Influente líder xiita pede apoio à ocupação do Parlamento iraquiano

O influente líder político xiita Moqtada Sadr pediu, neste domingo (31), a seus apoiadores que aumentem os protestos e apoiem os manifestantes que ocupam o Parlamento iraquiano, pelo segundo dia consecutivo, em um momento de grave crise política.

Apesar do gás lacrimogêneo, canhões d'água e altas temperaturas que chegavam a 47ºC, os manifestantes invadiram o hemiciclo, localizado na chamada Zona Verde, a área mais protegida de Bagdá, onde instituições e embaixadas estão localizadas.

Quase dez meses após as eleições de outubro, o Iraque ainda não tem um novo governo.

Sadr, um clérigo que já liderou uma milícia contra as forças do governo iraquiano e os militares dos Estados Unidos, usa os protestos para sinalizar que suas opiniões devem ser levadas em consideração na formação do novo governo, segundo analistas.

O estopim para a ocupação foi a decisão do bloco xiita, de tendência pró-iraniana, de nomear o ex-ministro do Executivo Mohammed Shia al-Sudani para o cargo de primeiro-ministro.

Esta manhã, os manifestantes comemoraram o mês muçulmano do Muharram, uma celebração tradicional xiita, com cantos religiosos e grandes refeições comunitárias.

Pelo Twitter, Sadr celebrou uma "revolução espontânea e pacífica que libertou a Zona Verde", o que considera "uma primeira etapa" e "uma oportunidade extraordinária para uma mudança fundamental no sistema político".

Por isso, reforçou a necessidade de prosseguir com a mobilização e pediu a "todos", incluindo deputados, forças de segurança e membros do Hachd Al Shaabi (ex-paramilitares pró-iranianos integrados nas forças armadas), que apoiem "os revolucionários".

Voluntários distribuíram sopa, ovos cozidos, pão e água aos manifestantes, que arrumavam colchões para passar a segunda noite no Parlamento.

Também receberam instruções para se revezar e garantir a ocupação do local, no qual já haviam entrado brevemente na última quarta-feira para protestar contra a candidatura de Al Sudani.

"Esperávamos o melhor, mas tivemos o pior. Os políticos que estão atualmente no Parlamento não nos trouxeram nada", disse um dos manifestantes, Abdelwahab al-Jaafari, de 45 anos.

- Bloqueio -

Em um Iraque multiétnico, formar um governo envolve negociações complexas desde que a invasão liderada pelos Estados Unidos em 2003 derrubou Saddam Hussein.

A bancada de Sadr emergiu das eleições de outubro como a facção parlamentar mais importante, mas longe da maioria.

Inicialmente, a corrente sadrista tinha a ambição de nomear o primeiro-ministro e formar um governo de "maioria" com seus aliados curdos e sunitas.

Em junho, seus 73 parlamentares renunciaram na tentativa de pressionar por um novo governo. Ainda assim, nenhum acordo foi alcançado para nomear um chefe de gabinete.

Mohammed Shia al Sudani foi indicado para primeiro-ministro pela aliança do Quadro de Coordenação, uma coalizão de facções xiitas pró-iranianas que inclui o partido do ex-primeiro-ministro Nouri al-Maliki e representantes dos Hashd Al Shaabi.

Agora, "a mensagem de Sadr para aqueles que estão tentando formar um governo é que ele tem o poder das ruas", explicou à AFP Renad Mansour, do centro de pesquisa britânico Chatham House.

"Ele espera usar esse poder para frustrar as tentativas de seus oponentes de formar um governo."

Tanto as Nações Unidas quanto a União Europeia alertaram para a escalada das tensões.

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, pediu "diálogo pacífico e inclusivo" para formar um governo nacional eficaz, enquanto a UE defendeu negociações construtivas.

Além disso, as autoridades curdas iraquianas no norte do país se ofereceram para mediar conversas em sua capital, Erbil.

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