Cerrado paulista ruma para recorde de dez anos em focos de fogo

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SÃO PAULO — A área de Cerrado do estado de São Paulo, o bioma onde ocorreu o incêndio que provocou uma chuva de cinzas na zona oeste da capita paulistal no último domingo, registra neste ano um recorde. Do início do ano até esta terça-feira, foram mais de 1.300 focos de fogo registrados pelo satélite de referência usado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) no monitoramento. É o maior número desde 2010 para o período.

O incêndio, que atingiu parte do Parque Estadual do Juquery, um enclave desse ecossistema com feição de savana colado na região metropolitana de São Paulo, foi controlado só no terceiro dia, depois de destruir cerca de mil hectares, metade da área dessa unidade de conservação.

No país todo, o Cerrado enfrenta um aumento no fogo. Por trás do problema estão principalmente a fragmentação do bioma pelo desmatamento e os períodos de seca cada vez mais longos, um efeito no clima regional já previsto como consequência da mudança climática global.

A maior frequência de fogo na porção paulista do bioma, porém, preocupa ecólogos que o estudam, pois parte da flora e fauna do cerrado no estado não existe nas partes do bioma mais ao norte. Diferentemente do que ocorre nas regiões de fronteira agrícola do Centro-Oeste, porém, o fator de ignição do incêndio no Juquery não foi uma queimada em pastagem, e sim a queda de um balão.

— Ele caiu no parque por volta das 8h30 do domingo e se enroscou nos eucaliptos. O fogo foi da copa para baixo, depois para as outras áreas, e o combate foi muito difícil — conta Vladimir Arrais, coordenador da operação corta-fogo da Fundação Florestal, órgão que gerencia as unidades de conservação do estado.

— Como foi um balão, foi um incêndio criminoso.

O trabalho de contenção do fogo precisou de mais de 200 pessoas usando abafadores e mochilas hídricas, carros pipa, bombas d'água em caminhonetes, avião e helicópteros. Até a tarde de ontem, os bombeiros consideravam que o fogo estava controlado, mas não totalmente debelado, porque algumas áreas ainda estavam sofrendo reignição e precisavam ser rescaldadas.

Arrais afirma que o clima desta semana naquela área de morro tornou o risco de fogo altíssimo por preencher o que os brigadistas chamam de "Lei dos 30-30-30": temperatura acima dos 30°C, ventos ultrapassando 30 km/h e umidade relativa do ar abaixo de 30%.

Esse é o tipo de condição que, segundo o último relatório do IPCC, o painel do clima da ONU, se tornará mais frequente.

— O atraso nas monções da América do Sul, que traz as nossas chuvas de verão, está prolongando as estações secas — afirma a ecóloga Mercedes Bustamante, da Universidade de Brasília (UnB), coautora do documento e uma das maiores especialistas do país em Cerrado.

— A gente vai ter alguns dos maiores extremos de temperatura do mundo aqui no nosso continente, incluindo essas condições meteorológicas propícias ao incêndio.

Incêndios ocasionais, explica a cientista, são comuns nesse bioma, que consegue se recuperar após alguns anos. Quando o regime de fogo aumenta muito em frequência, porém, a cobertura vegetal não se sustenta, com as árvores sendo as plantas mais prejudicadas.

O que acontece no próprio Juquery é um exemplo do cerrado no restante do país, segundo os dados do projeto MapBiomas Fogo, que calcula o histórico de área queimada no Brasil.

Desde a década de 1990, o parque vinha registrando incêndios cada vez maiores, e bateu recordes em 2002, 2011 e 2018, quando queimaram 155 hectares de vegetação. Os cerca de 1.000 hectares que queimaram agora estão acima da capacidade de recuperação dessa unidade de conservação, caso se tornem mais frequentes.

— O que a gente está vendo agora é compatível com o que se espera das mudanças climáticas — afirma Marcos Rosa, coordenador técnico do MapBiomas.

Praticamente todos os fragmentos com vegetação nativa de Cerrado que restaram em São Paulo estão em unidades de conservação, o que é uma boa notícia. Com as condições de alastramento do fogo permanecendo ativas por mais tempo no ano, porém, é preciso maior vigilância para que essas áreas não sejam atingidas por balões ou queimadas em pastagens que usam fogo inadequadamente.

— O Cerrado dessa área do Sudeste é um centro de biodiversidade para a flora do bioma. Se perdermos o cerrado dessa região, não podemos substituir essa biodiversidade conservando cerrado em outras áreas do Brasil — diz Bustamante, da UnB.

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