Cerrado perdeu um Equador em meio a “milagre do agro”

O cerrado é o bioma brasileiro com maior degradação: Quase metade de sua cobertura original que se extende por 10 Estados e DF foi convertida em pastos ou plantações. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)
O cerrado é o bioma brasileiro com maior degradação: Quase metade de sua cobertura original que se extende por 10 Estados e DF foi convertida em pastos ou plantações. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)

O Cerrado brasileiro perdeu um Equador inteiro de vegetação nativa nos últimos 37 anos. São mais de 28 milhões de hectares – área do nosso quase vizinho Equador – convertido em agropecuária ao longo do período conhecido como Milagre do Cerrado.

O trabalho bem sucedido da Embrapa para desenvolver uma soja resistente ao clima da maior savana do mundo em biodiversidade levou a uma explosão do grão oriental no centro do país. Em 1985 havia pouco mais de 1 milhão de hectares de lavouras de soja no Cerrado. Hoje são quase 20 milhões de hectares, ou quase a área do Paraná inteiro.

O Estado sulista é um caso à parte. Um dos maiores produtores do grão no país, produzindo aproximadamente 20 milhões de toneladas de soja em 2021, o Paraná praticamente não perdeu vegetação nativa no período – já bastante afetada antes mesmo da década de 1980. Hoje, como então, resta um terço de savana no Estado.

Ao contrário do ocorrido no planalto central, o Paraná trocou pastagens de gado por soja. Em todo o resto do bioma, no entanto, o que se observou foi o avanço do Agro sobre o cerrado, expandindo as fronteiras agrícolas.

Os dados, que fazem parte da última coletânea sobre o uso e ocupação da terra no país nos últimos 37 anos, foram produzidos pelo MapBiomas a partir das imagens dos satélites Landsat, e mostram o impacto gerado pela agricultura no planalto central do país.

Na última década a principal fronteira agrícola é o Matopiba, como é conhecida a região de encontro dos estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia – daí a sigla. Sozinho, o Matopiba corresponde a 80% da conversão direta de vegetação nativa para sojicultura entre 2011 e 2021. Antes dele, o Mato Grosso já havia perdido quase 7 milhões de hectares de Cerrado – além da área de Amazônia desmatada–, sendo hoje sozinho um dos maiores produtores de soja do mundo.

“O Cerrado está passando por dois processos simultâneos de transformação. Por um lado, áreas de pastagens convertem-se em lavouras. Por outro, no entanto, vemos as lavouras entrarem diretamente sobre a vegetação nativa. Isso indica que o aumento de produção no bioma não está se dando graças a melhores práticas e manejo de solo, mas pela abertura de novas áreas de cultivo”, derende Dhemerson Conciani, pesquisador do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e que faz parte da equipe do Cerrado no MapBiomas.

Com o uso intensivo de irrigação, as lavouras da região vêm afetando diretamente as bacias hídricas da região, sobre a do Rio São Francisco, principal a cortar no nordeste do país.

A bacia do rio São Francisco perdeu metade da sua superfície natural de água natural entre 1985 e 2020. Essa redução ocorreu apesar do acúmulo de água em reservatórios como Sobradinho, Xingó e Três Marias, provocado em parte pela expansão da agricultura irrigada no cerrado.

A tendência de queda na sua superfície é clara e já vinha sendo observado. Um estudo feito em 2013 pela extinta Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência já indicava que poderia haver uma perda de até 65% da vazão até 2040, com base no registro de 2005.

Para o biólogo e pesquisador Reuber Brandão, o Cerrado brasileiro vive um momento dramático: o desmatamento e o avanço descontrolado do agronegócio sobre o território estão matando nascentes de água, sem que haja uma cobrança dos responsáveis pelo impacto. Além do rio São Francisco, outras sete das 12 principais bacias hidrográficas do país nascem no segundo maior bioma do país, perdendo só para a Amazônia.

"Quando você exporta uma commodity como a soja, o valor da água e da biodiversidade perdidas não está embutido no preço da semente. Por isso, o Brasil é competitivo", disse o pesquisador em entrevista.

Brandão aponta que boa parte do bioma já está perdido para sempre. Conservar o restante do Cerrado, diz, seria um movimento estratégico mais importante do que manter o país na posição de maior exportador de soja do mundo.

Empresas de consultoria do agronegócio estimam que as lavouras se estendam por mais 2 milhões de hectares do Matopiba até 2030, avançando sobre o que consideram a sub-exploração do potencial que a região tem.

Os dados do Mapbiomas mostram que praticamente um terço do impacto humano em áreas do Cerrado aconteceu nos últimos 37 anos. Em 2021, pouco mais da metade do bioma ainda está coberto por vegetação nativa, contra mais de 67% em 1985.

Para os pesquisadores responsáveis pelo estudo, os dados de satélite confrontam um discurso comum do agronegócio a respeito das suas práticas sustentáveis e para aumento da produtividade em contraponto ao desmatamento.

Na próxima semana o Cerrado ganhará um novo sistema de monitoramento de alertas de desmatamento. Semelhante ao que já é produzido sobre a Amazônia, o Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado (SAD Cerrado), será lançado na segunda-feira (12) pelo MapBiomas em parceria com institutos de pesquisa.