Casos de traumas crescem e disputam leitos com Covid

CLAUDIA COLLUCCI
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ao mesmo tempo que aumentam as internações de Covid-19 em todo o país, hospitais registram também um crescimento de pacientes vítimas de traumas causados por acidentes de trânsito, quedas e violência, e temem uma sobrecarga ainda maior no sistema de saúde. No início da pandemia, houve uma redução de acidentes com vítimas no estado de São Paulo. Nos meses de abril e maio, foram registradas quedas de 38,8% (15.883 para 9.724) e 28,2% (16.235 para 11.653), respectivamente, em relação ao mesmo período de 2019. Já nos meses de novembro e dezembro, quando aumentou a circulação de pessoas, o número de acidentes com vítimas superou o do ano anterior, com um aumento de 3,6% (15.459 para 16.015) e 2,3% (15.650 para 16.018). Os números são do painel do Infosiga SP, sistema paulista de informações de acidentes de trânsito. No ano todo, o estado fechou com redução de 9,3% de acidentes com vítimas e de 7,6% de mortes no trânsito. Ainda não há um levantamento nacional consolidado sobre o impacto dos traumas nos hospitais em 2020, mas médicos e associações relatam apreensão devido à alta dos acidentes diante do recrudescimento da pandemia. A Sbait (Sociedade Brasileira de Atendimento Integrado ao Traumatizado) emitiu um alerta e se diz preocupada com a possibilidade de falta de leitos, sangue e outros tipos de insumos para garantir que pessoas que sofram trauma possam ser atendidas adequadamente. Há relatos, por exemplo, de pacientes com traumas que, por falta de vaga na UTI dedicada a esses casos, foram transferidos para a UTI de Covid, e de outros que passaram horas no centro cirúrgico ou ficaram dias em enfermarias porque não havia leito de cuidado intensivo. No Hospital das Clínicas de São Paulo, entre abril e maio, auge da pandemia, o Into (Instituto de Ortopedia e Traumatologia) registrou queda de até 50% no número de cirurgias de traumas ortopédicos na comparação com o mesmo período de 2019. A partir de agosto, os casos começaram a aumentar e, em dezembro, as cirurgias fecharam em níveis apenas 15,6% inferiores a 2019. Em relação às internações por trauma, no início da crise sanitária, houve queda de 30%, mas agora os números voltaram a patamares de 2019 --cerca 160 por mês. "O que mais chama a atenção é a gravidade desses traumas. São muito mais graves do que antes. A minha impressão é que os motociclistas e os ciclistas de aplicativos de alimentação não estão respeitando nada de trânsito", diz o cirurgião Jorge dos Santos Silva, chefe do corpo clínico do IOT. Segundo ele, no início da pandemia, de março a julho, houve uma diminuição na circulação de carros, e muitos entregadores passaram a adotar o comportamento arriscado de não respeitar sinal vermelho, mão e contramão, o que persiste até hoje. "Isso pode estar contribuindo para esse aumento, de novo, de casos graves." O médico Alysson Coimbra, coordenador da Mobilização Nacional dos Médicos e Especialistas em Medicina do Trânsito, faz a mesma avaliação. Ele diz a que pandemia começou com um aumento de acidentes com motociclistas de aplicativos. Em São Paulo, por exemplo, em maio houve alta de 38% de mortes de motociclistas. No final do ano, com as famílias circulando e aglomerando mais, ele observou aumento de acidentes de carro, mas ainda com o protagonismo das motos. Entre novembro e janeiro, também chamou atenção três grandes acidentes envolvendo ônibus, com ao menos 80 mortos e dezenas de feridos Dados da Fhemig (Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais) mostram o impacto dos acidentes de trânsito na rede hospitalar ao longo da pandemia. Em abril de 2020, foram registrados 399 atendimentos no Hospital João XXIII, em Belo Horizonte. Em novembro, o número saltou para 698, uma alta de 74,9%. Para Coimbra, que também é diretor da Associação Mineira de Medicina do Tráfego, o aumento de acidentados durante esses novo pico de casos de Covid-19 poderá trazer graves reflexos aos pacientes graves que necessitam de suporte ventilatório. "Historicamente, 60% dos leitos e das unidades de pronto-atendimento são ocupados por vítimas de acidentes de trânsito. Muitos sobreviventes demandam cuidados hospitalares prolongados, leito de UTI." Segundo o cirurgião Tércio de Campos, presidente da Sbait, a situação é "extremamente complicada". "Se as UTIs e os prontos-socorros estão lotados com paciente de Covid-19 em várias partes do país, seguramente faltará estrutura para o atendimento ao traumatizado", diz. Campos afirma que colegas dos principais hospitais do país relatam aumento desses atendimentos. "Nós temos reuniões virtuais semanais com cirurgiões do trauma de todas as regiões do país. E a realidade tem sido a mesma, aumento de casos em patamares semelhantes aos de antes da pandemia." A médica Mirella Oliveira, diretora clínica das UTIs do Centro Hospitalar de Trabalhador, em Curitiba (PR), referência de atendimento ao trauma na cidade, conta que desde setembro o movimento começou a aumentar muito depois de um período com menos demanda, iniciado após a pandemia. "A demanda explodiu e continua explodindo até hoje." Em alguns momentos críticos, com a ocupação total dos 30 leitos a UTI de trauma, alguns doentes precisaram ser transferidos para a UTI de Covid ou esperar no centro cirúrgico ou até no pronto-socorro. "Teve dias que tivemos dez pacientes com trauma esperando na sala vermelha [do PS] por falta de vaga." Segundo ela, tanto no centro onde atua quanto em outros hospitais que atendem trauma na cidade a situação de "vaga zero" tem sido constante. "O paciente é atendido no centro cirúrgico, faz o procedimento e fica esperando ali ou na sala vermelha do pronto-atendimento até que surja uma vaga na UTI para ele. É feito um revezamento entre os hospitais." A médica diz que o auge das demandas de trauma ocorre nos meses de verão, o que aumenta ainda mais o temor neste momento da pandemia. No país, as quedas, especialmente de idosos, lideram as internações por traumas, seguidas por acidentes de trânsito.