Em Chicago, Martin Luther King encarou racismo mais hostil que no sul dos EUA

Antonio Zavala.

Chicago (EUA), 4 abr (EFE).- Durante o quente verão de 1966, Martin Luther King Jr. levou a Chicago sua cruzada nacional para acabar com a segregação racial e se deparou com uma luta ainda mais "hostil e odiosa" do que aquelas que protagonizou no sul dos Estados Unidos.

Luther King, cujo assassinato completa 50 anos nesta quarta-feira, chegou a Chicago ao lado de companheiros de sua organização Southern Christian Leadership Conference para combater a segregação nos bairros brancos onde, com a ajuda de negócios de bens imobiliários e políticos locais, pessoas negras eram impedidas de alugar ou comprar imóveis.

O maior defensor dos direitos civis do país decidiu viajar ao norte do país porque, segundo argumentou, o racismo estava muito enraizado por causa "de altos níveis de discriminação institucionalizada".

Para erradicar esta realidade, ele lançou a campanha "Verão da Liberdade", com a qual buscava que os moradores afro-americanos tivessem um acesso igualitário aos imóveis.

Como parte dessa campanha, o ativista planejou passeatas nas quais a fúria do racismo ficou evidenciada em lugares como o bairro Marquette, em Chicago, no dia 5 de agosto de 1966.

Naquele ardente dia de verão, Luther King, acompanhado por 700 pessoas, marchou pelo Parque Marquette, no lado sul da cidade, onde se encontraram com milhares de manifestantes brancos enfurecidos porque estes se tinham atrevido a entrar no seu bairro para dizer-lhes o que deviam fazer em matéria de habitação.

Sobraram insultos e ameaças, como um cartaz na qual se lia "King ficaria bem com uma faca nas suas costas", e uma chuva de garrafas e pedras, uma das quais atingiu a cabeça do líder dos direitos civis, que foi protegido por seus guarda-costas para prevenir maiores danos. Pelo menos 30 pessoas ficaram feridas no confronto, e a polícia não teve outro remédio que intervir, detendo 40 pessoas.

A violência no norte do país foi uma iluminação para Martin Luther King Jr., que nunca antes no sul do país tinha sido confrontado dessa maneira.

"Vi muitas manifestações no sul, mas nunca vi algo tão hostil e tão odioso como vi aqui hoje", disse King no dia da marcha.

Na sua tentativa de que Chicago fosse uma cidade aberta e alheia à discriminação, Luther King organizou nesse mesmo verão um comício no estádio Soldier Field que atraiu cerca de 30 mil pessoas.

"Neste dia devemos declarar nossa proclamação de emancipação. Neste dia devemos nos comprometer a fazer qualquer sacrifício necessário para mudar Chicago. Neste dia devemos decidir encher as prisões de Chicago, se for necessário, para terminar com os bairros marginais", declarou naquele 10 de julho.

O líder hispânico Omar López tinha 21 anos quando Luther King passou o verão de 1966 na cidade e lembra dos fatos.

"Ele deixou uma marca muito boa na cidade e nos mostrou como se tinha que confrontar as instituições para combater a discriminação e o racismo", afirmou López, agora com 73 anos, à Agência Efe.

López, que nessa época trabalhava com a organização Latin American Defense Organization (LADO), antes de unir-se aos Young Lords, um grupo mais radical, contou que então a "discriminação em Chicago era muito aberta e violenta".

Ele ainda lembra o dia no qual Martin Luther King Jr. foi assassinado em Memphis (Tennessee), em 4 de abril de 1968, mas, embora já tenha passado meio século, acredita que seu "legado está assegurado na história para sempre".

Como ele, muitos receberam com tristeza e indignação a notícia da sua morte e o oeste da cidade viveu várias noites de revoltas, que o então prefeito, Richard J. Daley, quis acabar com uma notória ordem de "atirar para matar ou mutilar os saqueadores", em uma demonstração de que o trabalho de Luther King ainda estava longe de terminar. EFE