Cerca de 35% das praias do Rio de Janeiro estão poluídas

JÚLIA BARBON
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RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Mergulhar olhando para o morro Dois Irmãos no Leblon, boiar em frente ao Pão de Açúcar no Flamengo ou se refrescar depois de um voo de asa-delta na não tão famosa São Conrado não poderia ser uma má ideia, certo? Errado. Essas praias turísticas do Rio de Janeiro estão entre as que não estavam apropriadas para banho em ao menos 25% dos testes de balneabilidade feitos em setembro, outubro e novembro deste ano, segundo dados do Inea (Instituto Estadual do Ambiente). Essa é a realidade de um terço dos trechos de mar das zonas sul e oeste da capital fluminense, classificados como ruins ou péssimos no período (13 de 37). O levantamento da qualidade das praias é feito anualmente pelo jornal Folha de S.Paulo, mas em 2020 só incluiu um trimestre porque o órgão suspendeu as medições no início da pandemia. Mas como identificar onde e quando mergulhar? O engenheiro e oceanógrafo David Zee, professor da Uerj (Univesidade do Estado do RJ), explica que é preciso analisar a cor e o cheiro da água, além de evitar certos lugares até dois dias após fortes chuvas. É que, quando chove, o que é comum no verão, toda a sujeira da cidade é "lavada" para dentro do mar. Nos lugares onde não há rede coletora, como em favelas, o esgoto acumulado em valões entra nos bueiros e escorre pelas galerias pluviais, que em tese só deveriam carregar água da chuva. Em tempos de seca, a rede de esgoto consegue coletar, pré-tratar e depois lançar esse material no meio do oceano, a três ou quatro quilômetros da costa carioca, por meio de tubos gigantes que se chamam emissários submarinos, assim como acontece em Santos (SP). Depois, o mar faz seu trabalho. A água fria e salgada e a luz do Sol matam os organismos e limpam a sujeira. Quando chove, porém, os emissários não dão conta da vazão e o esgoto extravasa diretamente para as redes pluviais, os canais e, finalmente, as praias. É por isso que se formam as chamadas línguas negras, grandes manchas escuras que às vezes desembocam no mar e são registradas em fotos ou vídeos, ou até grandes manchas verdes na água --lgas que se proliferam porque o esgoto serve como um adubo. E é por isso que se deve evitar locais próximos a essas desembocaduras logo após grandes chuvas. "Nesses primeiros dias, a sujeira se espalha e é preciso deixar o mar trabalhar, se você vai à praia nesse momento o risco de pegar uma doença é grande. Entre 24h e 72h, ele se recupera sozinho", diz Zee, especializado em sustentabilidade de cidades costeiras. Ele explica que, quando essas algas morrem, por exemplo, produzem uma toxina que pode provocar gastroenterite (infecção intestinal) ou doenças de pele. A primeira pista para descobrir se a água está própria para banho é ver se sua cor está azul ou esverdeada. Ela não pode estar marrom, escura ou opaca. Também precisa ter cheiro de maresia, e não de lixo. Outra dica é entrar até a altura da coxa e conferir se você consegue ver seu próprio pé. No Rio de Janeiro, duas praias que todo carioca já sabe que são sujas são Botafogo e Flamengo (o que não quer dizer que não haja banhistas). O motivo é a historicamente fétida baía de Guanabara, que afunila naquela região antes de desaguar no mar aberto. O problema do saneamento é agravado pelo lixo. No sábado (19), a ONG alemã One Earth One Ocean (OEOO Rio) organizou um grande mutirão para retirar mais de 20 toneladas de resíduos sólidos das águas e do entorno da baía. "Estimativas apontam que cerca de 90 toneladas de resíduos sejam despejados por dia nas águas da baía. É urgente readaptar a estrutura de coleta de resíduos às necessidades da população e aumentar a conscientização", diz Laura Kita Kejuo, diretora da ONG no Brasil. Chegando nas praias oceânicas do Rio, outros trechos que normalmente estão ruins ou péssimos e exigem maior atenção são o Leblon, principalmente próximo ao canal do Jardim de Alah, e São Conrado, por receber o esgoto das favelas do Vidigal e da Rocinha e de condomínios de luxo. O início da Barra da Tijuca, já na zona oeste, também é desaconselhado dependendo da época e apesar de a água às vezes parecer cristalina. Isso porque o canal da Joatinga concentra todo o esgoto lançado nas lagoas da região e o "vomita" no mar. Essa contaminação se espalha até próximo do posto 4. Depois, seguindo até Guaratiba, a situação melhora. "O turista tem que ser esperto e começar a perceber, assim com certeza vai aproveitar a praia com segurança e qualidade", aconselha o oceanógrafo David Zee. Procurada, a Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade do RJ afirmou em nota que tem trabalhado para aumentar a cobertura de coleta e tratamento de esgoto em cidades do entorno da baía de Guanabara através de um progama chamado PSAM. A pasta informou que concluiu em abril a construção do tronco coletor Cidade Nova, reduzindo o despejo de equivalente a 24 piscinas olímpicas de esgoto por dia na baía, e que está implementando o Sistema de Esgotamento Sanitário de Alcântara, em São Gonçalo, que evitará o despejo de mais 41 piscinas diárias. "A secretaria também vem atuando arduamente para diminuir os impactos da poluição no complexo Lagunar da Barra e Jacarepaguá. Temos instaladas e operando cinco ecobarreiras, que impedem que resíduos flutuantes e plantas macrófitas cheguem ao sistema lagunar", disse.