O cenário perfeito para o caos: inflação, fome e desgosto

Pesquisa Datafolha mostra que vantagem de Lula sobre Bolsonaro se mantém - Fotomontagem: Yahoo Notícias/Douglas Magno - AFP via Getty Images/ REUTERS - Adriano Machado
Pesquisa Datafolha mostra que vantagem de Lula sobre Bolsonaro se mantém - Fotomontagem: Yahoo Notícias/Douglas Magno - AFP via Getty Images/ REUTERS - Adriano Machado

A pesquisa DataFolha saiu ontem (23) e ao contrário do que imaginava o Palácio do Planalto, Bolsonaro se manteve nos seus 28%. Lula ainda pode vencer em primeiro turno e isso é um fato a ser lidado na campanha, mas um dos principais pontos dessa pesquisa é que alguns escândalos não arranharam a imagem do presidente, como o assassinato dos indigenistas. O que me leva a pensar o bolsonarismo.

Bolsonarismo é uma pauta de costumes, ao contrário do lulismo, que é partidário. Quando foi confirmada a morte dos indigenistas, como Bolsonaro reagiu? Dizendo que eles estavam em uma área sensível e que não deveriam estar lá. É de praxe do presidente desviar para esse tipo de pauta sem entrar realmente no problema. Bom, um foge do assunto o outro diz que não sabia de nada.

Jair Bolsonaro venceu as eleições de 2018 porque conseguiu incrustar nas pessoas o sentimento de desgaste de valores familiares, promovido por uma política e cultura de esquerda, que estaria colocando o país rumo ao caos e à bagunça. A corrupção, a “roubalheira” estavam refletindo na “maioria das famílias honestas brasileiras”. Então Bolsonaro conseguiu significar que ser de direita era ser um “cidadão de bem”.

E é por isso que Bolsonaro não sai dos 28%, o mesmo número das primeiras pesquisas de 2018, quando ele se cacifou para ser pré-candidato à presidência. Porque ele segue falando para o mesmo eleitor que tinha na corrupção um dos seus maiores problemas. Mas hoje as pessoas estão com fome. Elas não têm dinheiro para se deslocar para o trabalho, quando conseguem um. A inflação devora o Auxílio Brasil.

Bolsonaro precisa oferecer uma resposta à inflação. Outro ponto central na pesquisa é que Bolsonaro mantém-se falando para a sua claque. Não consegue crescer pelo desgaste que sofre pelas consequências de um choque inflacionário global, as consequências econômicas e políticas da pandemia, retrocessos de indicadores sociais e também a perda do poder de compra. Existe um cenário perfeito para o caos. Faltam cem dias para as eleições. São 45 dias de propaganda. Será preciso muita astúcia e genialidade, como dizia Napoleão Bonaparte, para entender esse campo de batalha moderno que é a eleição de 2022. Mas nós já vimos que em política, nada é imutável. Pelo contrário.

Lula, por outro lado, por enquanto, é só não se mexer. Ficar quieto sem entrar em pautas polêmicas. O que pode ser bem difícil pelo que temos visto nos últimos meses. O ex-presidente, entendeu, no entanto, que não deve dar assunto para o tema do ex-ministro Milton Ribeiro. Aliás, esse é um assunto que não deve chegar até a eleição, visto que se Lula pautar essa bomba, “caem mais 15 do lado dele”. Lula ainda não tocou no assunto aborto envolvendo a menina de Santa Catarina, pauta que o presidente atua com engajamento. “É só não se mexer”.

Eu acredito, piamente, que esse pleito eleitoral vai eleger um representante oriundo de um ressentimento político. Isso nunca é bom para um país. Em momentos de crise tendemos, historicamente, a eleger representantes populistas. Se formos nessa linha Lula sai na frente pois a pauta “a elite que está no poder está corroendo a sociedade” entra em acordo com um país devastado pela queda da renda. Foi essa bandeira que elegeu Bolsonaro. E isso leva uma outra questão: esses tensionamentos entre poder e povo crescem muito em ambientes conflitivos, de desconfiança e fraqueza nas representações coletivas, como o que estamos vivendo. A corrupção no ministério da Educação não deve chegar às eleições 2022 com força, mas ela mina a confiança do eleitor no sistema e coloca mais uma tempestade no caos que se instaura no Brasil. O perigo é quando se parte para a homogeneização da sociedade criando marcadores identitários conflitivos, o nós contra eles. No cenário de inflação, fome e eleições, adiciona-se um ingrediente temeroso: o desgosto.

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