Cavaquinista que já tocou com Pixinguinha, Mestre Siqueira faz vaquinha para gravar disco: ‘O país precisa dar valor à sua arte’

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Nunca é tarde para concretizar um novo projeto, realizar mais um sonho... Mas no Brasil, isso anda mais difícil do que nunca. Mesmo para gente com um currículo inquestionável, como é o caso do músico José de Alcântara Siqueira, o famoso Mestre Siqueira. Aos 84 anos, o cavaquinista coleciona experiências importantes tocando com ninguém menos que Pixinguinha, além de Cartola, Beth Carvalho, Alcione... Com mais de 450 composições próprias, o artista que nasceu no Recife, mas se mudou para o Rio na adolescência e vive atualmente no bairro de Maria da Graça, na Zona Norte, agora deseja lançar mais um álbum: “Quero compartilhar um pouco do que aprendi, como se fosse uma prestação de contas da minha vida, minha contribuição com a arte’’, resume ele.

Para isso, no entanto, Mestre Siqueira conta com a realização de um financiamento coletivo que segue até o próximo domingo, dia 14 de novembro, com o objetivo de arrecadar R$ 19 mil: “É muito difícil a vida do artista no nosso país’’, pontua ele, sem se abater e já fazendo planos de tocar com amigos e até com seus netos e netas num futuro bem próximo.

Para contribuir com qualquer valor, basta acessar: www.benfeitoria.com/mestresiqueira

Abaixo, o cavaquinista fala um pouco da importância da música em sua vida:

O senhor gravou seu primeiro CD aos 75 anos e tinha mais de 450 composições na época. O que podemos esperar desse próximo trabalho?

Todos nós músicos, seres humanos, temos nossas características, a gente tem a nossa identidade. Acho que isso está presente em todas essas músicas de que eu gosto muito. Tanto gosto, que fiz. Neste próximo trabalho, quero compartilhar um pouco do que aprendi, como se fosse uma prestação de contas da minha vida, minha contribuição com a arte, com a música.

Como pretende fazer a seleção entre tantas músicas?

Tenho músicas de todos os tipos: samba, baião, choro, polca, jongo e por aí vai. Neste novo trabalho, vamos manter essa identidade. Vão ter canções instrumentais e também artistas convidados interpretando alguns sambas. Depende do êxito do financiamento coletivo, mas nossa ideia é selecionar inéditas e gravar dois EPs que irão formar um disco chamado “Sonhos’’.

Pode antecipar os nomes de alguns convidados?

Vamos contar com a participações de amigos e amigas de quem gosto muito e que fazem parte dessa minha vida. Somos uma equipe: eu, Pedro Cantalice, Wellington Monteiro e Camilo Árabe. Vamos organizar para que amigos como Paulão 7 Cordas, Wanderson Martins e Alceu Maia participem e façam arranjos. E ainda vamos contar com participações de muitos músicos de várias gerações, artistas por quem tenho muita admiração.

O senhor é funcionário público aposentado e, numa entrevista, disse que nunca acreditou na música como opção de vida no nosso país. Como vê a realidade do Brasil hoje para a classe artística em geral, inclusive nesse período de pandemia?

Eu venho de um outro tempo, sabe? Não dava para pensar em viver apenas de música. Mas sobre agora, vejo cada vez mais uma situação difícil. Parece que todo mundo está correndo atrás de uma mesma coisa que ninguém sabe o que é. Falta incentivo por parte do poder público. O país precisa dar valor à sua arte, só assim vamos sair dessa.

Em um país minimamente decente, acha que um músico com o seu currículo e do seu gabarito precisaria recorrer a uma vaquinha para gravar um CD?

Olha, eu sei que é muito difícil a vida do artista no nosso país. Mas prefiro ver que são muitas as pessoas queridas, amigos especiais que gostam e acreditam na minha música, e que vão participar do nosso financiamento coletivo.

O senhor já tocou com grandes músicos brasileiros, mas diz que sempre enxergou todo mundo da mesma forma. Pixinguinha, no entanto, o senhor chama de São Pixinguinha. Quais as melhores lembranças que guarda dessa parceria?

A coisa que mais me deixa fascinado é que todo o tempo em que fiquei com ele, como amigo, nunca o vi destratando ninguém. Pelo contrário! Para Pixinguinha, só existiam pessoas boas. Lembro que fomos tocar em um orfanato, no Lins de Vasconcellos, e ele sempre de paletó, naquele estilo. Então apareceu um rapaz e disse: “Pixinguinha, meu sonho era tocar com você!’’. Ele responde: “E não vai tocar por quê?’’. O sujeito, então, falou: “Eu só sei tocar em Dó maior’’. Nesse dia, tocamos a roda toda em Dó maior, e o garoto realizou o sonho dele. Esse é Pixinguinha! Nunca me esqueci desse episódio.

Filho de um pai bandolinista e de uma mãe pianista, como o senhor vê a importância de crianças terem acesso à música? Quais recordações guarda dessa influência que recebeu em casa?

Acho importante e fundamental para todos nós e para as crianças todas. Fico muito feliz em ter alguns netos e netas que seguem pela música. Mas no meu tempo era diferente. As crianças não podiam nem chegar perto quando os mais velhos estavam reunidos. Eu aprendi no sopapo. Meu pai era mecânico e motorista, além de bandolinista. Minha mãe tocava piano, mas se dedicava mesmo ao Candomblé. Nesse período, eu tocava tambor nas cerimônias, mas fazia isso porque sabia que aquilo deixava minha mãe feliz. Eu fui me encontrar religiosamente mesmo com o Budismo, há mais de 40 anos. Música eu aprendi mesmo ouvindo no rádio. E muitas vezes quando pegava o tom, a música já tinha acabado (risos).

Agora que aos poucos vamos saindo do isolamento social e que o senhor está se recuperando de uma internação (causada por um problema renal), quais os seus planos para o futuro?

Depois que a gente finalizar esse projeto dos EPs e do disco, quero registrar um encontro musical com meus netos e netas que têm talento para a música. Além disso, tenho muitas músicas e a inspiração, graças a Deus, nunca me faltou. É torcer para essa pandemia passar para poder tocar e me apresentar ao lado dos meus amigos e amigas.

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