus emails em 1 só lugar

Siga o Yahoo Notícias no Google News

O balconista Roberto Braga de Souza, de 41 anos, testou positivo para Covid-19 no dia 28. Ainda apresentando os sintomas da doença, hoje foi ao caixa eletrônico de Paraisópolis retirar dinheiro (Foto: Yan Boechat/Yahoo Notícias)

“O vírus está circulando livremente por Paraisópolis, temos atendido cada vez mais casos de pessoas com os sintomas da doença e que precisam ser levadas aos hospitais por por problemas respiratórios graves”, diz o cardiologista Luiz Carlos Barbosa, que atua em uma base médica improvisada no coração da favela. “Veremos um aumento considerável dos casos nas próximas semanas, as pessoas simplesmente não estão respeitando a quarentena por aqui”, diz ele, que foi contratado pela própria associação de moradores para prestar atendimento emergencial durante a crise da Covid-19.

Leia também

Ele se diz preocupado não só com o acúmulo de pessoas nas ruas, mas principalmente com o fato de a maior parte das famílias viverem em pequenas residências, muitas vezes com várias pessoas dividindo os mesmos cômodos. “A situação aqui é extremamente preocupante porque não há condições básicas de higiene, falta água, falta sabonete, faltam janelas nas casas”, conta o médico que, mesmo com mais de duas décadas de profissão, se diz impressionado com o que tem encontrado em Paraisópolis. “Será difícil”.

O médico cardiologista Luiz Carlos Barbosa dá plantão em um centro médico improvisado por moradores em uma oficina mecânica no coração de Paraisópolis (Foto: Yan Boechat/Yahoo Notícias)

Roberto Braga de Souza, de 41 anos, foi diagnosticado com a Covid-19 no dia 28. “Comecei primeiro a passar mal com dor de cabeça, depois foi me dando dor nas pernas e então veio a falta de ar”, conta. Ele diz ter sido salvo pela equipe médica de emergência que vem atuando na favela desde o início da crise. “Achei que ia morrer, tive sorte de conseguir pedir ajuda e eles virem rápido me dar oxigênio, foi por pouco”. Rogério está em casa desde então, garante estar cumprindo as recomendações médicas com disciplina militar. Ou quase.

Voluntários distribuem alimentos a moradores de Paraisópolis em condições de vulnerabilidade (Foto: Yan Boechat/Yahoo Notícias)

“Hoje foi o primeiro dia que sai, não tinha jeito, tive que ir no caixa eletrônico tirar dinheiro, precisava da minha digital”, conta. Na tarde de sábado, os caixas eletrônicos de Paraisópolis estavam extremamente movimentados, com longas filas de espera entre os moradores. Rogério passou por uma dessas máquinas, as tocou e precisou também esperar na fila. “Mas eu estava de máscara”, diz. Balconista de uma farmácia do Capão Redondo, ele tem certeza de que foi contaminado enquanto trabalhava. “Amigo, não tem como parar esse vírus, ele tá lá no Capão, tá aqui, tá solto por ai tudo”, diz.

Uma das principais ruas de Paraisópolis tinha comércio aberto e muita gente caminhando na tarde desse sábado (Foto: Yan Boechat/Yahoo Notícias)

A Associação de Moradores de Paraisópolis está se preparando para uma crise de grandes proporções na comunidade. Gilson Rodrigues, presidente da organização, diz que até a semana passada havia algum tipo de respeito coletivo para as recomendações de que as pessoas ficassem em casa. “Mas desde que o presidente Jair Bolsonaro foi para a TV dizer que não passava de um resfriado, que as pessoas deviam voltar a normalidade, a favela voltou quase que a ser o que era antes”, diz ele. “Foi impressionante o impacto que as falas dele teve aqui, muita gente decidiu voltar pra rua, reabrir seus comércios”. 

Voluntários distribuem alimentos para moradores em condições de vulnerabilidade alimentar na Favela de Paraisópolis (Foto: Yan Boechat/Yahoo Notícias)

Na tarde desse sábado o Yahoo Brasil percorreu diversas ruas de Paraisópolis. Em quase todas elas observou comércios de serviços não essenciais funcionando normalmente, como lojas de roupas, de artigos de tecnologia e salões de cabeleireiro. Nas ruas, movimento intenso de pessoas circulando à pé, de carro ou de moto. Em alguns bares, moradores se divertiam ouvindo pagode, tomando cerveja e fazendo churrasco como em um sábado normal. “A coisa tá assim moço, ninguém tá respeitando mesmo”, dizia uma moradora que não queria se identificar, e que caminhava com a filha em uma das ruas mais movimentadas da favela.

Voluntária cozinha feijão que será distribuído em marmitas para famílias em condição de vulnerabilidade alimentar em Paraisópolis (Foto: Yan Boechat/Yahoo Notícias)

Esperando uma explosão de casos nas próximas semanas a Associação de Moradores de Paraisópolis está iniciando a instalação de uma espécie de hospital temporário em duas escolas da comunidade. O objetivo é retirar as pessoas que estejam contaminadas de suas casas e fazer com que elas respeitem a quarentena em um local monitorado. Nos próximos dias serão instaladas 500 camas nessas escolas, que terão também cozinha, enfermaria e áreas comuns para que essas pessoas com teste positivo para Covid-19 e que não apresentem sintomas graves possam ficar até que deixem de ser vetores de transmissão do vírus. “Além disso estamos distribuindo mais de 1 mil quentinhas diárias e cestas básicas para tentar reduzir os impactos da crise econômica que já está atingindo boa parte da comunidade”, diz Gilson. “Com as nossas características, será difícil isolar as pessoas”, conta ele.

Marcos Nilder, um morador de Paraisópolis suspeito de estar contaminado pelo novo coronavírus adotou uma estratégia radical para tentar reduzir os riscos de contaminação em sua casa. Por 15 dias ele se isolou na laje de sua casa, onde montou uma cama improvisada. Dormiu lá todas as noites sem chuva até que cumprisse os 15 dias de quarentena.

Siga o Yahoo Notícias no Instagram, Facebook, Twitter e YouTube e aproveite para se logar e deixar aqui abaixo o seu comentário.