Cem dias da guerra na Ucrânia: Exército de Kiev perde posições, e vidas, contra Rússia no Leste

Embora a maior parte da atenção do mundo tenha sido a campanha desorganizada e falha da Rússia, a Ucrânia também enfrenta dificuldades. O Exército ucraniano sofreu pesadas perdas, mostra sinais de desordem e, passo a passo, recua e perde posições por muito tempo mantidas no Donbass, a região a Leste que agora é o epicentro do conflito.

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O impulso que a Ucrânia obteve depois de empurrar as forças russas para fora de Kiev, a capital, e de Kharkiv, a segunda maior cidade, deu lugar a semanas de tomadas de aldeias e bombardeios pesados no Leste, e um fluxo de ucranianos mortos e feridos nos campos de batalha. Na quarta-feira, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, reconheceu as pesadas perdas do lado ucraniano:

— A situação é muito difícil; estamos perdendo de 60 a 100 soldados por dia mortos em ação, e algo em torno de 500 soldados feridos em ação. Assim estamos mantendo nossos perímetros defensivos — disse, em entrevista ao canal americano Newsmax.

As tropas ucranianas enfrentam agora uma força russa que mudou a estratégia dos avanços precipitados e imprudentes das primeiras semanas da guerra para uma marcha rastejante e esmagadora, possibilitada por enormes bombardeios de artilharia.

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Tudo começa com um apito, disse Vladislav Goncharenko, um sargento do Exército ucraniano, descrevendo o implacável bombardeio russo.

— Você se deita em uma trincheira — disse, esperando em uma ambulância lotada com outros soldados feridos. — Há explosões muito altas. Você quer ir mais fundo no chão. E você tem estilhaços zumbindo acima de você, como moscas.

Soldados, ele disse, “só querem que isso acabe”.

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Na quarta-feira, as forças russas avançaram nos combates de rua nas ruínas da cidade de Severodonetsk, um dos principais alvos de sua ofensiva. Uma autoridade local disse que as forças russas controlavam cerca de 70% da cidade, onde apenas cerca de 12 mil moradores permanecem — de uma população pré-guerra de 100 mil — após semanas de intensos bombardeios.

Soldados ucranianos correm o risco de serem cercados. Com pontes sobre o rio Seversky Donets destruídas ou sob fogo, o reabastecimento se tornou fraco.

As autoridades ucranianas têm sido francas sobre as dificuldades do Exército, enquanto argumentam que entregas mais rápidas de armas ocidentais seria a chave para solucionar o problema.

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Em um discurso recente, Zelensky admitiu que a batalha pelo controle da região do Donbass vem sendo “muito difícil”, mas enfatizou que suas tropas tinham sucesso no Sul, perto de Kherson e ao redor de Zaporíjia, e em torno de Kharkiv, no Nordeste.

— A situação da linha de frente deve ser avaliada de forma abrangente — disse. — Não por uma área, onde há a situação mais difícil e que atrai mais atenção, mas por toda a linha de frente.

Para preencher lacunas na linha de frente, a Ucrânia recorreu ao envio de voluntários minimamente treinados da Força de Defesa Territorial, que se mobilizou rapidamente quando a guerra começou.

Indícios de lapsos de moral surgiram. Uma unidade gravou um vídeo protestando contra condições terríveis. Em entrevistas, soldados disseram que suas armas de artilharia às vezes ficam inutilizáveis por falta de munição.

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— As pessoas que disseram que a guerra terminaria muito em breve, que já vencemos, que celebraremos em abril, disseram uma coisa perigosa — disse o conselheiro de Segurança Nacional da Ucrânia, Oleksiy Danilov, à mídia ucraniana nesta semana.

Na confusão que é a luta nas planícies do Leste, as forças ucranianas são impulsionadas pela promessa de armamento ocidental chegando em breve.

Na terça-feira, o presidente Joe Biden anunciou planos para dar à Ucrânia sistemas de lançadores múltiplos de foguetes, uma poderosa arma de artilharia de longo alcance. Autoridades dos EUA e da Ucrânia disseram que os sistemas não têm a intenção de atingir alvos dentro da Rússia.

Na quarta, o chanceler da Alemanha, Olaf Scholz, prometeu enviar um sofisticado sistema de defesa aérea e um radar de rastreamento capaz de localizar artilharia russa. Scholz enfrentou críticas da Ucrânia e de alguns parlamentares alemães de que não fazia o suficiente para apoiar os militares ucranianos. Ele não anunciou um cronograma para as novas remessas.

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Com a chegada de novos sistemas de armas dentro de algumas semanas, na melhor das hipóteses, não está claro se desembarcarão na Ucrânia a tempo de repelir o lento avanço dos russos. Na semana passada, a Ucrânia foi forçada a deixar posições que havia defendido durante oito anos de guerra com separatistas apoiados pela Rússia perto da cidade de Svitlodarsk.

Durante a guerra, o estado dos militares ucranianos tem sido difícil de avaliar a partir de fontes disponíveis publicamente. Quando a guerra começou, os militares ucranianos tinham cerca de 30 mil soldados destacados na região do Donbass, mas nem o governo nem os militares forneceram um número atualizado.

O governo ucraniano reteve em grande parte os números de baixas, e os governos ocidentais não ofereceram suas próprias avaliações das dificuldades do Exército, como fizeram ao descrever os reveses russos. A última atualização de baixas ucranianas veio em 16 de abril, quando Zelensky disse que menos de 3 mil soldados haviam morrido, mas seus recentes comentários sobre vítimas sugerem que o número é muito maior.

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A Ucrânia também é prejudicada pela deterioração e esgotamento de sua artilharia de herança soviética, disse Mykhailo Zhirokhov, autor de um livro sobre artilharia ucraniana. Armas desgastadas disparam com menos precisão. Projéteis estão acabando. Substitutos ocidentais chegam, mas lentamente.

A moral dos combatentes voluntários também prova ser um desafio, pelo menos em algumas unidades. Muitos que se inscreveram na Força de Defesa Territorial da Ucrânia nos primeiros dias de guerra acreditavam que a tarefa se limitaria a defender suas cidades. Havia professores, programadores, taxistas e outros, a maioria sem experiência em campo de batalha.

Agora eles se encontram em um conflito cruel no Leste, uma indicação da crescente demanda da Ucrânia por combatentes de linha de frente.

Em entrevistas em ambulâncias enquanto eram retirados, mais de dez soldados ucranianos feridos disseram que a artilharia foi a causa da maioria das baixas. Eles ecoaram apelos de oficiais ucranianos para que o Ocidente transferisse mais artilharia de longo alcance para combater o bombardeio russo.

— É uma arma que eu, como atirador, não posso lutar contra — disse Goncharenko sobre a artilharia russa.

Ele foi ferido em um bombardeio intenso na borda norte da frente de batalha ao redor de Severodonetsk, quando uma árvore foi derrubada sobre a trincheira em que estava abrigado. Ele sofreu uma concussão que o deixou tonto, vomitando e incapaz de lutar.

A Rússia também pagou custos pesados. Na terça-feira, as autoridades americanas estimaram que a força de combate global dos militares russos havia sido reduzida em cerca de 20%. No final de março, a Otan estimou que 7 mil a 15 mil soldados russos haviam sido mortos.

Ainda assim, a artilharia russa devastou cidades e vilas antes do avanço e levou cerca de 80% da população de áreas controladas pela Ucrânia no Donbass a fugir.

— A única maneira de ocupar o Donbass é reduzindo-o a escombros — disse Maria Zolkina, analista política. — Se eles capturarem Donbass, será sem cidades ou pessoas.

Alguns analistas militares não veem um fim claro por enquanto, e Antony Blinken, secretário de Estado dos EUA, previu "muitos meses de conflito" pela frente. É improvável que a Rússia capture em breve as fronteiras reivindicadas de dois Estados separatistas cuja independência reconheceu em fevereiro. E a Ucrânia parece longe de estar pronta para um contra-ataque para virar o jogo.

— Esta é uma guerra onde o território vai mudar de mãos, não há ponto de parada lógico no conflito e não há impasse — disse Michael Kofman, diretor de estudos russos do CNA, um instituto de pesquisa em Arlington, Virgínia. — Esta vai ser uma guerra muito longa.

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