Cem dias após sumiço, polícia cria força-tarefa para caso de meninos da Baixada: 'Também merecem resposta', diz mãe

Flávio Trindade
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RIO - A reta final da investigação da morte de Henry reacendeu a esperança das mães dos meninos Fernando Henrique, de 11 anos, Alexandre, de 10, e Lucas Matheus, de 8, que desapareceram em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. O governo do estado anunciou ontem a criação de uma força-tarefa — composta por agentes do Departamento Geral de Polícia Especializada, da Divisão de Homicídios e da Subsecretaria de Inteligência — para acelerar a apuração do caso, que completou cem dias esta semana.

Uma das principais linhas de investigação aponta que traficantes do Complexo do Castelar estão por trás do desaparecimento das crianças. Por isso, a força-tarefa deverá realizar operações na região. Fontes da Polícia Civil informaram que as comunidades Roseiral e Dimas Filho, controladas pela maior facção criminosa do Rio, estão no radar das equipes encarregadas de buscar pistas e suspeitos.

O caso é investigado desde o fim de dezembro pela Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense, que foi alvo de críticas de parentes dos meninos. A especializada colheu gravações de câmeras de segurança e informou não ter encontrado imagens dos desaparecidos. No entanto, deixou passar uma cena na qual os meninos aparecem passando pela Rua Malopia, perto de onde moravam. Esse trecho de vídeo foi descoberto no mês passado por especialistas do Ministério Público do Estado do Rio. Desde então, as famílias não receberam informações sobre o andamento da apuração da Polícia Civil.

Mãe de Fernando Henrique, a dona de casa Tatiana Ribeiro disse ontem que mudou completamente sua vida: ela não consegue mais sair de perto dos outros dois filhos. Em meio à rotina de medo, recebeu com alívio a notícia da prisão do vereador Dr. Jairinho e da professora Monique Medeiros, padrasto e mãe de Henry:

— Fico aliviada ao ver que o caso está sendo solucionado. Agora, assim como o crime da Barra, quero que a polícia descubra o que aconteceu com os nossos meninos.

‘Três meses sem saber o que aconteceu’

Tatiana não poupa a Polícia Civil de críticas. Segunda ela, apesar de o governo do estado ter prometido apoio às famílias dos meninos, o tratamento que recebem dos responsáveis pela investigação é o pior possível:

— A polícia não dá notícias. Quando vou à delegacia, me fazem perguntas que não tem nada a ver com o caso. Eu me sinto humilhada. Isso abala o nosso psicológico. Hoje, não consigo sequer deixar meus outros filhos sozinhos no quintal, onde sempre brincaram.

Mãe de Alexandre, a dona de casa Rana Jessica da Silva, arruma todos os dias as roupas do filho, mantendo a esperança de seu retorno. Ela afirmou que é difícil se concentrar nas tarefas mais básicas. Fazendo coro às palavras de Tatiana, cobra uma maior dedicação da polícia.

— A minha tristeza é enorme. Dobro as roupas do Alexandre todos os dias, não deixo nada com aquele cheiro de coisa guardada há muito tempo. Faço um apelo para que nos ajudem, para que mostrem que a vida de crianças negras e pobres importam. São mais de três meses sem saber o que aconteceu.

A defensora pública Gislaine Kepe, que acompanha o caso, disse ontem ao “RJ TV 2”, da Rede Globo, que “a polícia pecou”, pois, segundo ela, demorou a começar a investigar o desaparecimento. E fez um pedido: um trabalho de capacitação junto a agentes que possam vir a atuar em inquéritos semelhantes.

A Polícia Civil não comentou as reclamações.