Censura e obstáculos legais freiam movimento #MeToo na China

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(Arquivo) Zhou Xiaoxuan (2ª, pela esq.), uma ativista feminista do movimento #MeToo na China, protesta com outras mulheres, ao chegar a um tribunal de Pequim por um caso de assédio sexual, em 2 de dezemvbro de 2020 (AFP/Noel Celis)

A censura e os inúmeros obstáculos legais que as denunciantes enfrentam frearam, consideravelmente, o movimento #MeToo na China, que continua sendo um país profundamente patriarcal.

No início de novembro, pela primeira vez, o fenômeno teve como alvo os escalões superiores do poder político. A estrela do tênis Peng Shuai, de 35 anos, afirmou ter sofrido abuso sexual por parte de uma poderosa ex-liderança do Partido Comunista.

Publicada na rede social chinesa Weibo (o equivalente ao Twitter no país asiático), sua mensagem foi rapidamente censurada, antes de ter sua autenticidade verificada pela AFP.

Desde a denúncia, a tenista não foi mais vista em público. Na sexta-feira (19), a ONU e os Estados Unidos exigiram da China provas de seu paradeiro da China.

Assim como a tenista, muitas mulheres chinesas que decidiram levantar a voz viram os fatos se voltarem contra elas.

O movimento mundial contra a violência contra as mulheres #MeToo apareceu na China em 2018, depois que um grupo de mulheres denunciou casos de assédio sexual por parte de professores universitários.

A reação imediata das autoridades foi bloquear a hashtag #MeToo, assim como outras palavras-chave relacionadas com o movimento. O temor do governo era não poder controlar um movimento em grande escala.

Com frequência, a polícia prende ativistas feministas conhecidas. É o caso de Sophia Huang Xueqin, presa em setembro por "incitar à subversão do Estado", segundo a ONG Repórteres Sem Fronteiras.

- Grandes obstáculos -

Embora o presidente chinês, Xi Jinping, insista no papel das mulheres no "desenvolvimento" e no "progresso social", sua ausência em cargos importantes do governo continua sendo flagrante.

Entre os 25 membros do Politburo do Partido Comunista, há apenas uma mulher. E, ainda que uma nova lei tenha sido aprovada no ano passado para esclarecer o conceito de assédio sexual, quem denuncia continua a enfrentar grandes obstáculos.

"Você sempre tem que mostrar que é honesta (...) e que não está usando esse assunto para se colocar à frente dos outros", disse à AFP, sob anonimato, uma mulher que denunciou uma conduta sexual inadequada em relação a ela.

Já para o acusado "é realmente muito simples", porque "pode simplesmente negar e não precisa provar sua inocência", completou.

Os casos levados à Justiça costumam ser rejeitados e, na maioria das vezes, o réu apresenta uma queixa por difamação.

Um exemplo é o de Wang Qi, funcionária de uma ONG do WWF que denunciou na Internet o assédio sistemático de seu superior. Em 2018, foi processada por difamação e condenada por um tribunal a se desculpar.

A Justiça considerou que não havia provas suficientes e que ela pode ter "espalhado mentiras".

Os tribunais exigem que as supostas vítimas apresentem provas muito mais sólidas do que as fornecidas pelos acusados. De acordo com um estudo da Escola de Direito de Yale, publicado em maio, costuma-se descartar os testemunhos de familiares, amigos e colegas.

As mulheres que denunciam agressão e assédio sexual também enfrentam ataques pessoais.

Depois que o famoso jornalista Zhang Wen foi acusado de estupro por uma escritora anônima em 2018, outras mulheres acusaram-no de assédio sexual. Zhang então tentou desacreditá-las on-line, acusando-as de beber e de saírem com muitos homens.

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