Cassinos de Las Vegas se transformam em bancos de alimentos por pandemia

Por Andrew MARSZAL
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Várias pessoas esperam no carro para receber comida no estacionamento do hotel Palace Station, em 7 de maio de 2020, em Las Vegas

Quando Michelle Manning parou, junto com a irmã, na frente de um cassino em Las Vegas, ela se sentiu com sorte. E não era para jogar pôquer, roleta, ou dados, já que todos os estabelecimentos de apostas estão fechados por causa do coronavírus.

Michelle e a irmã conseguiram um bom lugar na fila de um banco de alimentos instalado no estacionamento do Palace Station, muito procurado nestes tempos de crise.

O relógio marcava 2h30 da madrugada, e Michelle era a terceira em uma fila de carros que, toda a semana, estende-e por pelo menos dez quilômetros.

"Recebemos frutas, verduras, carne, leite... E, com o dinheiro que eu tenho, consegui, então, pagar a conta de luz", comemorou Michelle, que teve seus dois filhos demitidos dos gigantescos cassinos e, em casa, tem de alimentar o pai, de 92 anos, e a neta ainda bebê.

"E isso é mais seguro do que ir ao mercado", acrescentou, porque não precisa sair do carro para pegar os alimentos e é possível manter o distanciamento social.

Com o porta-malas aberto, a fila de cerca de mil veículos ia andando para receber os alimentos distribuídos pela ONG Three Square, que se abastece de programas do governo federal, assim como de doadores e comércio locais.

O banco do Palace Station é um dos 20 centros administrados pela organização em Las Vegas, onde os mundialmente conhecidos cassinos-hotéis foram obrigados a fechar em março passado para conter a COVID-19.

Three Square distribuiu, inclusive, toda comida que sobrou nas cozinhas desses estabelecimentos, contou o diretor de operações da ONG, Larry Scott.

- "Nunca vi nada como isso" -

Muitos dos que agora esperam na fila são ex-funcionários do cassino, demitidos durante o confinamento.

Cerca de um terço da força de trabalho do sul de Nevada está no setor de turismo, o qual foi especialmente atingido pelas ordens de confinamento e de restrições de viagens. Na sequência, vieram as demissões em massa.

Apenas o grupo MGM Resorts cortou 63.000 vagas de trabalho.

Tom Schiffhauer, um crupiê de pôquer de 62 anos do cassino Orleans, foi demitido com a chegada da pandemia, assim com sua esposa, que trabalhava no Hotel Rio.

"Estou aqui há 40 anos e nunca vi nada como isso... É estranho, estranho", disse ele, após quatro horas de espera.

Alguns dos maiores hotéis da cidade estão planejando sua reabertura no final do mês, embora ainda precisem da aprovação do governo estadual.

Alguns carros atrás, estava Sandra Flores, que antes da pandemia trabalhava na limpeza do Hotel Stateline, em Primm, a cerca de 40 minutos de Las Vegas.

"Precisamos voltar a trabalhar. Precisamos pagar as contas", disse ela, "surpresa" que o confinamento tenha durado tanto e que, assim como muitos outros, esteja há dois meses esperando a aprovação de seu pedido de seguro-desemprego.

O impacto do fechamento dos cassinos se nota, inclusive, no grande número de voluntários que ajudam neste centro de distribuição de alimentos.

E, embora o cassino Palace Station esteja localizado em um bairro de classe trabalhadora, em sua maioria, a fila de automóveis acomoda desde velhos sedãs até Hummers e Mercedes.

"Esta experiência é diferente de todas as anteriores, porque este vírus não mede classe econômica", disse Scott, o chefe de operações, destacando que o número de pessoas que hoje não conseguem garantir sua alimentação no sul de Nevada representa 14% da população.

"E não é apenas por hoje. Vai continuar e continuar. A demanda será alta durante muito tempo", completa ele.