Centro de Educação da UFPE terá 1ª travesti formada em pedagogia

Ana Flor diz que trabalhar com educação “tornou-se um projeto de vida”. Foto: Arquivo Pessoal

Após 69 anos de sua fundação, o Centro de Educação da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) terá sua primeira travesti formada como pedagoga. Ana Flor Fernandes Rodrigues tem 23 anos, mora em Recife e afirmou ao blog que o curso foi uma descoberta.

Essa descoberta, segundo ela, fez com que ela conseguisse visualizar estratégias frente ao amplo campo da educação. “Nem sempre foi um sonho, mas tornou-se um projeto de vida”, disse em entrevista ao blog.

“Escolhi fazer pedagogia por compreender que o campo da educação sofria de grande carência de uma cosmovisão travesti”, afirmou dizendo que ela passou a questionar que existe uma ausência de professoras, gestoras e coordenadoras travestis em escolas.

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Além disso, ela diz que também teve vontade de construir práticas pedagógicas que viabilizassem um tipo de educação que acolhesse pessoas trans e travestis para que essa população também tivesse processos de ensino e de aprendizagem que fossem saudáveis.

Ana Flor, que irá se formar ano que vem, já tem ideias para o seu futuro. “O meu plano inicial é de passar no mestrado em educação do Centro de Educação da UFPE. Sempre quis ser professora universitária, mas me vejo preocupada com nossa atual conjuntura política e os ataques às universidades”, disse.

Segundo ela, isso inviabiliza a construção de seu projeto de vida. “Garantir um ensino superior público, gratuito e de qualidade é um direito constitucional”, constatou contando um pouco sobre as experiências que já teve na área.

“Já estive dando aula durante um ano para o ensino fundamental 1, e também fiquei durante seis meses dando aula para a Educação de Jovens e Adultos. Também já estive na escola para analisar o funcionamento da gestão escolar como pré-requisito de outras disciplinas”, relembrou.

De acordo com Ana Flor, existe um aprendizado constante sobre o campo da educação e ela afirma que gosta das trocas que a sua formação está lhe proporcionando. “Não é possível aprender tudo, mas é possível aprender algo. Estou aprendendo a ser uma professora que respeita as diferenças e que trabalha com e para a excelência”, contatou.

Mesmo assim, existem momentos de conflito: “Enquanto pesquisadora de gênero sexualidade, e também uma travesti, percebo que parece existir um estranhamento constante quando estou dando aula. Estranhamento esse que interpreto como um incômodo das pessoas por nunca terem imaginado uma travesti professora”.

Ana Flor entende a importância do que ela representa. Mesmo se dizendo ficar “assustada” com o fato de ser a primeira travesti a se formar pedagoga na instituição, ela afirma estar feliz por abrir portas para todas as outras que virão depois dela.

Mas ela faz questão de dizer que não conseguiu o feito sozinha. “Me formar só será possível graças ao apoio da minha família. Um apoio de afeto, acolhimento e financeiro. Passar por um curso superior de cinco anos não é fácil, mas é menos turbulento quando sua família está com você e torcendo por você”, finalizou.