Celac aposta na integração e comemora volta do Brasil

Os presidentes da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) se comprometeram nesta terça-feira (24) com a integração regional, em meio às múltiplas crises que esta parte do mundo enfrenta, e comemoraram o retorno do Brasil ao fórum.

O encontro desse mecanismo, formado por 33 países, teve como grande protagonista o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que voltou ao cenário internacional, após vencer as eleições presidenciais.

"O Brasil está de volta à região e pronto para trabalhar com todos vocês, com um sentido muito forte de solidariedade e proximidade", disse nesta terça Lula, o único dos dirigentes, além do argentino Alberto Fernández, anfitrião da cúpula, cujo discurso foi divulgado em meio a um evento a portas fechadas e cercado de fortes medidas de segurança.

"O Brasil volta a olhar para seu futuro com a certeza de que estaremos associados aos nossos vizinhos bilateralmente no Mercosul, na Unasul e na Celac", acrescentou Lula, que impulsiona a volta do Brasil aos fóruns internacionais, nos quais teve uma presença forte em seus dois mandatos anteriores.

Em 2020, Bolsonaro, um crítico ferrenho da esquerda, suspendeu a participação do Brasil na Celac, alegando que dava protagonismo a regimes não democráticos, como os de Venezuela, Cuba e Nicarágua.

Lula aproveitou o evento para "agradecer a todos" pelo apoio ao Brasil e às instituições brasileiras depois do ataque de apoiadores radicais do ex-presidente Bolsonaro, que invadiram as sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro, em Brasília.

O anfitrião do encontro, Alberto Fernández, acusou, no discurso de abertura do fórum, o que chamou de "direita reacionária e fascista" de ameaçar a democracia na região, e referiu-se em particular aos episódios em Brasília e à tentativa de assassinato da vice-presidente argentina, Cristina Kirchner, no ano passado, cujas motivações ainda são desconhecidas.

- Ausências -

A reunião de cúpula contou com a presença de 14 chefes de Estado dos 33 países que compõem o fórum, com algumas ausências notáveis, como o presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, que se desculpou na terça-feira por ter "bastante" trabalho em seu país.

Outros desistiram na última hora, como Nicolás Maduro. O presidente venezuelano, que foi denunciado perante a Justiça argentina por organizações civis e particulares por violação dos direitos humanos em uma tentativa para que fosse interrogado se fosse ao país, anunciou na segunda-feira que não pisaria em solo argentino.

Maduro, que criticou em mensagem gravada enviada ao fórum o que chamou de "sanções criminosas" contra a Venezuela, em especial contra a sua indústria petroleira, tinha prevista uma reunião com Lula, que manteve na agenda o encontro de hoje com o cubano Miguel Díaz-Canel.

- Contexto de tensão regional -

Lula reforçou as "múltiplas crises" que o mundo vive, da pandemia às mudanças climáticas, as tensões geopolíticas, a insegurança alimentar ou as ameaças à democracia.

De fato, a cúpula da Celac ocorre em um contexto de múltiplas crises internas nos países latino-americanos, e inclusive de tensões entre vizinhos e parceiros.

O Peru atravessa uma profunda crise institucional, com uma sucessão de presidentes em poucos anos, a maioria depostos, o último deles o professor rural Pedro Castillo, destituído pelo Congresso após várias tentativas no dia em que anunciou que dissolveria o Legislativo, governaria por decreto e interviria na Justiça.

A tentativa de autogolpe não teve o apoio das forças de segurança e Castillo foi detido e agora está em prisão preventiva. Mas os protestos nas ruas do Peru contra o governo de sua sucessora constitucional, Dina Boluarte, não pararam e já deixaram 46 mortos até agora, sem sinais de uma solução.

Na Nicarágua, dezenas de opositores ao regime de Daniel Ortega - ausente da Celac - continuam presos e há 15 dias a Corte Interamericana de Direitos Humanos pediu "medidas urgentes" para a libertação de alguns, entre eles ex-candidatos à Presidência nas eleições de 2021, que foram presos.

A Argentina, por sua vez, atravessa uma crise inflacionária em pleno ano eleitoral e o governo do presidente Fernández multiplica medidas para tentar conter a alta dos preços, enquanto tenta cumprir as metas fiscais acordadas com o FMI, ao qual a Argentina deve 44 bilhões de dólares.

O Chile voltará a lançar o processo para tentar aprovar uma nova Constituição, após o fracasso de sua convenção constituinte, e na Colômbia, o governo acordou discutir a partir de fevereiro um cessar-fogo bilateral com o ELN, a última guerrilha do país.

Os presidentes chileno, Gabriel Boric, e colombiano, Gustavo Petro - que durante coletiva de imprensa considerou a Celac "o verdadeiro espaço de integração" da região - participaram da cúpula. O presidente chinês, Xi Jinping, enviou uma mensagem saudando o fortalecimento do fórum China-Celac de relacão bilateral.

O Mercosul, enquanto isso, vive uma crise profunda em meio à decisão de Montevidéu de negociar um TLC bilateral com a China e pedir o ingresso ao Acordo Transpacífico sem a anuência dos demais parceiros do bloco, uma decisão duramente questionada por Brasil, Argentina e Paraguai.

O presidente uruguaio, Luis Lacalle Pou, propôs à Celac criar uma zona de livre comércio na América Latina e no Caribe.

A cúpula foi encerrada com a "Declaração de Buenos Aires", que reivindicou o compromisso da Celac com a democracia, o respeito aos direitos humanos e o multilateralismo.

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