Cerca de 40% das vítimas de minas antipessoais na Colômbia são civis

Por Rodrigo ALMONACID
1 / 3
(Arquivo) Foto tirada em 26 de maio de 2015 mostra caça-minas removendo uma mina em La Virgen, na Colômbia

Quase 40% das mais de onze mil vítimas de minas antipessoais na Colômbia, o segundo país do mundo mais afetado por este flagelo depois do Afeganistão, são civis, entre eles 1.142 menores de idade, revelou um informe oficial.

Desde 1990 e até 31 de março de 2017 foram registradas 11.481 vítimas de minas antipessoais (MAP) e Remanescentes de Explosivos de Guerra (REG), das quais 4.425 são civis, segundo um informe do Centro Nacional de Memória Histórica (CNMH), ao qual a AFP teve acesso e que será apresentado na quarta-feira em Bogotá.

Dos civis afetados, cerca de 30% são menores de 18 anos e 25%, erradicadores manuais de cultivos ilícitos, detalhou o relatório, intitulado "La guerra escondida. Minas Antipersonal y Remanentes Explosivos en Colombia" (A guerra escondida. Minas Antipessoais e Remanescentes Explosivos na Colômbia, em tradução literal).

"As afetações em crianças e adolescentes são muito importantes em seus corpos e requerem uma atuação médica imediata e cara", disse à AFP a pesquisadora do CNMH Maria Elisa Pinto.

Além disso, do total geral de vítimas, 7.028 são membros das forças públicas, acrescentou o documento, o primeiro realizado no país com "perspectiva de memória histórica".

Cerca de 20% das vítimas morreram por causa das explosões e 98% das explosões ocorreram em zonas rurais, acrescentou.

As principais responsáveis pela instalação destes artefatos, segundo a investigação, são as guerrilhas das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc, marxistas), que assinaram um acordo de paz histórico com o governo em novembro, e o Exército de Libertação Nacional (ELN, guevarista), que negocia com o governo o fim de meio século de conflito armado.

Durante 52 anos, a Colômbia viveu uma guerra fratricida que confrontou guerrilhas, paramilitares e agentes do Estado, que deixou 220.000 mortos, 60.000 desaparecidos e 6,9 milhões de deslocados.

"Não foi aleatório o uso de MAP no país por parte das guerrilhas, mas respondeu a uma estratégia de combate e a uma lógica de controle territorial e populacional por parte destes grupos, produzindo, no entanto, um efeito indiscriminado na população civil", explicou o informe.

Com a instalação destes explosivos, os rebeldes buscam proteger zonas históricas, suas retaguardas, cultivos ilícitos, ativos estratégicos ou causar dano físico e psicológico ao adversário, prosseguiu o documento.

"Tendência decrescente"

O texto, que coletou dados da estatal Direção para a Ação Integral contra Minas Antipessoais (Daicma), advertiu que, apesar de que "se observa uma tendência decrescente", este "é um problema que continuará persistindo no território nacional por anos".

"O fenômeno do [campo] minado se concretizou", acrescentou Pinto, Setecentos dos 1.032 municípios do país estão minados. Destes, 25 concentram 50% destes explosivos.

Os departamentos onde se reportaram mais vítimas são Antioquia (noroeste), Meta (centro), Caquetá (sul), Nariño (sudoeste) e Norte de Santander (sudeste).

"O desafio que a Colômbia tem agora é facilitar a atenção e a reabilitação das vítimas", assegurou Pinto.

A Colômbia assinou em 1997 a Convenção de Ottawa, que proibiu o uso destas armas, e que entrou em vigor em 2001. O Exército colombiano usava as minas como parte do arsenal para a segurança de algumas de suas bases, cuja retirada de minas começou assim que o tratado foi firmado.

O país aspira a se livrar das minas em 2021, razão pela qual em fevereiro passado o governo começou os trabalhos de retirada dos explosivos em 40% da zona afetada.

As Farc se comprometeram no acordo de paz a ajudar neste trabalho, enquanto o ELN e o governo anunciaram, no começo de abril, um plano piloto, no âmbito dos diálogos de paz que celebram em Quito e como parte de medidas para reduzir a intensidade dos enfrentamentos.

Segundo a Direção contra Minas, entidade subordinada à Presidência, entre 2004 e fevereiro passado foram realizadas atividades de retirada de minas em 128 municípios, foram destruídos 5.491 artefatos e limpa uma área de mais de dois milhões de metros quadrados de um total de 52 milhões de metros quadrados de território contaminado.