Cenas inéditas da Passeata dos Cem Mil mostram anônimos e famosos marchando contra a ditadura militar

Cenas inéditas da Passeata dos Cem mil serão reveladas ao público pela primeira vez nesta sexta-feira. Encontradas na coleção Esdras Baptista, que foi doada ao acervo do Laboratório Universitário de Preservação Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (Lupa-UFF) em 2019, elas mostram anônimos e personalidades marchando contra o governo militar no Centro do Rio, em 26 de junho de 1968. Com cerca de seis minutos de duração, o filme de 16mm “estreia” em exibição gratuita, às 15h15 — on-line e presencial — no Orphan Film Symposium, de Montreal, Canadá. Para assistir, é só se cadastrar no site da instituição. Em breve, o filme também deve ficar disponível no canal da Lupa no YouTube.

Assim como outros protestos de rua da época, a Passeata dos Cem Mil foi bem documentada. Mas, após o AI-5 intensificar a repressão naquele ano, muitos registros do período foram escondidos ou se perderam, lembra Rafael De Luna, coordenador do Lupa-UFF. Aos poucos, estão reaparecendo.

— Por terem sido escondidos e armazenados em más condições, nem sempre dá para encontrar filmes desses eventos com boa qualidade, como é o caso desse — diz De Luna. — Esse é um dos filmes mais completos da manifestação que conhecemos.

Na relíquia, é possível ver a manifestação e seus protagonistas por novos ângulos. Um dos momentos mais emocionantes é um raro registro do ator Grande Otelo na marcha, de mãos dadas com duas crianças. Vinicius de Moraes, Tonia Carrero e Paulo Autran são outras personalidades flagradas, assim como o militante Vladimir Palmeira.

— Há detalhes nunca vistos antes nesse tipo de registro da passeata, como os comerciantes que haviam fechado suas lojas por medo reabrindo as portas a pedido dos manifestantes —observa De Luna. —Tudo isso enfatiza o caráter pacífico da marcha.

O filme será exibido em Montreal junto com outras relíquias da coleção Esdras Baptista. No total, a série de curtas vai dos anos 1940 aos 1960. Há registros da passagem do cosmonauta Iuri Gagarin e do revolucionário Fidel Castro pelo Rio, além do protesto dos estudantes em frente à Escola Nacional de Belas Artes, em 1953.

De Getúlio a Graciliano

Com cerca de mil latas de filmes realizados entre 1940 e 1980, a coleção Esdras Baptista vem sendo organizada desde 2019 pelos integrantes do Lupa e alunos do curso de cinema da UFF e do PPGCine-UFF. Repórter cinematográfico a partir dos anos 1950, ele filmou os principais eventos políticos do Brasil e do Rio. Fez imagens de políticos como Getúlio Vargas, além de inaugurações, obras, desfiles de misses e eventos como o retorno ao Brasil dos campeões da Copa de 1958. E também foi responsável pelas únicas imagens em filme do escritor Graciliano Ramos.

O material, que ficara empacotado na casa do realizador após a sua morte, em 1988, é composto principalmente de filmes em 16mm, em preto e branco e ainda não montados. Até a sua doação pela família, em 2019, o conjunto ainda era bastante desconhecido.

— Tem sido uma descoberta atrás da outra desde então, inclusive no trabalho de recuperação da biografia de Esdras, um nome esquecido que não está em nenhum livro de história do cinema brasileiro — diz De Luna.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos