CEO da Engie diz que Eletrobras privatizada estimula investimentos e competição no setor de energia

Com a privatização da Eletrobras, a Engie perdeu o primeiro lugar no ranking e assumiu a vice-liderança entre as empresas privadas de energia no país.

Maurício Bähr, principal executivo da companhia francesa no Brasil, avalia que a concorrente, agora sem controlador definido, deve fomentar um ambiente de mais investimentos no setor, com foco em fontes renováveis de energia. Espaço para crescer e para competir no Brasil não falta, avalia.

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Segundo ele, o consumo de uma família americana é equivalente a dez vezes o de uma brasileira. A empresa está de olho na transição energética para uma economia de baixo carbono, que ganhou fôlego com a escalada do petróleo, na esteira do conflito entre Rússia e Ucrânia. No Brasil, há projetos de energia eólica no Nordeste e discussões de acordos para hidrogênio verde. O que falta, afirma, é rever a legislação para incentivar novas fontes.

Com o preço do petróleo na faixa de US$ 120, como fica o cenário para investimento em energia de fonte renovável?

A subida do preço do petróleo ajuda a acelerar a transição energética para uma economia de baixo carbono. No Brasil, a gente tem 10 gigawatts de capacidade instalada. Isso é 6% do mercado brasileiro. Estamos investindo forte no Nordeste, com projetos na Bahia, no Rio Grande do Norte e buscando aumentar a capacidade, principalmente com projetos eólicos.

Qual é o cenário para aumento de capacidade no país?

O mercado brasileiro de energia é interessante porque tem muito espaço para competição. Você tem um grande player, a Eletrobras, que foi privatizada. A gente amanheceu com a Eletrobras, que agora virou a maior empresa privada de geração de energia do Brasil, tirando a nossa liderança. A gente vê com bons olhos essa expansão e a saída do governo de uma atividade que os empresários podem cuidar. O governo pode dar atenção a outros temas prioritários, como educação, saúde, segurança.

Como a Eletrobras privada vai mexer com o mercado?

A Eletrobras privada vai acabar trilhando um caminho parecido com o nosso. Quando compramos a Gerasul, que era uma empresa controlada pela Eletrobras, tínhamos só quatro clientes que compravam energia da empresa. Hoje, tem mais de mil. É uma transição para atendimento de um mercado mais amplo, mais diversificado. E para a busca de eficiência e recomposição da capacidade de investimento que a Eletrobras vai ter.

Não descartaria, inclusive, a hipótese de a Eletrobras se transformar em uma empresa internacional em determinado momento, quando conseguir ter aspectos administrativos internos resolvidos. Vai poder olhar não só possibilidades no Brasil, como ir além da fronteira e trabalhar oportunidades na região. Vai ter muito mais liberdade para atuar. É uma avenida enorme de possibilidades.

Isso vai fomentar no setor mais investimento, com um ‘player’ grande com mais fôlego?

Sim, pois haverá certa simetria de objetivos entre a maior parte dos agentes. Até hoje, o Brasil só desenvolveu capacidade de geração para suprir suas próprias necessidades.

A Europa querendo importar hidrogênio verde, tendo a possibilidade de produzir no Brasil, pode abrir um potencial para desenvolver a geração além da necessidade da demanda local. Cria a possibilidade de exportar energia verde, através do hidrogênio.

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O senhor fala em hidrogênio verde, mas estamos discutindo subsídio ao diesel no país...

A gente tem dependência grande em relação ao diesel por conta do transporte rodoviário. Mas a gente vê crescer o modal ferroviário, que passa a transportar produção agrícola e mineral. Tudo isso vai melhorar a eficiência e fazer com que os trens no futuro possam ser movidos a hidrogênio. A Idade da Pedra não acabou por falta de pedra. Com a idade do combustível fóssil, a gente não vai esperar acabar o combustível fóssil.

O desafio é otimizar o despacho de energia, a transmissão e ter a tecnologia. Mas, para isso, a legislação precisa evoluir. O Brasil fez coisas que necessitaram de subsídio, com o Proinfa (incentivo a fontes renováveis). A primeira usina eólica no Brasil foi construída assim. As fábricas começam a se instalar, e a gente passa a ter acesso a energia mais barata. Hoje, ela está metade do preço. Talvez no início haja necessidade de subsídio, mas depois é natural tirar e deixar o mercado se organizar.

E quais projetos a empresa está desenvolvendo?

Estamos fazendo um projeto grande eólico que se chama Santo Agostinho, no Rio Grande do Norte, de quase R$ 2,5 bilhões de investimento. Estamos avaliando um projeto eólico novo na Bahia de quase mil megawatts. Buscamos acordos com o governo do Ceará para estudar algo de hidrogênio verde no Porto de Pecém.

Estamos viabilizando projetos de hidrogênio verde para substituir óleo combustível e diesel com algumas empresas. A gente sabe que tem um prazo para se materializar. É como jabuticaba. Demora 15 anos para dar a primeira fruta, mas, se não plantar, não vai comer nunca. A crise geopolítica na Europa vai trazer iniciativas de realocação de indústrias para outros continentes. O Brasil pode atrair investimentos.

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Por que ainda não sentimos esse movimento?

É questão de tempo. As multinacionais que têm experiência no Brasil estão satisfeitas com o ambiente de negócios. Se você pensa no consumo per capita de energia elétrica, é impressionante. Uma família americana consome dez vezes o que uma família brasileira consome.

Obviamente, isso não quer dizer que o padrão correto é o americano. Mas a gente poderia viver com um pouco mais de conforto. Se 100% das famílias brasileiras tivessem máquina de lavar roupa, imagina o quanto isso representaria de conforto e consumo? O mundo estava em uma fase de globalização, todo mundo estava confortável em depender de outros países. De repente veio a Covid. Todo mundo começou a se fechar um pouco.

Os países estão tentando ser autossuficientes. Mas daqui a pouco a gente consegue um equilíbrio.

Como a inflação está afetando o dia a dia?

Afeta toda a base de custos. É consequência da crise, após dois anos de Covid e, agora, a guerra entre Rússia e Ucrânia. A gente sofreu atrasos na entrega de material, turbina, pás para usinas eólicas e equipamento solar. Há impacto em atraso, capacidade de investimento e preços, com as commodities subindo muito. Isso não se refletiu no preço da energia, beneficiado pelas chuvas.

Se os equipamentos estão subindo, e o preço da energia pelo qual a gente consegue vender no mercado não sobe na mesma proporção, vai ter um desincentivo a novos investimentos. O preço no mercado spot (livre) está na casa dos R$ 60. Com ele, não se consegue viabilizar a construção de uma usina. A gente precisa de sinalização para contratos de longo prazo com preços na casa dos R$ 200. É o preço para viabilizar investimentos em eólica e solar.

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Mas tem ambiente político para essa discussão agora?

O que existe é um marco regulatório propício no Brasil para incentivo. Há uma vontade das geradoras de concentrarem o foco em energia renovável. Quando você traduz o preço da energia em moeda forte, a energia no Brasil ainda é barata.

O grande componente de custo para o consumidor final é o imposto. Quando se soma o custo de geração, transporte e distribuição, talvez represente metade ou um pouco mais da metade do custo final. O restante é imposto. Equacionar a correta aplicação dos impostos seria interessante.

Na infraestrutura, investimento é de longo prazo. Mas com alta de juros, de inflação e eleição, o que norteia essas decisões?

Um investimento tem payback (retorno) de 20 anos. Vai passar por pelo menos cinco governos ou, se alguém for reeleito, um pouco menos. A gente não está pensando no governante atual ou no futuro, mas na estabilidade regulatória, em como os contratos são respeitados.

O fato de os contratos no Brasil terem alguma forma de indexação à inflação é importante. Hoje há abundância de crédito. Então é a combinação de acesso a crédito, inflação nos contratos e estabilidade regulatória. O Brasil precisa muito dessa melhoria de infraestrutura.

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A Engie fez uma parceria com a Copel para disputar o leilão de linhas de transmissão marcado para este mês. O que motivou a parceria?

Temos o desejo de investir em linhas de transmissão. Já temos duas linhas finalizando a construção, uma no Paraná e outra no Tocantins e no Pará. Cada uma com mil quilômetros. O novo leilão tem investimentos maiores.

A gente achou interessante fazer uma parceria e a Copel se mostrou interessada. Temos a oportunidade de ficar mais competitivos. Nosso objetivo é vencer em torno de mil quilômetros a cada dois anos.

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