Cenário mudou, mas BC não alteraria sua decisão sobre os juros, diz Fabio Kanczuk

Por Marcela Ayres

Por Marcela Ayres

BRASÍLIA (Reuters) - O cenário mudou pelo coronavírus desde que o Banco Central cortou os juros básicos em 0,5 ponto na semana passada, a 3,75% ao ano, mas a autoridade monetária teria tomado a mesma decisão para a Selic, indicou o diretor de Política Econômica do BC, Fabio Kanczuk, nesta quinta-feira.

Em coletiva virtual de imprensa, ele reconheceu que, de lá para cá, o surto do Covid-19 promoveu uma intensificação das medidas de isolamento, com impacto expressivo na atividade industrial e nos serviços. Segundo Kanczuk, o BC segue atento a essas alterações.

"Isso significa que se a gente fosse fazer um novo cenário básico, isso seria diferente hoje? Provavelmente sim", afirmou.

"Isso implica que a decisão de política monetária seria diferente hoje? Não, não implica não."

Kanczuk avaliou ser importante destacar que a decisão de política monetária toma como base o balanço de riscos e, em linha com o que o BC já vinha dizendo em suas comunicações oficiais, esse balanço ficou com variância maior.

"O peso do cenário básico é menor porque as caudas da distribuição ficaram maiores, o peso de cenários alternativos é muito grande", explicou ele.

O diretor ressaltou que os cenários alternativos traçados pelo BC consideraram "bastante efeito" da pandemia, com quadros extremos sendo abarcados.

No relatório trimestral de inflação publicado nesta quinta-feira, o BC projetou inflação abaixo da meta em todos os seus cenários até 2021 e destacou que os desenvolvimentos relacionados ao coronavírus tiveram "papel fundamental" na queda das estimativas, com o mergulho no preço das commodities e perspectiva de fraqueza na economia anulando o impacto do dólar mais caro.

Por outro lado, o BC reiterou que vê como adequada a manutenção da taxa Selic em seu novo patamar. Nesse sentido, a autarquia voltou a dizer que a maior variância de riscos e novas informações sobre a conjuntura econômica serão essenciais para definir seus próximos passos.

O presidente do BC, Roberto Campos Neto, afirmou que era importante para a autarquia entender, diante do novo quadro colocado pelo coronavírus, como o mercado interpretaria o processo de reformas no país, a trajetória da dívida, e, num contexto de saída acelerada de fluxos do Brasil, o que significaria um juro menor.

Ele também citou como variáveis importantes o aumento do prêmio de risco e o chamado efeito pobreza produzido pelo mercado, considerando que somente na bolsa de valores houve perda superior a 1,5 trilhão de reais.

"Nós entendemos que 0,5 ponto era apropriado e, para fazer alguma coisa diferente disso, era importante entender o efeito disso nas condições financeiras. Porque no final das contas o que nós queremos é ter condições estimulativas", disse.

Campos Neto voltou a dizer que, analisando o comportamento do crédito na ponta, a taxa de juros deixou de ser preponderante, com as condições de liquidez e capital tendo papel mais importante na precificação dos financiamentos.

"Todo empresário hoje, conversando com bancos, tem percepção que de fato existe restrição, bancos estão tentando encurtar o prazo e colocar no preço essa nova crise, na forma de liquidez e na forma de exigência maior de capital nos balanços. Então nós temos atuado nesse sentido", disse.

O presidente do BC defendeu as medidas já anunciadas pela autoridade monetária que vão justamente nessa direção, como o financiamento a bancos usando debêntures como lastro e a securitização de crédito, pelas instituições, com a emissão de letras financeiras que serão usadas como garantias para crédito concedido pelo BC.

Campos Neto também repetiu que a autoridade monetária não tem ferramentas para a compra direta de dívidas de empresas, a exemplo do que foi feito em grandes economias, e acrescentou que "o canal de intervenção e atuação é sempre via sistema bancário".

Dentro do mesmo tema, ele considerou o financiamento para folha de pagamento das empresas uma iniciativa importante num momento como o atual, mas destacou que não cabe ao BC fazê-lo.

"Não está dentro do nosso domínio e dentro do nosso mandato", disse.

O sistema bancário é líquido, sólido e bem provisionado e seguirá sendo monitorado de perto, ressaltou Campos Neto.