Castigo ou acidente? Dois anos após mortes de soldados em quartel, famílias buscam respostas

Michelly com o filho Jonathan, que morreu em treinamento. Foto: Arquivo Pessoal

Era 24 de abril de 2017 quando Michelly Turella foi chamada por militares do exército na porta de casa. Enquanto descia as escadas, não imaginava que receberia a notícia de que seu filho Jonathan tinha morrido afogado em um treinamento no quartel de Barueri, em São Paulo. “Fui sentindo um aperto no peito, minha perna estava tremendo”, narra. Ao receber a notícia, Michelly chorou, gritou e chegou a desmaiar. Depois do episódio, ela afirma que toma calmantes e não vive mais, apenas sobrevive.

Remédios, saudades e depressão também são comuns na vida de Sandra da Costa Ferreira Lucena, mãe de Victor da Costa Ferreira, outra vítima. Ela chama de “irresponsabilidade” o episódio que vitimou os jovens. “Eu era uma pessoa normal, tinha saúde, era feliz e criava meus filhos. Hoje eu sou uma pessoa depressiva, que toma remédios pra não ficar na cama. O exército não entrou em contato nem pra saber se eu morri de tristeza. Eu não consigo me conformar até hoje”, diz.

Luciana da Hora dos Santos, tia de outra vítima, o soldado Wesley, afirma que ficou sabendo das mortes pela mídia enquanto ainda estava no trabalho, mas que só soube que uma das pessoas era o sobrinho quando chegou em casa. “Fui parar o hospital. Fiquei dopada”, diz a familiar que vê “frieza” dos militares ao lidarem com a morte dos meninos.

Dois anos depois, elas continuam sem respostas oficias sobre o ocorrido, mas dizem acreditar que o episódio que vitimou os meninos fez parte de um “castigo”. De acordo com elas, durante audiência do caso, teria sido dito que eles foram mandados para o lago para “esfriarem a cabeça”. O julgamento dos réus [os capitães Moisés Lopes da Silva Júnior e Luiz Henrique Machado Brites, o tenente Rodrigo de Oliveira Salatiel, o cabo Felipe de Oliveira Silva e o soldado Jorge Henrique Custódio Avanci] ainda não foi concluído.

De acordo com Tiago Miranda, advogado de Michelly, o processo está tramitando de forma “normal”, mas que tende a ser mais lento pela complexidade da demanda. “Infelizmente, a demora na responsabilização dos réus causa tristeza e aflição aos familiares, mas o trabalho que vem sendo desenvolvido, principalmente pela Promotoria Militar, é no sentido de condenação dos réus, e é nisso que acreditamos”, afirmou o advogado.

“Os réus respondem pelo crime de homicídio [artigo 205 do Código Penal Militar] e lesão corporal [artigo 209 do Código Penal Militar]. Os processos criminais estão tramitando perante a Justiça Militar da União. Os processos que tramitam perante a Justiça Civil são de origem indenizatória, ou seja, buscando a responsabilização, além de criminal, também civil do Estado”, explica.

“Até hoje eu não aceito a morte do meu filho. Ele era muito novo, não era doente, era perfeito, tinha tudo para viver a vida dele”, afirma Michelly que diz nunca ter sido procurada pelo exército para conversar sobre o que aconteceu naquele “maldito lago”. Luciana faz coro e afirma que os réus estão “zombando” das famílias. “Eles vão sair impune. Foi uma negligência muito grande e um fica jogando a culpa no outro”, diz.

Questionado pela reportagem sobre a possibilidade de os jovens terem sido vítimas de um possível “trote”, o Superior Tribunal Militar afirmou, por meio de nota, que “apenas a decisão do Juízo poderá definir ao final do devido processo legal”. Sobre o julgamento dos réus, foi informado que o processo está na fase das alegações finais.

“No entanto, devido a recursos das defesas e também do Ministéio Público Militar, a primeira instância da Justiça Militar da União, em São Paulo, está enviando ao Superior Tribunal Militar pedido de recurso em sentido estrito”, diz o posicionamento afirmando que parte dos réus deixou de ser militar e se tornou civil.

“As partes questionaram as condicionantes da nova Lei 13.774/2018, publicada em dezembro do ano passado, que fez consideráveis mudanças na Lei de Organização da Justiça Militar. A nova lei determina que os réus civis devam ser julgados pelo juiz federal da Justiça Militar Federal, de forma monocrática, sem a participação dos Conselhos de Justiça. Neste caso, antes da nova Lei, os réus seriam julgados por um Conselho Especial de Justiça”, afirma a resposta passada à reportagem.

“Mas uma parte dos réus deixaram de ser militares e se tornaram civis. Dessa forma, as defesas entraram com recurso para que o julgamento fosse mantido no Conselho de Justiça e outros réus entraram com o recurso para que o caso seja apreciado pelo Juiz Federal da Justiça Militar, de forma monocrática. A decisão deve ficar por conta do Plenário do Superior Tribunal Militar, em data ainda não prevista”, finaliza.

Orações e pressentimentos

As familiares dos meninos dizem que eles não sabiam nadar e tinham medo do que poderia acontecer durante os treinamentos. “Eu orei muito a Deus para que ele entrasse no exército”, conta a mãe de Jonathan. Porém, isso não evitou que o filho desabafasse com ela uma semana antes de partir. Deitado em seu colo e olhando em seus olhos ele disse que, se fosse para o treinamento, iria morrer. “Eu dei um tapa na careca dele e falei para parar com essa brincadeira sem graça”, diz. Mas ele insistia: “Mãe, eu tô falando sério. Se eu for pra essa selva, eu vou morrer”.

Um dia antes de morrer, o sentimento dele era compartilhado por outro colega. A reportagem teve acesso ao conteúdo de mensagens entre eles. Nelas, o filho pede para que os amigos mandem um “salve” para a mãe e um deles diz: “Dona Michelly, pode ficar tranquila que a gente vai cuidar do Turella. Tá todo mundo junto e a gente não vai morrer, não”. Em resposta, ela diz: “Claro que ninguém vai morrer, pelo amor de Deus”.

Wesley e Victor também tinham medo. A reportagem teve acesso a uma troca de mensagens entre a tia e Wesley antes das mortes, no texto, ele dizia: “Vou para a selva e pode ser que não sobreviva lá. Talvez vá para não voltar. Mas saiba que fui honrando a bandeira nacional”. Na conversa, ele diz também que tinha sido solicitado um telefone de familiares, que seriam avisados caso um “guerreiro” morresse. Por fim, ele pede para que a tia mantenha contato com a namorada dele e diz: “te amo”.

Luciana e o sobrinho Wesley, que mandou mensagem com medo de morrer. Foto: Arquivo Pessoal

Sandra diz que superiores “abusavam na forma que iam castigar os recrutas”. Victor, por exemplo, reclamava para a mãe que batiam nele. Segundo ela, as agressões eram variadas: socos na boca do estômago, fazer exercícios com febre alta e até ficar sem dormir. “Meu filho tinha medo de acontecer algo com ele nesse treinamento em Barueri, mas tinha que obedecer às ordens”. Segundo ela, uma semana antes das mortes, o filho estava tenso. “Ele comentou com a namorada dele que, se acontecesse algo, era pra ela seguir a vida normalmente”.

Honras militares

De acordo com Michelly, o filho foi enterrado com honras militares. Depois disso, nada mais. “Eu fui no quartel e peguei todas as coisas dele e vi que meu mundo tinha acabado ali”, afirma. Sandra diz que a angústia ainda é presente em sua vida. “Tem dois anos e eles não entraram em contato comigo pra dar uma satisfação. O exército brasileiro se calou”, afirma lembrando que o filho era muito obediente e que nunca iria recusar uma ordem.

Segundo as mulheres, o exército ofereceu tratamento psicológico que foi recusado por Michelly e Luciana. A primeira diz que o atendimento feito dentro do hospital militar só fazia com que ela lembrasse cada vez mais do filho. A segunda não quis, pois, segundo ela, o problema seria tratado “da maneira deles”. Sandra aceitou o tratamento e era buscada em casa por uma viatura, mas afirma que só teve transporte oferecido nos primeiros seis meses após as mortes.

Sobre a assistência prestada aos familiares, o Comando Militar do Sudeste afirmou que “o 21º Depósito de Suprimento apoiou as demandas administrativas e de transporte das famílias, o Hospital Militar de Área de São Paulo prestou apoio com uma equipe multidisciplinar com a assistência médica e psicológica aos familiares e a Seção de Apoio ao Pessoal da 2ª Região Militar forneceu apoio assistencial, de funeral e religioso, buscando aliviar o sofrimento das famílias”.

De acordo com o Comando, a Seção “atuou prontamente nas 48 horas iniciais e continuou assistindo as famílias enlutadas por cerca de um ano após o funeral, aproximadamente, até a redução das demandas dos familiares das vítimas”. Além disso, é dito que houve “promoção post mortem dos soldados à graduação de terceiro-sargento, após solicitação dos familiares, e pagamento das respectivas pensões vitalícias os beneficiários dos soldados mortos no acidente”.

Sandra, mãe de Victor, chama de “irresponsabilidade” o episódio que vitimou os jovens. Foto: Arquivo Pessoal

Angústias

Michelly e Sandra dizem que também não conseguem fazer uma visita ao túmulo dos filhos no Cemitério da Cachoeirinha sem passar por situações difíceis. Segundo elas, o local está totalmente abandonado, com lixo, mato alto e desorganização. O ambiente, de acordo com as mães, se torna propício para usuários de drogas. No último Natal, elas foram até o local e ficaram indignadas com a situação. Michelly afirma que, inclusive, encontrou uma mulher e dois homens fazendo sexo no local.

A Prefeitura foi procurada pela reportagem e disse que a manutenção no cemitério é feita de forma “recorrente e continua”. Além disso, o Serviço Funerário do Município afirmou que “a Guarda Civil Matropolitana realiza o policiamento preventivo diariamente nos 22 cemitérios municipais por meio de rondas para coibir atividades ilicítas” e que “em casos de flagrante, os infratores são encaminhados à delegacia da região”.

Sobre a elucidação do que aconteceu no dia da morte dos meninos, o Comando afirmou que as famílias foram procuradas em suas casas para que a notícia fosse dada e que ficou caracterizado na situação que “havia indícios de crime militar”. Assim, foi aberto o inquérito para apurar os fatos, mas que ele não tem caráter conclusivo. De acordo com o posicionamento, cabe à Justiça Militar da União “prestar as informações sobre sua tramitação”.

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