Castor de Andrade, tema da série 'Doutor Castor', fez história como patrono do Bangu

Rafael Oliveira
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Pouco antes da entrevista ser encerrada, Mauro Galvão provocou: “O que representa a relação do (Roman) Abramovich com o Chelsea? Não é a mesma coisa?”. O questionamento do ex-zagueiro, que atuou no Bangu entre 1986 e 1987, surpreende quando o assunto é a forma como Castor de Andrade usou o futebol para melhorar sua imagem. Tema do documentário “Doutor Castor”, disponível no Globoplay (cujo primeiro episódio vai ao ar no SporTV hoje, às 21h), o bicheiro fez história como patrono do time alvirrubro nos anos 1960 e 1980. Mais de três décadas depois, ainda há muito romantismo na visão sobre ele. Mas o próprio esporte mostra que este tipo de apropriação não ficou no passado.

A saída do bicheiro não representou o fim da utilização do futebol como ferramenta de aceitação social. Pelo contrário. É usado por bilionários, empresas e até governos. É o caso de Abramovich, citado por Mauro Galvão. Envolvido em denúncias de sonegação e de suborno de autoridades, o magnata russo comprou o Chelsea em 2003. O investimento pesado logo se converteu em conquistas: já foram cinco títulos de Premier League, uma Liga Europa e uma Liga dos Campeões.

— O xeique comprar o Paris Saint-Germain é igual ao Castor com o Bangu — compara Carlos Molinari, pesquisador do clube do subúrbio.

A aquisição do clube francês leva o debate para a esfera da geopolítica. O PSG foi comprado em 2011 por um fundo de investimentos vinculado ao governo do Qatar. O país, que receberá a Copa de 2022, é acusado de usar o esporte para promover uma imagem de liberdade que mascara episódios de violação aos direitos das mulheres e da população LGBTQI.

Nos casos que envolvem nações, esta prática é conhecida pelo nome de “sportswashing”. Outro exemplo envolve o City Group, que controla uma série de clubes pelo mundo (entre eles o Manchester City) e pertence aos Emirados Árabes. O governo do país é acusado de perseguir, torturar e matar opositores.

— Para quem está envolvido com negócios escusos, é uma maneira de limpar a imagem, ser visto como benevolente. Para os bicheiros é muito importante ser visto como um benfeitor pela comunidade. A mesma coisa vale para o Qatar através de suas relações com o PSG. Há todo um esforço para se mostrar como uma força importante do futebol, tocando um projeto moderno e eficiente. Não é uma decisão pura e simples de negócio — analisa o cientista político Maurício Santoro, professor de Relações Internacionais da Uerj.

Sem a mesma fortuna de governos ou magnatas do petróleo, Castor de Andrade não fez o Bangu vencedor como o PSG e o Manchester City. Mas seu feito não foi pequeno: tornou o clube uma das principais forças do futebol carioca. Entre 1963 e 1968, a equipe conquistou o Carioca uma vez (1966), foi vice-campeã em três ocasiões e ainda obteve um terceiro e um quarto lugares.

Já entre 1983 e 1987, o alvirrubro foi vice carioca uma vez, terminou em terceiro em outras duas ocasiões e ainda obteve uma quarta e uma quinta colocações. Mas o ápice deste período foi o segundo lugar no Brasileiro de 1985.

Uma marca da era Castor foi a bonança financeira. Assim como não economizava nas contratações de grandes jogadores, o bicheiro também não se incomodava de dar presentes e pagar premiações voluptuosas.

— Não só os bichos de jogos eram generosos como ele também pagava prêmios nos treinamentos. Praticamente comprava as pessoas — recorda o ex-atacante Dé Aranha, revelado no Bangu. — Eu com 18 anos ganhei meu primeiro carrinho. O Castor que me deu.

Tanta generosidade tinha um preço. Muitas vezes, era Castor quem escalava o time. Ao treinador, cabia acatar. E para garantir o resultado positivo, tentava subornar ou coagir a arbitragem.

—Existem passagens da vida dele que parecem ficção. Mas ele existiu. É tudo verdade. Personificava o bem e o mal. E fazia questão de construir essa imagem. Ele se equilibrava entre estes dois mundos. Gostava de ser temido e generoso — comenta Rodrigo Araújo, roteirista do documentário.

A relação entre futebol e os bicheiros não nasceu com Castor. Tampouco terminou com ele. No final dos anos 1980 , Emil Pinheiro ocupou a presidência do Botafogo. Foi durante sua gestão que o clube foi bicampeão carioca em 1989/90 e deu fim ao jejum de 21 anos sem títulos. Ao contrário do Bangu, que apesar de todo o investimento e pressão sobre a arbitragem, só bateu na trave.

— O futebol tem suas leis próprias. O clube dos campeões é elitista. E é difícil entrar de sócio neste grupo. Nem o dinheiro garante esse ingresso. O Emil teve sucesso no Botafogo pois o clube tinha mais tradição e torcida. O Bangu era só o Castor — concluiu Rodrigo Araújo.

De lá para cá, o mercado do futebol se sofisticou e encareceu. Diante de cifras tão altas e dos poucos resultados, os bicheiros saíram de cena. Focaram seus investimentos no carnaval.

— A cota de TV passou a fazer muita diferença. E ainda tem venda de camisas e patrocínio. Criou-se um abismo financeiro entre os clubes grandes e os demais que nem o jogo do bicho consegue mais resolver — explica Carlos Molinari.

No ano passado, o reposicionamento do símbolo do castor (o animal) para a barra inferior da camisa do time (sempre ocupara o peito) gerou uma onda de reclamações na torcida. Afinal, a memória que ele deixa não é a do contraventor, mas a do último cartola que fez o clube brigar por títulos.

— Neste filme não tem mocinho e nem bandido — sintetiza Mauro Galvão.