Brasil tem um milhão nas ruas em protestos com dezenas de feridos

Tropa de choque da policia controla manifestação na Espalanada dos Ministérios, em Brasília, nesta quinta-feira (20)

Ao menos uma pessoa morreu e dezenas ficaram feridas nos protestos que reuniram mais de 1 milhão de brasileiros nesta quinta-feira, em diversas cidades do país, para exigir serviços públicos de qualidade e denunciar os gastos com a Copa do Mundo, entre outras reivindicações.

A presidente Dilma Rousseff, que acompanhou os protestos do Palácio do Planalto, convocou uma reunião de emergência para a manhã desta sexta-feira com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, para discutir os efeitos das manifestações.

O primeiro óbito da onda de manifestações que abala o Brasil ocorreu em Ribeirão Preto, no interior do Estado de São Paulo, onde um jovem de 18 anos foi atropelado por um automóvel, segundo a Polícia Militar.

A imprensa local informou que o veículo tentou passar por um grupo de manifestantes que bloqueava uma rua e atropelou três pessoas, matando o jovem e ferindo as outras duas.

No Rio de Janeiro, uma enorme multidão tomou conta de toda a extensão da Avenida Presidente Vargas, no centro da cidade, em um protesto que reuniu mais de 300 mil pessoas e terminou de forma violenta.

Os confrontos entre manifestantes e policiais, alguns a cavalo, começaram nas imediações do prédio da Prefeitura, na Cidade Nova, mas depois se estenderam por todo o centro da cidade.

Segundo a imprensa local, ao menos 62 pessoas ficaram feridas nos confrontos, incluindo um jornalista da Globonews atingido na testa por uma bala de borracha. Um veículo do SBT foi incendiado por manifestantes próximo à sede da prefeitura, na Cidade Nova.

No Hospital Souza Aguiar, no centro do Rio, soldados do Batalhão de Choque atiraram balas de borracha e jogaram uma bomba de gás lacrimogêneo contra o interior da unidade, onde eram socorridos manifestantes feridos.

Os policiais tentaram entrar no hospital para prender manifestantes que se refugiaram no local, mas foram impedidos por funcionários.

"Se querem estar seguros, não venham ao Rio de Janeiro, não venham à Copa do Mundo, porque se vierem vão ajudar este governo que atira contra nós", disse Rodrigo Neves, um jovem de 20 anos, à AFP.

Em Brasília, o protesto reuniu mais de 30 mil pessoas e milhares de manifestantes tentaram invadir o Congresso Nacional, sendo reprimidos pela Polícia de Choque, que utilizou bombas de gás lacrimogêneo.

A multidão seguiu então para o Palácio do Itamaraty, onde tentou entrar no prédio por uma das rampas de acesso, provocando um confronto que destruiu parte da fachada do prédio.

Segundo os serviços de emergência da capital federal, 35 pessoas ficaram feridas nos confrontos, sendo três em estado grave.

Em Salvador, a polícia disparou bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha contra cerca de 20 mil manifestantes concentrados na zona do estádio onde Nigéria e Uruguai se enfrentavam pela Copa das Confederações. Algumas pessoas jogaram pedras para tentar furar a barreira policial e se aproximar mais da Fonte Nova, segundo jornalistas da AFP no local.

Pelo menos um manifestante ficou ferido atingido por um disparo de bala de borracha nos confrontos, que também deixaram um policial ferido.

Milhares de pessoas gritaram "O gigante acordou!" e entoaram lemas contra a presidente Dilma Rousseff, contra a homofobia e o racismo.

Ainda em Salvador, dois micro-ônibus da Fifa foram apedrejados diante do hotel onde está hospedado parte do pessoal da Federação Internacional de Futebol. A fachada do prédio também foi atingida.

A polícia de choque reagiu ao ataque com bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e gás de pimenta.

Em São Paulo, o protesto reuniu mais de 100 mil pessoas na Avenida Paulista, onde houve brigas entre manifestantes quando um grupo denominado "Os Nacionalistas" tomou bandeiras do PT e do PSTU das mãos de militantes, queimando-as em seguida.

Membros da UNE, do PSOL e de outras organizações também foram hostilizados na capital paulista.

Também ocorreram distúrbios em Porto Alegre, onde 15 mil pessoas protestaram, e em Belém, 13 mil.

Em Campinas, no interior de São Paulo, a TV local informou sete feridos em incidentes em torno da prefeitura.

No Recife, outra sede da Copa Confederações, mais de 50.000 pessoas tomaram as ruas, segundo a Polícia. À medida que a multidão avançava pacificamente pelo centro da cidade, as pessoas jogavam papel branco picado do alto dos edifícios.

Em Vitória, outra manifestação reuniu mais de 100 mil pessoas no centro da cidade, e um pequeno grupo atacou com rojões o prédio do Tribunal de Justiça.

Os protestos também mobilizaram 15 mil pessoas em Belo Horizonte, 30 mil em Cuiabá, 20 mil em Aracaju, 70 mil em Manaus, 10 mil em João Pessoa, 8 mil em Fortaleza e 4 mil em Curitiba.

-- Indignação geral --

Os protestos, que deixaram a classe política brasileira perplexa, começaram exigindo a revogação do aumento do preço das passagens de ônibus, metrô e trem, mas rapidamente outras reivindicações e denúncias foram feitas, como os 15 bilhões de dólares dos contribuintes destinados à Copa das Confederações e ao Mundial de 2014.

Os manifestantes, em sua maioria jovens de classe média, expressam sua indignação pelo aumento do custo de vida e pela má qualidade dos serviços públicos, no momento em que o país registra um crescimento econômico decepcionante e uma inflação em alta.

Também denunciam a corrupção arraigada na política brasileira e exigem maiores investimentos em educação, saúde e segurança.

Estes são os maiores protestos na história do Brasil.

Nem a desistência de mais de dez prefeituras e governos estaduais em aumentar os preços das passagens de metrô, trem e ônibus serviu para reduzir o entusiasmo dos manifestantes.

As cidades de Belo Horizonte e Campo Grande comunicaram planos para baixar o preço do transporte público, seguindo os passos de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Cuiabá, Recife e João Pessoa.

O lema dos protestos passou a ser "Não é só por vinte centavos", em referência ao aumento do preço da passagem de ônibus anulado, e fóruns relacionados aos movimentos nas redes sociais tinham até um milhão de seguidores.

Em Washington, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) manifestou nesta quinta-feira sua preocupação com a violência das forças de ordem contra manifestantes e jornalistas.

"A Comissão pede às autoridades que investiguem o possível uso excessivo da força, e se for o caso, que julguem e punam os responsáveis", destaca um comunicado.

O Estado brasileiro "deve garantir e proteger a integridade física e a segurança de manifestantes e jornalistas".