Centralização de presidente do Uber cria desafio para busca de diretor de operações

SÃO FRANCISCO, Estados Unidos (Reuters) - Procura-se: Vice-presidente de operações capaz de ajudar uma gigante do Vale do Silício a mudar sua cultura machista e que seja capaz de crescer em um ambiente de poder que entrega ao chefe controle absoluto.

Na Uber Technologies, o co-fundador e presidente-executivo, Travis Kalanick, comanda todas as decisões na empresa, até mesmo a hora exata em que são abertas as torneiras de cerveja na sede da companhia em São Francisco.

O estilo de gestão deve-se a mais do que um mero culto à personalidade.

A governança e estrutura acionária do Uber e os termos amigáveis aos fundadores da empresa dos aportes de capital que atingem os 13 bilhões de dólares, dão a Kalanick controle total sobre a companhia, segundo documentos do Uber e um investidor da empresa com conhecimento do assunto.

E conforme o Uber busca um diretor de operações que possa, em teoria, assumir parte da autoridade de Kalanick, isso pode virar um problema.

"Este vice-presidente de operações terá que ter influência em um nível que seja do conselho de administração para haver alguma mudança", afirmou Dave Carvajal, um recrutador de executivos especializado em companhias de tecnologia.

O controle quase total de Kalanick é possível em grande parte por uma estrutura de ações de dupla classificação que dá a certos acionistas 10 votos por ações, de acordo com o certificado de incorporação da companhia, protocolado junto ao Estado de Delaware.

Kalanick, junto com Garrett Camp, co-fundador da empresa; e Ryan Graves, o presidente-executivo antes de Travis; têm quantidade suficiente dessas super ações para manterem o controle da empresa, segundo um investidor do Uber com conhecimento do assunto.

Manter o controle com os fundadores se tornou popular no Vale do Silício recentemente e essas circunstâncias ajudaram o Uber a obter 68 bilhões de dólares em valor de mercado, a maior marca de qualquer companhia privada apoiada por investimentos de risco.

Mas recentemente o Uber foi atingido por escândalos, incluindo acusações de assédio sexual sofridos por uma funcionária e um vídeo que mostra Kalanick repreendendo severamente um motorista do serviço semanas depois de ter prometido "amadurecer" e contratar um diretor de operações que o ajudasse a liderar.

A busca por um diretor de operações está em curso, mas o diretor de recursos humanos da empresa declarou no mês passado, que Kalanick, 40, já mostra um estilo mais colaborativo.

A estrutura de ações da empresa deixa os investidores com poucas opções se perderem a paciência com Kalanick, embora haja pouco sinal de que isso esteja acontecendo. Com duas exceções públicas, os investidores têm ou apoiado Kalanick ou se mantido em silêncio uma vez que todos os números importantes da empresa continuam crescendo.

Os diretores de operação mais efetivos têm ampla autoridade e acesso direto ao conselho de administração, afirmam especialistas em governança corporativa. No Facebook, por exemplo, a vice-presidente de operações, Sheryl Sandberg, trabalha em parceria com o fundador e presidente-executivo, Mark Zuckerberg, e possui um assento no conselho de administração da rede social.

No Uber, não é tão difícil de vislumbrar como um arranjo de compartilhamento de poder poderia ser ou como o fundador impetuoso poderia ser um agente de mudança de gestão sob tal estrutura de governança, dizem especialistas.

"As pessoas não gostam de corrigir o próprio dever de casa", disse Bill Aulet, diretor de gestão do centro empresarial do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. "Esta é uma situação em que os mecanismos de equilíbrio não existem."

Um porta-voz do Uber recusou fazer comentários para esta reportagem.

Uma série de saídas de executivos de alto escalão do Uber, incluindo do presidente Jeff Jones no mês passado e da chefe de comunicações Rachel Whetstone nesta semana, centralizou ainda mais a autoridade com Kalanick e criou dúvidas sobre seus vice-presidentes.

Kalanick é conhecido por obsessão sobre detalhes como decoração do escritório e sobre questões mais importantes como estratégia de preço e relações com motoristas.

Em um momento, Kalanick chegou a ordenar que as torneiras de cerveja do escritório ficassem fechadas em certos horários depois de expressar descontentamento com um funcionário que estava bebendo, disse um ex-funcionário da companhia.

O executivo também cuidou de perto do redesenho do logotipo do Uber no ano passado, apesar de não ser um designer, afirmou uma fonte próxima da companhia. O chefe de design, Andrew Crow, anunciou sua demissão da empresa um dia depois que o novo logotipo foi divulgado.

Este tipo de controle pode evitar que candidatos qualificados a diretor de operações aceitem ofertas da empresa se tiverem que trabalhar "com um braço amarrado nas costas", disse Robert Siegel, professor da Universidade de Stanford e investidor na XSeed Capital.