Centésimo gol de Rogério Ceni, há 10 anos, teve ajuda de historiador

BRUNO RODRIGUES
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***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 13.08.2020 - Técnico do Flamengo, Rogério Ceni. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 13.08.2020 - Técnico do Flamengo, Rogério Ceni. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Fernandinho recebeu no bico da grande área e cortou para o meio. Depois que driblou Chicão, passou também por Ralf e foi derrubado pelo volante corintiano, à esquerda da meia-lua. Assim que soou o apito de Guilherme Ceretta de Lima para marcar a infração, o camisa 01 iniciou o trote da sua meta até a marca sinalizada pelo spray do árbitro.

Havia mais alvoroço nas arquibancadas da Arena Barueri do que de costume. Afinal o lance, em posição tão favorável, marcava a possibilidade de o maior ídolo da história do São Paulo anotar seu 100º gol, e diante do rival.

Após trocar algumas palavras com Carlinhos Paraíba, Rogério Ceni cobrou. E todo são-paulino já conhece o desfecho: a bola passou pela barreira e entrou no ângulo do goleiro corintiano Julio Cesar.

Desde então, o dia 27 de março é celebrado como uma espécie de feriado informal pelo torcedor tricolor.

A história, contudo, poderia ter sido outra, caso o clube do Morumbi não tivesse reconsiderado a tempo, em sua contagem oficial, dois gols de Ceni registrados em amistosos.

"Por causa do Guinness, que só seguia o critério de gols oficiais, o São Paulo aceitou uma redução de dois gols do Ceni e passou a divulgar os números dele com esses dois gols a menos", diz o historiador do São Paulo, Michael Serra, à reportagem.

"Eu chegava na minha chefia, no meu departamento, e falava: 'Pessoal, o Rogério vai chegar a 100 gols na carreira e vai dar confusão.'"

A discussão sobre os números de Ceni remonta ao recorde estabelecido em 2006, que fez dele o maior goleiro-artilheiro da história do futebol.

Com o primeiro dos dois gols que marcou diante do Cruzeiro, no empate em 2 a 2 pelo Brasileiro daquele ano, o são-paulino ultrapassou o paraguaio Chilavert. Na época, contudo, o São Paulo seguia a contagem da Fifa.

De acordo com os critérios da entidade, o gol de falta marcado no Mineirão foi o 63º da carreira de Ceni. Na concepção de Michael Serra, e do próprio clube até meses antes do processo de homologação, eram na verdade 65.

Os dois suprimidos da lista foram anotados em amistosos. Um em janeiro de 1998, contra um combinado formado por Santos e Flamengo. O outro, na Copa Constantino Cury, diante do Uralan Elista, da Rússia, em janeiro de 2000.

Contratado no início de 2010 para assumir o Arquivo Histórico tricolor, Serra alertou a comunicação do clube para a proximidade do feito histórico do goleiro e explicou os critérios para que fossem reconsiderados os dois gols.

"Aquele não era o padrão histórico brasileiro. Expliquei todo o lance que amistosos são oficiais, porque nenhum clube joga amistoso sem autorização de suas federações, senão seriam amistosos piratas. É muito simples e não sei porque existe essa lenga-lenga [sobre o que é oficial]", diz Serra.

Em 19 janeiro de 2011, três dias depois de o goleiro marcar de pênalti contra o Mogi Mirim, o São Paulo publicou um comunicado no qual unificou a marca de Ceni, incluindo os gols dos amistosos. Com a recontagem, o ídolo são-paulino tinha 96 gols na carreira.

Linense (falta), Portuguesa (falta) e Paulista (pênalti) foram as vítimas seguintes de Ceni, com o 99º gol marcado justamente no jogo anterior ao clássico com o Corinthians.

Por isso tamanho alvoroço no momento em que Guilherme Ceretta de Lima apitou a falta. Ceni cobrou e marcou o segundo gol do São Paulo (que venceria por 2 a 1), tirou a camisa comemorativa que celebrava a proximidade do 100º e correu para a torcida.

Em texto publicado em seu site oficial, o Corinthians relatou o gol do goleiro como o 98º de sua carreira, e justificava o uso do número em concordância com os dados da Fifa.

A entidade, entretanto, registrou no próprio dia o gol de Ceni como o centésimo, levando em consideração a contagem do clube do Morumbi.

"O futebol às vezes escolhe alguns roteiros para contar uma história que parecem até exagerados, de tão perfeitos. Se o torcedor do São Paulo pudesse descrever uma ocasião específica para o dia em que Rogério Ceni chegasse ao 100º gol de sua carreira, provavelmente não chegaria a algo tão emocionante como o que aconteceu neste domingo", disse o texto da Fifa.

Para Michael Serra, a glória. Pessoal, ao celebrar como qualquer são-paulino a marca do ídolo. E profissional, ao contribuir para a escrita de episódio tão especial na vida do clube. BR