Centro do Rio ganha novos projetos culturais para ajudar na revitalização do bairro

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RIO — Durante um ano e meio, a necessária combinação de isolamento social e home office transformou o Centro em um deserto de concreto, com consequências para a economia local. O avanço da vacinação e a queda nos índices de contágios e óbitos mostram que, como apontam especialistas, a pandemia perde espaço a cada dia. É hora, portanto, de voltar a ocupar o bairro onde o Rio cresceu. Aproveitar sua vocação natural é uma forma eficiente de fazer isso. Poder público e iniciativa privada apostam, portanto, na retomada de atividades culturais para devolver vida às suas ruas.

A ideia é combinar investimentos em infraestrutura e a conversão de prédios comerciais em residenciais, facilitada pela nova legislação urbanística criada pela prefeitura para a área (Reviver Centro), com formas variadas de atrair a população. Um bom exemplo é a reabertura do Amarelinho da Cinelândia, já com data marcada, o próximo dia 20, e programação de reinauguração garantida: a casa, em atividade no Centro desde 1921, foi comprada pelos donos da rede de botecos Belmonte e vai ganhar show de reinauguração do compositor Moacyr Luz, em comemoração ao Dia Nacional da Consciência Negra.

— O Centro vai vingar. Um espaço como aqueles não podia ficar fechado. Vamos manter a marca Amarelinho e os pratos tradicionais, mas também vamos servir PFs, com preços mais acessíveis ao público — disse o empresário Antônio Rodrigues, dono da rede Belmonte.

Na Rua Pedro Lessa, a 200 metros do Amarelinho, André Breves planeja retomar as apresentações de jazz no próximo fim de semana, agora com apoio da prefeitura. Desde 2015, a ‘‘Banca do André’’ virou um point de música ao vivo. Em 2020, a pandemia silenciou o lugar.

— Vamos retornar com calma, respeitando a dor de pessoas que perderam entes queridos para a Covid. O importante é ocupar espaços para atrair mais gente — disse.

A tese de que a cultura vai ajudar a revitalizar o Centro tem mais adeptos:

— As atividades culturais são fundamentais para melhorar a reputação do Centro e ajudar a requalificar a região —diz o secretário de Planejamento Urbano, Washington Fajardo.— Oferecer programações para diversos públicos, inclusive famílias é fundamental. Para isso, também estamos recuperando os espaços públicos— acrescentou.

Infraestrutura

Como parte da PPP da iluminação pública, 75% da região já foi modernizada com lâmpadas de LED. A prefeitura também prepara um projeto para reurbanizar as ruas do principal comércio popular da região: o Saara. Também está nos planos uma expansão do VLT do Centro, que terá novo terminal no Caju para se integrar ao futuro BRT Transbrasil

Por semana, a prefeitura recebe pelo menos três consultas de investidores interessados na área central. Até o momento, já foram aprovados três projetos e um quarto se encontra em licenciamento. O último empreendimento autorizado foi a conversão de um modesto escritório de 33 metros quadrados, na Rua do Resende, em moradia. Os outros projetos já autorizados são residenciais na Rua do Acre e na Rua Irineu Marinho. O primeiro é o maior deles: um prédio de 21 andares, com 117 apartamentos , parte com vista para a Baía de Guanabara.

O cientista político Antonio Mariano, que comanda o Instituto Rio 21, articula um movimento entre empresários para revitalizar o Centro

— A área tem boas atrações em espaços de interesse histórico que organizam atividades e eventos. Mas atividades de perfil mais popular são opções interessantes e podem pesar na decisão de morar no bairro.

O subprefeito do Centro, Leonardo Pavão, diz que desde o início do ano medidas têm sido adotadas para atrair mais gente. Uma das próximas ações será o aumento em 30% da oferta de vagas de estacionamento rotativo no fim de semana, para levar mais público a eventos e ao comércio:

— Medidas simples estimulam uma nova relação com o Centro. Ao reabrirmos o Campo de Santana (fechado no início da pandemia) aumentou o movimento no Saara. A retirada das grades da Praça Mahatma Gandhi atraiu mais gente — exemplifica o subprefeito Pavão.

Em outubro, como parte da retomada de atividades após o período mais crítico da pandemia, a prefeitura organizou eventos-testes com shows nas imediações da Igreja da Candelária. Na Praça XV, está recuperando o piso da área, um dos principais pontos de prática de skate de rua da cidade :

— Morava na Zona Oeste quando comecei a frequentar o Centro para andar de skate. Acabei me mudando para a Cruz Vermelha — conta Wilson Domingues, o Willer, presidente do Coletivo XV, movimento que contribuiu para acabar com a proibição oficial da prática do skate em praças.

O subprefeito Pavão contou ainda que uma das futuras iniciativas será resgatar a realização às segundas-feiras das rodas de samba com perfil mais tradicional na Pedra do Sal.

Shows na Fundição

O Teatro Municipal reabriu oficialmente na semana passada. Essa semana, a Fundição Progresso , na Lapa, retoma suas oficinas artísticas. Os shows voltam em dezembro. Perfeito Fortuna, que dirige o local, comemora:

— Estamos de volta, cantando e dançando, dando graças à vida — disse.

Na volta ao circuito, a Feira do Lavradio, agora com música instrumental, passou a acontecer todos os sábados, e não apenas uma vez por mês . A cada 15 dias, a programação incluirá eventos de lançamento e debate: na estreia do projeto “Lavradio Literário” será neste sábado, com Celia Maria Antonacci, autora de “Apontamentos da Africana e Afro-Brasileira Contemporânea”.

— Os expositores estão voltando aos poucos. Antes da pandemia tínhamos até 450 estandes, hoje são 250. A ideia de organizar eventos em outros sábados foi mesmo para estimular a frequência —diz o empresário Plínio Froes, diretor do Polo Novo Rio Antigo e dono do Rio Scenarium.

No sábado passado, uma pequena turma de sete turistas acompanhava em frente ao Palácio Tiradentes a apresentação da trupe Revelando o Brasil, que faz em todo o Estado representações teatralizadas da história do Brasil Império. A companhia voltava ao Centro depois de dois anos:

— Circular pelo Paço Imperial, o Arco do Teles e no entorno foi emocionante. As pessoas ainda estão temerosas de vir para o Centro no fim de semana, mas já começamos a encontrar um movimento— disse Antônio Cardoso da Silva, que comanda o grupo.

Raízes na cultura brasileira também vão embalar o Zungu2021, roteiro da gastronomia preta que ocorrerá entre os dias 18 e 28 de novembro. O organizador, Kanu Akin Trindade, conta que o bairro terá o maior número de participantes no festival. O Centro será representado por GG Gourmet Villa Olivia (Ladeira Torres Homem), Casa do Nando (Rua do Lavradio), Ateliê Bonifácio (Rua do Senado),Boteco & Gafieira do Seu França (Rua Joaquim Silva) e Da PedraBar (Rua Argemiro Bulcão).

O nome do festival, explica o organizador, tem origem africana e designa as “casas de angu”, redutos de comida do início do século XIX transformados em centros de resistência negra. O Centro também é cultura.

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