Cenário de incertezas marca encontro do Mercosul; “Bloco está enfraquecido”, diz especialista

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A Cúpula do Mercosul se reúne nessa quinta-feira (21) em Assunção, no Paraguai, após dois anos sem encontros presenciais por conta da pandemia de Covid-19. O evento marca a passagem da presidência do grupo para o Uruguai, respeitando o rodízio na liderança da organização. Completando 31 anos de criação, o Mercosul vive momentos de incerteza e de crise, especialmente por conta do cenário de colapso das maiores economias do bloco: o Brasil e a Argentina.

Por Tatiana Ávila, em colaboração para a RFI

O professor da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) Luciano Wexell Severo, aponta o Brasil como um dos grandes responsáveis pela deterioração do bloco. Para ele, a reversão dos avanços sociais e políticos que haviam sido alcançados na década anterior, somada ao cenário de pandemia, acabou empurrando a economia da região para níveis mais baixos.

Um outro problema é a desintegração econômica, ou seja, a diminuição da nossa interdependência. Nós estamos comprando cada vez menos de nós mesmos. O comércio intrabloco vem caindo e este quadro está relacionado à presença crescente da China na região. A omissão do Brasil como líder da integração regional, a postura descuidada do governo brasileiro, acabou abrindo caminho para iniciativas desagregadoras”, explica.

Severo afirma ainda que, historicamente, o Brasil sempre promoveu ações para a integração do bloco, com iniciativas de consenso, mas que hoje o país perdeu protagonismo, especialmente por conta do nível de dependência econômica em relação à China, que nunca foi tão alto, abrindo espaço para que outras nações passassem a articular negociações isoladas com outros países. Os chineses são responsáveis hoje pela compra de mais de um terço das exportações brasileiras, o equivalente a 31,8%. O presidente do Uruguai, Luis Lacalle Pou, anunciou essa semana a abertura formal de negociações do país com a China, o que foi motivo de críticas.

“O Mercosul não previa e nem estimulava que os países isoladamente negociassem tratados ou acordos com terceiros. Mas muito longe de querer justificar a postura do Uruguai, vale tentar entender a posição que eles assumiram. Nossa região é desigual e assimétrica, assim Brasil e Argentina teriam, com relação ao Paraguai e Uruguai, a obrigação fazer uma condução estratégica do processo de integração e gerar benefícios para esses países. Por isso que o Mercosul sempre tratou com muito cuidado a liberalização total das relações comerciais. O Mercosul se preocupou em garantir uma série de reservas para que os países menores fossem tratados de maneira diferente, mas faltaram esforços para que o bloco, leia-se Brasil e Argentina, continuasse comprando do Uruguai e Paraguai”, afirma.

O Mercosul e a UE

O acordo de livre comércio do Mercosul com a União Europeia também enfrenta impasses. Para Luciano Wexell Severo, o tratado tem pontos controversos e suas vantagens não são muito claras. Ele explica que muitos dos produtos do bloco teriam dificuldade em entrar no mercado europeu com competitividade, enquanto os produtos europeus teriam capacidade de dominar o mercado sul-americano, não sendo uma negociação vantajosa de integração. A tendência é que haja uma nova rodada de discussões antes de qualquer aprovação.

Quanto ao futuro do Mercosul, especialmente com as eleições presidenciais no Brasil, Severo destaca que este é o momento de repensar a interdependência econômica do bloco e promover políticas conjuntas para aproveitar as oportunidades, sendo possível estimular setores que ainda não têm alta competitividade. Além disso, é importante, em sua opinião, promover uma nova agenda para os setores já consolidados.

“O Mercosul é responsável por 80% da soja que a China compra do mundo. No caso das carnes, o bloco chega a abastecer os chineses com 40% de tudo o que eles compram; celulose, 25%; minério de ferro, 25%. Ou seja, nós precisamos nos organizar, a partir das relações Brasil e Argentina, a partir do Mercosul, e unir esforços para criar uma agenda mais propositiva. Não podemos perpetuar nossa condição primário exportadora e sim gerar valor dentro da região e criar empregos. Nós temos que resolver os nossos problemas usando os nossos recursos. Nós temos meios, mas nos faltam projetos. Falta uma compreensão, especialmente das elites políticas, sobretudo neste momento, da importância que o Brasil tem no mundo e a importância que a América do Sul tem para o lugar do Brasil no mundo. Acredito que a partir de janeiro de 2023 existam as condições para uma retomada desse caminho”, finaliza.

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