Centenário de José Saramago destaca legado político e humanista do escritor

Violante Saramago ainda se lembra do silêncio que desceu sobre a Prefeitura de Estocolmo naquele 10 de dezembro de 1998. Quando seu pai, o escritor português José Saramago, tomou o microfone para discursar naquela cerimônia “absolutamente faustosa”, o Banquete do Nobel, a surpresa calou todos os dignitários ali presentes. Não se ouvia “nem moscas a voar nem formigas a passar”, recorda Violante. Todos esperavam que o escritor, que completaria 100 anos em 16 de novembro, se limitasse a resumir o que já havia dito ao receber o prêmio três dias antes, na Academia Sueca, quando passara em revista a própria obra.

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Mas Saramago preferiu falar sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que se tornava cinquentenária naquela quinta-feira. Lamentou a indiferença dos governos em assegurar os direitos consagrados no texto, aprovado pelas Nações Unidas após a barbárie da Segunda Guerra Mundial. E disse que “nenhuns direitos poderão subsistir sem a simetria dos deveres que lhes correspondem”.

“Com a mesma veemência e a mesma força com que reivindicamos os nossos direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa começar a tornar-se um pouco melhor”, provocou.

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“Cá está Saramago outra vez”, pensou Violante, ao ouvir aquelas palavras. O brilho de Estocolmo não havia cegado o escritor que trazia a pobreza estampada no nome (saramago é uma planta que os camponeses comiam em tempos de penúria).

Eventos e novas edições

Aquele discurso de apenas cinco parágrafos inspirou um documento que já chegou até a ONU: a Carta Universal dos Deveres e Obrigações dos Seres Humanos. Redigida por estudiosos convocados pela Universidade Nacional Autônoma do México (Unam), a carta afirma deveres e obrigações como a distribuição equitativa dos alimentos “com vistas à erradicação da fome”, a promoção de “condições dignas e seguras de trabalho, com uma remuneração justa” e, obviamente, “o cumprimento dos direitos reconhecidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos”.

Nas comemorações do centenário de Saramago, marcadas por eventos e publicações — de novas edições de romances ao álbum biográfico “Saramago: os seus nomes”, de Alejandro García Schnetzer e Ricardo Viel —, a divulgação da Carta Universal dos Deveres e Obrigações dos Seres Humanos destaca o legado humanista do único Nobel lusófono, que revolucionou a escrita em língua portuguesa ao reinventar gêneros literários e subverter as convenções, dos diálogos à pontuação.

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—Nossa cultura ocidental prefere direitos a deveres, mas, se calhar, os últimos são mais importantes que os primeiros. Se cumprirmos nossos deveres, nossos direitos estão quase que automaticamente assegurados — diz Violante, que acrescenta que o pai defendia “valores”, não um programa político.

A redação da Carta Universal foi iniciativa do reitor da Unam, José Narro Robles, em 2015. Os primeiros esboços do documento foram escritos por juristas e ativistas de vários países em Lisboa, em parceria com a Fundação José Saramago. Ex-ministro da Suprema Corte do México e redator da Carta, José Ramón Cossío ressalta a importância da “mudança de tom” expressa no discurso do escritor, que convidou cidadãos que “só se viam como titular de direitos” a “assumirem suas responsabilidades individuais e coletivas”. Ele destaca a relevância do documento em tempos de “irrupção do populismo, ataques aos direitos humanos, crise ecológica, pós-verdade e aumento da iniquidade social”:

— Em situações como essas, as pessoas tendem a esquecer deveres para consigo mesmas e para com os demais e buscam exercer direitos reais e imaginários às custas de tudo e de todos. Nesses momentos, ainda que pareça utópico, é indispensável recordar a existência de obrigações e responsabilidades.

Ex-embaixador de Portugal na Unesco e um dos principais impulsionadores da Carta na Europa, António Sampaio da Nóvoa diz que toda revolução tem início com “uma alteração de vocabulário”:

— Procuramos honrar o legado de Saramago e projetá-lo nas lutas cada vez mais intensas por direitos humanos, liberdade de todas as pessoas, fim das fronteiras, igualdade, respeito à diversidade e à diferença e solidariedade. Por um humanismo mais que humano.

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Saramago nasceu em Azinhaga, na região de Santarém, numa família camponeses sem estudo. Foi serralheiro mecânico e acumulou trabalhos burocráticos antes de viver da literatura, já beirando os 60 anos. Penou para se enturmar nas panelinhas literárias lisboetas, dominadas por escritores que, diferentemente dele, não descendiam de analfabetos que tiravam seu parco sustento da roça. Filiou-se ao Partido Comunista Português em 1969 e, quando perguntado como continuava fiel ao comunismo após os crimes de Stálin, provocava: “E como se pode o senhor ser católico depois da Inquisição?”. Desafeto da Igreja, foi ameaçado de censura ao publicar, em 1991, “O evangelho segundo Jesus Cristo” e voltou a espicaçar a religião com “Caim”, de 2009.

O escritor era solidário a Cuba (embora tenha se afastado do regime castrista após a execução de dissidentes em 2003), à luta dos indígenas e zapatistas mexicanos (esteve com o subcomandante Marcos), e à Palestina (num ataque a Israel, comparou os campos de refugiados na região aos campos de concentração nazistas). Criticou também a adesão da esquerda à ortodoxia econômica e o poder desmedido de instituições como o FMI, que, para ele, “não se interessa por seres humanos”.

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Mas em que medida suas posições políticas forjaram sua literatura? Saramago afirmou sua opção pelos oprimidos nos romances que o catapultaram ao estrelato literário nos anos 1980, como “Levantado do chão”, que retrata as lutas de camponeses alentejanos, e “Memorial do convento”, que descreve como a monarquia e a Inquisição esfolaram os pobres na construção do Palácio Nacional de Mafra, com ouro do Brasil, no século XVIII.

A política também aparece em obras como “A jangada de pedra”, “Ensaio sobre a cegueira” e “Ensaio sobre a lucidez”, na qual um governo supostamente democrático reprime violentamente a população após os votos brancos ganharem a eleição.

Saramago, porém, negava ser “um escritor comunista que escreve de acordo com uma orientação política e ideológica determinada e que usa a literatura para difundir essa orientação”.

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Viúva do romancista e presidente da Fundação José Saramago, Pilar del Río também insiste que a literatura dele “não é correia de transmissão de ideias políticas”.

— Nos seus livros, está José Saramago inteiro. Não são material de doutrina, são literatura. Nunca ouvi Saramago se definir por sua militância política, que era consequência do humanismo que o levava a votar no Partido Comunista e colaborar com a esquerda na prática cotidiana dos valores democráticos — diz ela.

Num ensaio incluído no recém-lançado “As artemagens de Saramago”, a crítica literária Leyla Perrone-Moisés defende que o português não era um escritor “engajado” e sim “compromissado” com uma ética individual. Não à toa, dispensou o realismo, gênero adotado por escritores engajados para denunciar a injustiça, e apostou em distopias, fábulas e alegorias para exercer sua crítica, sem jamais atribuir “a qualquer classe social o monopólio da bondade ou da maldade”. “O ideário geral de Saramago”, escreve Leyla, “encaixou-se por afinidade na ideologia política socialista, mas não tem pretensão científica e messiânica do marxismo contentando-se com princípios gerais que podem ser considerados simplesmente humanistas”.

Sabedoria iletrada

Tanto as obras como as opiniões políticas de Saramago, arrisca a crítica literária, se ancoram na em sua experiência pessoal e familiar: “São tributárias de seu avô Jerónimo, ao mesmo tempo representante de uma classe social injustamente oprimida e exímio contador de histórias”.

José Ramón Cossío destaca um texto que, segundo ele, não só prova essa hipótese como também fundamenta a ética do escritor e “toda a sua vida literária e moral”. Trata-se do outro discurso nobélico de Saramago, proferido no dia 7 de dezembro de 1998, que começa com uma homenagem ao avô: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever”.