Um após catástrofe, Brumadinho segue paralisada

Por Florence GOISNARD
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Vista aérea do desastre de Brumadinho, Minas Gerais, Brasil, el 25 de janeiro de 2019

"Vale #Assassinos". A mensagem pichada em preto anuncia a entrada de Brumadinho, pequena cidade de Minas Gerais que, com sua região, está parada desde a trágica ruptura da barragem do grupo de mineração Vale há um ano.

Um grande cartaz foi amarrado entre duas árvores com os retratos de várias pessoas mortas no dia em que a barragem de rejeitos perto da cidade colapsou, em 25 de janeiro de 2019.

Pertencia à Vale, que foi considerada responsável pelo desastre. Um total de 270 mortos, e toda uma região transformada para sempre, apesar das indenizações de quase dois bilhões de reais que a mineradora começou a pagar.

"Brumadinho é pequena, todo mundo perdeu alguém. Fui a 30 ou 40 enterros", conta Natalia de Oliveira, que perdeu a irmã e muitos amigos.

"As pessoas se encontram no supermercado ou na rua e dizem para si mesmas: 'Meu Deus, há tantas pessoas que morreram, tantas crianças que perderam um pai ou uma mãe'".

Além do sofrimento do luto, Brumadinho e, especialmente, sua periferia rural, enfrentam o estigma ambiental do desastre, com a poluição da mineração: casas abandonadas, populações realojadas, pescadores e agricultores proibidos de praticar suas atividades.

Antes que 12 milhões de metros cúbicos de lama cobrisse a zona, o Parque da Cachoeira era um bairro bucólico, com um rio abaixo. Agora, as casas abandonadas têm vista para uma paisagem devastada.

Sob a lama, nada menos que 20 corpos foram encontrados no fundo do jardim da casa de Pedro Rocha. Este segurança de 54 anos veio ao Parque da Cachoeira para dar uma olhada em sua casa, completamente vazia desde que foi realojado com sua família no centro de Brumadinho.

Alguns de seus amigos estão mortos. "Graças a Deus não perdemos nenhum membro da nossa família, mas perdemos todo o resto", conta, enquanto caminha pela casa para verificar sua condição.

"Eles (Vale) nos mudaram para a cidade e pagam nosso aluguel. Mas gostávamos de morar aqui, o rio no fundo do jardim era uma boa fonte de água para a agricultura".

- Região paralisada -

A água do rio Paraopeba, contaminada pelo fluxo de resíduos tóxicos, permitia irrigar as plantações de todos os moradores. Acima de tudo, muitos dependiam do rio para sobreviver, como pescadores e agricultores.

Com a poluição, a fonte de renda secou e toda a região da barragem parece ter parado.

Em seu trator, Adelson Silva de Oliveira atravessa seu terreno, esmagando em seu caminho as ervas daninhas de dois metros de altura que invadiram seus campos junto ao rio. Ele não planta nada há um ano.

"Semeávamos alface, repolho e milho aqui. Mas agora não há nada que possamos fazer com a água do rio e, de qualquer maneira, quem compraria produtos que cresceram com essa água? Ninguém!", diz.

Adelson, como cada um dos 106.000 habitantes que vivem em um raio de um quilômetro ao redor do rio, recebe "ajuda de emergência" da Vale todos os meses: 1.000 reais até o momento, 500 reais a partir do próximo mês.

- "Ninguém mais vem" -

O prejuízo financeiro é significativo para alguns que ganhavam mais trabalhando. Mas o pior foi ter que interromper a atividade, explicam dois pescadores ociosos na margem do Paraopeba.

Seus barcos ficam atracados na margem a maior parte do tempo, uma vez que a pesca ainda é proibida.

"Eu pescava todos os dias, era o nosso ganha-pão", conta Wenis Alves Rodrigues, de 29 anos. "Ainda há muito peixe, mas com essa água poluída, eles nos dizem para não pescar ou comer o peixe daqui".

Ele ainda usa o barco alguns minutos por dia para coletar amostras dessa água marrom, que ele entrega a um laboratório de análises que trabalha para a Vale.

"Antes, todos os pescadores se juntavam aqui para fazer churrasco depois da pesca, agora ninguém vem", disse ele, apontando para a margem deserta.

Aqui, o solo está enegrecido, prova da presença de resíduos de mineração espalhados pela ruptura da barragem e agora misturados com a terra.

Quanto ao grupo Vale, que perdeu um quarto de sua capitalização de mercado após o desastre, já liquidou todas as suas perdas um ano depois.

Mas nesta terça (21), o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) denunciou por homicídio doloso o ex-presidente da empresa, Fabio Scvartsman, e outros 15 funcionários e ex-funcionários da mineradora e da alemã TÜV SÜD, que emitia seus certificados de segurança.