Castro reconduz Luciano Mattos, segundo lugar na lista tríplice, para o cargo de procurador-geral de Justiça

O procurador-geral de Justiça, o promotor Luciano Mattos, foi reconduzido ao cargo de chefe do Ministério Público do Rio (MPRJ). O governador Cláudio Castro escolheu o segundo lugar da lista tríplice para o cargo de procurador-geral de Justiça para o biênio 2023/2024, rompendo uma tradição na instituição de optar pelo mais votado, um pedido da categoria. A recondução foi publicada no Diário Oficial do Estado desta sexta-feira e terá início no dia 18. O último caso que se tem notícia de um governador ter escolhido o candidato da segunda posição foi em 2003, quando a governadora Rosinha Garotinho nomeou o procurador Antonio Vicente da Costa Júnior.

Conheça os bastidores: Disputa acirrada pela chefia do MP do Rio tem pressão política e acusações

Casos de repercussão: 'Rachadinha' e caso Marielle são desafios para procurador-geral de Justiça

Niteroiense, Mattos, de 53 anos, obteve 437 votos (41,69%). Ele ingressou no Ministério Público do Rio (MPRJ) em 1992, como auxiliar administrativo. Três anos depois, passou no concurso público para promotor de Justiça. Também foi presidente da Associação do Ministério Público do Estado do Rio (Amperj) por três mandatos. Antes de ser eleito no fim de 2020 para o cargo de procurador-geral de Justiça, ele estava lotado na promotoria de Justiça de Tutela Coletiva de Defesa do Meio Ambiente do Núcleo Niterói.

Em dezembro, Castro dissera que tinha a prerrogativa de escolher qualquer um dos três mais votados, independente de quem ficou na primeira posição. A lei dá ao governador o poder de escolher livremente um dos nomes da lista tríplice. Com a declaração, ele deixou em dúvida se elegeria o candidato com mais votos, o que acabou acontecendo.

— Só no Rio há essa cultura pela escolha do mais votado. Não vejo isso em outros estados — comentara o governador, durante encontro com repórteres.

Parceria com secretarias e fundações: Nos moldes do Ceperj, Uerj tem explosão de gastos em contratações sem transparência

Desde a divulgação do resultado das eleições do MPRJ, em 12 de dezembro, o governador chegou a atender ligações de pessoas influentes no âmbito político do Rio e do Judiciário de Brasília, com pedidos para a nomeação do segundo da lista — no caso, o atual chefe do Ministério Público. Ao tomarem conhecimento da situação, entidades de classe como a Associação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (Amperj) e a Associação Nacional dos Membros do Ministério Público (Conamp) mandaram ofícios ao governador com outro pedido: que Castro siga a tradição da instituição e escolha o mais votado. A lei dá a ele poder de decisão, não importa se sua opção for pelo mais votado ou não.

O governador recebeu a lista tríplice das mãos do procurador de Justiça e ex-chefe do MPRJ em quatro gestões (quatro biênios) Marfan Martins Vieira, responsável pelas questões políticas referentes à instituição, no Palácio Guanabara, no último dia 2. Ele tinha 15 dias para tornar pública a sua decisão, o prazo final é no dia 17. No entanto, Castro fará uma viagem para o exterior e preferiu bater o martelo ainda esta semana.

Escândalo do Ceperj: Fundação previu em contrato pagar funcionários na 'boca do caixa'

Apesar de Mattos afirmar, em duas cartas abertas à classe, que referendaria a decisão da categoria e apoiaria o candidato mais votado, ele passou a frequentar algumas solenidades onde Castro confirmou sua presença, como a posse dos conselheiros do Tribunal de Contas do Estado (TCE), na semana passada. O governador comentou com pessoas de seu círculo próximo que se sentia assediado pelo candidato, pois Mattos estaria frequentando, o que não era comum, as mesmas agendas de Castro. A assessoria do procurador-geral informou que ele foi aos eventos com o governador para cumprir agenda oficial e negou que tenha assediado Castro ou políticos para que trabalhassem em sua candidatura.

Eleições: Fundação pagou R$ 5,6 milhões a ex-funcionários que atuaram em campanhas eleitorais

Pandemia e ADPF das favelas durante mandato

Num balanço da gestão, Luciano Mattos ressaltou ao GLOBO, numa entrevista em dezembro, que enfrentou problemas que os antecessores não tiveram, como a pandemia e a Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, conhecida como a ADPF das Favelas, que criou restrições a operações policiais em comunidades para reduzir a letalidade. A ordem foi dada 2020 pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin. Cabe às polícias justificarem ao MPRJ a “excepcionalidade” para a realização de uma operação.

Em 6 de maio de 2021, que 28 pessoas morreram numa operação da Polícia Civil, no Jacarezinho, que ficou conhecida como a mais letal no estado. O MPRJ criou uma força-tarefa para investigar as mortes.

— A área de segurança pública continua a ser um dos maiores desafios e a nossa prioridade. Criamos uma Coordenação Geral de Segurança Pública, buscando a interface com todas as áreas do MPRJ. Tivemos uma força-tarefa que atuou na ocupação irregular do solo. A grilagem de terras é a principal fonte de lucro das milícias — disse ele na entrevista ao GLOBO de dezembro.

Outro desafio é aprimorar o sistema processual do MPRJ:

— Queremos um MPRJ mais eficiente. Estamos desenvolvendo um sistema interno que facilite o trabalho perante o Tribunal de Justiça do Estado. Ficará pronto no início de 2023.

Ao todo, 1.048 promotores e procuradores votaram. Leila Machado recebeu 485 votos (46,27%). A outra promotora da lista tríplice foi Somaine Cerruti, que ficou em terceiro lugar, obtendo 126 votos (12,02%). Castro tinha até o dia 17 de janeiro para escolher, mas preferiu divulgar antes porque fará uma viagem nesta sexta-feira para o exterior.