Cedae: mercado critica indefinição sobre venda da empresa; especialistas temem insegurança para investidores

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Estação de Guandu, da Cedae
Estação de Guandu, da Cedae

A declaração do governador em exercício Cláudio Castro que colocou em dúvida a operação de concessão da Cedae, na última quinta-feira , não foi bem recebida pelo mercado. Presidente da Associação das Concessionárias Privadas de Água e Esgoto (Abcon), Percy Soares diz que a fala — Castro disse que precisa avaliar se o negócio será vantajoso — não ajuda na solução dos graves problemas do saneamento.

— Se o objetivo é beneficiar a população, temos segurança de que o modelo colocado é o melhor. O Rio tem um enorme deficit, principalmente no tratamento de esgoto, que perdura há décadas — disse.

Soares destaca que o projeto que vem sendo elaborado pelo BNDES prevê a universalização da distribuição de água e da coleta de esgoto em até 20 anos.

Para Cláudio Frischtack, diretor da consultoria internacional de negócios Inter B., a postura de Castro pode aumentar a insegurança e afastar os investidores. Ele lembra que leilões de saneamento têm sido feitos com sucesso em outros estados do Brasil:

— Temos observado, após a aprovação do marco regulatório do saneamento, leilões excelentes sob qualquer perspectiva. Paralisar agora no Rio seria um tiro no pé.

Frischtack é um dos autores de um estudo que analisou companhias de saneamento no país entre 2014 e 2018. Nele, a Cedae aparece como uma das oito empresas que aumentaram os valores das tarifas ao mesmo tempo em que reduziram os investimentos.

Presidente do Instituto Trata Brasil, Edison Carlos também criticou essa mudança de rumo do governo. Ele diz que apenas 31% do esgoto do Rio são tratados, o que já gera reflexos até na qualidade da água potável.

— Alguma coisa tem que ser feita, e o que temos de mais próximo é esse projeto do BNDES. Uma declaração sobre a possibilidade de paralisar só atrapalha — pontua.

Um manifesto divulgado ontem também repudiou a possibilidade de suspensão da concessão. Assinado pelo ambientalista Mário Moscatelli, o oceanógrafo David Zee, a velejadora Isabel Swan e o ator Mateus Solano, entre outras pessoas, o documento critica a Cedae. “Todos aqueles que prezam por esse estado têm pressa, governador, e vislumbram novos tempos em que pagarão por serviços de qualidade, prestados por uma empresa que tenha obrigações concretas com a expansão das redes de água, coleta e tratamento dos esgotos”, diz um trecho.

Já o engenheiro Wagner Victer, ex-presidente da Cedae entre 2007 e 2015, diz que há inconsistências na proposta do BNDES e que não há garantias nem detalhamento dos investimentos previstos:

— A fala do governador é correta. A Cedae pode conceder só a coleta e o tratamento de esgoto em uma PPP, como foi feito na Zona Oeste do Rio, por exemplo.

Já o deputado Chicão Bulhões (Novo) criticou interesses que podem estar por trás de uma suspensão.

— A quem interessa manter as coisas como elas estão? À população, não é, porque ela paga por um serviço precário — disse.

Procurado, o governo do estado não se manifestou.