Caxemira indiana tem confrontos antes de reunião do Conselho de Segurança da ONU

Por Jalees ANDRABI en Srinagar y Masroor GILANI en Islamabad
Manifestantes gritam palavras de ordem em manifestação contra a decisão do governo indiano de despojar Jammu e Caxemira de sua autonomia e impor um apagão nas comunicações, em Srinagar

Centenas de manifestantes enfrentaram a polícia, nesta sexta-feira (16), na Caxemira administrada pela Índia, pouco antes do início de uma reunião do Conselho de Segurança da ONU a portas fechadas sobre a situação deste território, que é reivindicado pelo Paquistão.

Os confrontos aconteceram depois que milhares de pessoas protestaram na cidade de Srinagar, após 12 dias de bloqueio das comunicações e de restrição dos deslocamentos neste território em disputa, do qual a Índia revogou a autonomia.

O primeiro-ministro paquistanês, Imran Khan, falou por telefone nesta sexta-feira com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, antes da reunião da ONU, a primeira em décadas sobre esta região montanhosa de maioria muçulmana, e pela qual Índia e Paquistão entraram em guerra duas vezes.

Imran Khan "expôs com detalhes o ponto de vista do Paquistão ao presidente Trump", e os dois dirigentes decidiram "que permaneceriam em contato constante", informou o ministro das Relações Exteriores, Shah Mehmood Qureshi, à imprensa.

Logo após o contato, a Casa Branca emitiu uma nota na qual Trump convida Índia e Paquistão, a dialogarem sobre a Caxemira.

"O presidente (Trump) lembrou a importância de que Índia e Paquistão reduzam as tensões por intermédio de um diálogo bilateral sobre a situação no (estado de) Jammu e Caxemira", indica o conteúdo do documento.

Na sede das Nações Unidas, o embaixador da Índia criticou a ingerência internacional sobre a questão da Caxemira, após Paquistão e China convocarem a reunião do Conselho de Segurança.

"Não necessitamos que intrusos internacionais tratem de nos dizer como cuidar de nossas vidas. Somos mais de um bilhão de pessoas", disse o embaixador Syed Akbaruddin a jornalistas na sede da ONU em Nova York após a reunião.

Sobre as restrições impostas por Nova Delhi, Akbaruddin afirmou que eram "razoáveis" e que estavam sendo amenizadas.

"A ordem pública é essencial para garantir que a democracia prospere", acrescentou, negando as acusações de que a Índia estava violando direitos humanos no antigo reino do Himalaia.

Nesta sexta, Nova Delhi insinuou que poderia reexaminar sua doutrina de não recorrer à arma nuclear, em um contexto de aguda tensão com Paquistão.

"A Índia aderiu estritamente a esta doutrina. O que vai acontecer no futuro depende das circunstâncias", advertiu o ministro indiano da Defensa, Rajnath Singh.

Na quarta-feira, Imran Khan afirmou que seu exército estava "pronto" para "oferecer uma resposta firme" às forças indianas se decidirem intervir na parte da Caxemira administrada pelo Paquistão.

- Apagão -

Um apagão das linhas de comunicação e fortes restrições à circulação foram impostos em 4 de agosto, um dia antes de Nova Délhi revogar a autonomia desta região.

Temendo manifestações em massa, uma força extra formada por cerca de 800 mil paramilitares foi enviada acompanhar a implementação da decisão surpresa do primeiro-ministro Nerendra Modi. Normalmente, meio milhão de soldados permanecem nesta região.

Para conter os protestos em Srinagar, a polícia indiana lançou gás lacrimogêneo e balas de borracha contra os manifestantes.

Os manifestantes caminharam pela avenida principal e atiraram pedras contra a polícia, que se protegia com escudos improvisados. Toda a ação era acompanhada por um drone, que sobrevoava a área.

"Estamos tentando interromper o assédio e marchar até o centro da cidade, mas a polícia está usando a força para nos deter", contou um manifestante à AFP.

Mais confrontos foram reportados em outras partes do vale da Caxemira, o principal foco de resistência ao governo indiano durante décadas.

"Não vamos parar até que consigamos uma independência completa da Índia", advertiu outro participante do protesto.

Jamad Masjid, a maior mesquita da região himalaia com capacidade para mais de 30 mil fiéis, permaneceu fechada nesta sexta, dia de oração para os muçulmanos, segundo informações locais.

- Flexibilização -

As grandes concentrações não eram permitidas no vale e a maioria das mesquitas estavam fechadas. O governo confirmou que houve confrontos após a oração muçulmana na sexta-feira passada.

"É preciso entender que as restrições e as flexibilizações dependem das áreas, não se pode generalizar", acrescentou Khan.

Numa transmissão pelo rádio, o governo exigiu aos trabalhadores que voltassem a trabalhar a partir desta sexta-feira, informou a agência de imprensa Press Trust of India (PTI).

Durante a jornada, o comércio permaneceu fechado, enquanto as aulas voltarão ao normal na próxima semana, segundo a PTI.

Apesar da ação do governo, vários protestos foram realizados, um deles chegou a reunir oito mil pessoas.

Segundo a imprensa indiana, as autoridades prenderam 500 pessoas, entre elas políticos da Caxemira, professores universitários, empresários e militantes. Um jornalista foi detido na noite de quarta-feira, informou o jornal Indian Express.